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Empédocles de Acragas: O amor une e a discórdia desune

  Por: Silvério da Costa Oliveira.

 Empédocles de Acragas

 Empédocles de Acragas, hoje Agrigento, (495/483/482-430 a.C.) segundo a tradição escreveu dois livros, “Sobre a natureza” e “Purificações”, tendo-nos chegado somente fragmentos de sua obra. Enquanto o primeiro livro aborda a temática tratada de modo mais científico e filosófico, o segundo livro nos apresenta uma abordagem mais voltada a natureza e ao destino da alma. Os comentadores divergem quanto à ordem cronológica em que os mesmos foram escritos, apresentando seus argumentos sobre qual dos dois seria o primeiro a ser escrito e por qual motivo.

Os fragmentos hoje disponíveis foram preservados por serem citados nas obras de Aristóteles, Simplício e Plutarco, já as opiniões e explicações sobre sua obra, a doxografia, provém basicamente de Platão, Aristóteles e Teofrasto. Em 1990 foram encontrados novos fragmentos em um papiro que tinha sido obtido em 1904 de um antiquário no Cairo, Egito, e estava guardado no depósito da Biblioteca Nacional de Estrasburgo, notícia que foi dada aos meios de imprensa em 1999.

Segundo a tradição, foi médico, legislador, dramaturgo, político, poeta, professor e filósofo. A lenda que surgiu em torno de seu nome o apresenta também como mago, curandeiro e profeta.


 

As histórias lendárias sobre Empédocles são muitas e, por vezes, um pouco bizarras e provavelmente todas falsas ou deturpadas. Dentre estas histórias temos que ele teria posto fim a sua vida se atirando no interior da cratera do vulcão Etna, na região hoje pertencente a Itália. Em comentadores e doxógrafos encontramos relatos de que Empédocles afirmava saber compor poções mágicas contra doenças ou mesmo para retardar a velhice, habilidade para controlar os ventos e as chuvas, e também técnica para evocar a força vital (alma ou espírito) dos mortos que estavam no Hades. Há dentre os comentadores e doxógrafos quem afirme que Empédocles se considerava uma divindade, sendo por isto reverenciado e que ministrava ensinamentos em decorrência de tal fato.

Também defendia, do mesmo modo que os órficos e pitagóricos, um conjunto de teses místicas, como a transmigração das almas por meio de um longo ciclo de reencarnações, não somente em humanos, mas também passando por outros animais e até mesmo plantas.

Empédocles entende serem em número de quatro os elementos materiais que irão tudo compor, a saber: fogo, ar, água e terra. Acrescenta aos quatro elementos o amor (filia) e a discórdia ou ódio (nekos). O amor une e a discórdia desune. O primeiro agrega e o segundo desagrega. O amor e o ódio, em Empédocles, representam o poder natural e divino do bem e do mal, da ordem e da desordem, da construção e da destruição.

Segundo este filósofo, no começo de tudo teríamos o bem, a ordem, e predominaria o amor. Neste começo de tudo e por meio do amor, teríamos os quatro elementos mesclados entre si formando uma unidade orgânica e esférica. A criação de tudo se deu a partir do ódio. Mas se só houvesse o ódio não haveria a criação dos seres individuais, pois, a separação iria continuar sempre, é o amor que proporciona junção de elementos que irá criar os seres individuais.

Por meio da entrada do ódio neste sistema, e da mescla com o amor, passamos a ter a criação de tudo, dos seres individuais, de uma infinita e absoluta separação que diversificam estes seres individuais, e o domínio absoluto do bem cede lugar ao domínio absoluto do mal.

Há uma alternância entre o domínio do mal e do bem. Com o tempo o império do ódio dará lugar ao império do amor. O amor volta aos poucos a se mesclar com o ódio e as coisas particulares até que haja novamente uma coisa só. Esta coisa única é Deus, perfeito e esférico. Esta perfeição é encontrada, portanto, na origem e no final do mundo. Nosso atual mundo, onde temos injustiça e ódio, é um lugar de expiação e purificação.

Unindo-se tudo que existe temos o uno, com o qual se desfaz a pluralidade, com a separação de todas as coisas temos novamente a pluralidade e o uno perece.

Entende que algo não existente não pode passar a existir e que algo que exista não pode passar a não existir, não seria isto a base de toda a mudança observada. A mudança observada no mundo decorre da união e separação da mistura entre os quatro elementos em diversas proporções e estes elementos são substâncias inalteráveis. A morte ou mesmo a aniquilação completa de algo, não passa de mera ilusão. A semelhança do que o pintor faz com algumas cores básicas, cuja mistura em determinada proporção lhe permite criar todas as cores de que necessita para pintar qualquer quadro e retratar seja lá qual for a cena escolhida, do mesmo modo, pela mistura dos quatro elementos tudo que há se forma a partir da presença do amor e do ódio, ou discórdia. Empédocles chamava os quatro elementos de “raízes”, o termo “elemento” parece ter sido usado a primeira vez pelo filósofo Platão, e Empédocles também identificou estas raízes (fogo, ar, água e terra) respectivamente com os nomes místicos de Zeus, Hera, Nestis (eufemismo para Perséfone) e Aidoneu. Há, no entanto, discordâncias entre comentadores quanto a qual a real correspondência entre as raízes e os deuses, ou seja, a qual elemento corresponde qual deus.

Em Empédocles, além dos quatro elementos, temos também duas forças da natureza, o amor (agregação, harmonia) e o ódio (desagregação, desarmonia) em um ciclo constante e como em qualquer ciclo (vide as estações do ano, por exemplo) não há como dizer quando realmente começou, só podemos escolher arbitrariamente um ponto inicial (primavera, verão, outono e inverno). Quando predomina totalmente o amor ou quando predomina totalmente o ódio não é possível haver vida. Esta situação de máxima predominância de uma destas duas forças nos lembra os solstícios de verão e inverno, já a vida se dá nos equinócios, onde o tempo é mais ameno, onde há um equilíbrio entre ambas as forças. Quando predomina totalmente o amor, temos uma esfera onde todos os quatro elementos não se distinguem e não há individualidade, havendo um único todo agregado, coeso e inseparável. Já quando o ódio domina também não temos qualquer tipo de agregação e sim somente o caos.

 Onde as pessoas ilusoriamente acreditam observar o devir ou movimento e transformação, geração e corrupção das coisas, surgimento e desaparecimento de todas elas, em verdade temos a reunião e separação dos quatro elementos básicos dos quais todas as coisas surgiram, trata-se da mistura desses elementos distribuídos em distintas proporções, havendo a maior ou menor presença de um ou outro destes elementos.

Nele temos presente uma antecipação do que mais tarde teremos com Charles Darwin em “A origem das espécies”, de 1859 d.C., pois, este autor consegue intuir, se bem que por meio de relatos fantásticos, o que mais tarde teremos com a teoria da evolução das espécies. Após a ruptura da esfera onde tudo estava coeso, separação esta provocada pelo ódio, teve início a criação do cosmos, por sua vez, os elementos individuais foram se aglutinando por meio do amor. Quando do surgimento da vida no nosso mundo, ocorreram primeiramente junções aleatórias provocadas pelo amor, muitas destas uniões não possuíam as capacidades necessárias para sobreviver e foram extintas, havendo uma seleção natural que priorizou as formações mais aptas a sobreviver.

Empédocles explica como conhecemos algo por meio de nossas sensações atribuindo ao conhecimento de algo o princípio de que o semelhante conhece o semelhante. É pelo fato de tudo ser composto pelos quatro elementos, incluso nós mesmos, que podemos conhecer. Ou seja, pelo elemento terra conhecemos o que possui este elemento, da mesma forma com o elemento fogo, ar, água e terra presentes em nós e nos objetos de nosso conhecimento.

Os opostos não se atraem, é o semelhante que atrai o semelhante e, por sua vez, o dessemelhante repulsa o dessemelhante. Trata-se de um movimento eterno, um ciclo constante no qual quando prevalece a harmonia é porque o amor está atuando, já quando prevalece a desarmonia ou desequilíbrio, temos a prevalência da discórdia ou ódio, sendo que isto pode ser observado em tudo ao nosso redor, seja na política, na saúde, nos aspectos emocionais, nas relações entre as pessoas ou entre as sociedades.

A teoria das quatro raízes proposta por Empédocles foi exposta e adotada por Aristóteles, que a chamou por “elementos” e perdurou em nossa civilização por cerca de vinte séculos como parte das concepções comumente aceitas sobre a composição da matéria, isto só veio a mudar com a química do século XVIII, a partir, particularmente, de Antoine Lavoisier.

 Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

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