Professor Doutor Silvério

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Silvério da Costa Oliveira é Doutor em Psicologia Social - PhD, Psicólogo, Filósofo e Escritor.

(Doutorado em Psicologia Social; Mestrado em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em Filosofia; Licenciatura Plena em Psicologia; Licenciatura Plena em Filosofia)


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terça-feira, 24 de maio de 2022

Neoplatonismo e Plotino

 Por: Silvério da Costa Oliveira.

 Neoplatonismo e Plotino

 NeoPlatonismo

O termo “neoplatonismo” se refere a Escolas de filosofia que, por suas doutrinas, tem sua base teórica pautada na obra do filósofo Platão. Este termo foi cunhado no século XIX por estudiosos do tema, na época destes filósofos eles não se consideravam “neoplatônicos” e simplesmente continuadores das doutrinas expressas por Platão. Estas Escolas filosóficas se desenvolvem entre os séculos III e VI d. C. Por fim, diante do combate com o nascente, e cada vez mais forte, cristianismo, o neoplatonismo irá perecer, não resistindo ao duro golpe de todas as Escolas de filosofia terem encerradas as suas atividades no ano de 529 d.C., por ordem do imperador do Império Romano do oriente, Justiniano.


 

Apesar de ter o filósofo Platão como referência e inspiração e de seus adeptos se considerarem continuadores de seu pensamento e obra, temos bastante originalidade presente em filósofos pertencentes a este movimento, tal o caso de Plotino, além de observarmos, também, a presença da influência de outros autores antigos, tais como Aristóteles, o que denota um certo grau de ecletismo. Também podemos perceber alguns elementos de origem ou inspiração no misticismo e nas religiões orientais, aliás, lembremos que o movimento surge no oriente, mais especificamente no Egito, na cidade de Alexandria.

Uma das diferenças mais facilmente observadas entre Platão e os continuadores desta época histórica, é que em Platão temos um dualismo a partir da teorização da existência de um mundo das ideias, já para os assim chamados neoplatônicos, temos um rigoroso monismo. Tanto para Platão como também para o neoplatonismo, não existe o mal em concretude, pois, o mal não passa da ausência do bem.

O neoplatonismo pode ser dividido em três momentos históricos geográficos, representados por três Escolas. A Escola Alexandrino-romana, formada principalmente por Amônio Sacas (175-242/245 - século III d. C.), Plotino (204/205-270 d.C.) e Porfírio (232-304 d.C.). A Escola Siríaca, formada principalmente por Jâmblico (245-330 d.C.), Juliano, o apóstata (331-363 d.C.). A Escola Ateniense, formada principalmente por Proclos (410-484 d.C.).

Amônio Sacas é considerado como sendo o fundador do neoplatonismo. Teve como discípulos, além de Plotino, também Herenio e Orígenes, este último um neoplatônico que não deve ser confundido com seu homônimo cristão. Na sequência de Plotino, teremos no neoplatonismo Porfírio e Damáscio (458-533 - século VI d.C.).

Além de ser uma importante corrente filosófica na Antiguidade, também teve o mérito de influenciar profundamente o cristianismo, o judaísmo por meio da cabala, e o islamismo. Tais religiões fizeram uso da elaboração do conceito de Uno, então presente nesta Escola filosófica e o adaptaram as suas respectivas realidades.

Seu principal e mais conhecido representante foi Plotino e se diferencia das Escolas Cínica, Estoica e Epicurista, pois enquanto estas se pautavam em uma maior influência de pensadores pré-socráticos, em particular Heráclito e Demócrito, bem como do filósofo Sócrates, cabe a esta Escola priorizar ao filósofo Platão, sendo uma importante corrente filosófica da Antiguidade. Mesmo não sendo considerado o fundador do movimento, mérito que os comentadores dão ao seu mestre, Amônio Sacas, com quem Plotino estudou por cerca de 10 anos, Plotino é visto como o grande sistematizador do neoplatonismo, sendo, por vezes, o movimento identificado a sua pessoa.

Plotino nasceu em Lycópolis, Egito, estudou filosofia em Alexandria, Egito, e posteriormente transferiu-se para Roma, onde desenvolveu uma filosofia com vertente mística oriental e voltada para a salvação, se contrapondo ao então crescente movimento cristão. Posteriormente, com a vitória do cristianismo, parte do desenvolvimento filosófico desta Escola foi incorporado ao pensamento de autores cristãos.

Após seus estudos com Amônio Sacas, Plotino acompanhou o imperador Gordiano com seu exército até a Síria e a Pérsia, mas com a derrota do exército e o assassinato do imperador, refugiou-se em Antioquia e em sequência seguiu para Roma, onde chegou em 245 e fundou uma Escola de filosofia.

Plotino teve sua obra organizada e publicada por seu discípulo, Porfírio, que a dividiu em nove tomos, daí ser chamada de “Enéadas”. A obra Enéadas é composta por uma coleção de 54 tratados, divididos em seis capítulos (livros), sendo cada capítulo dividido em nove partes, ennéa significa nove em grego.

Podemos observar na obra de Plotino uma filosofia original, mas com influência de pensadores anteriores, tal é o caso de Platão e do platonismo, de Aristóteles e sua Escola, bem como do estoicismo, do neopitagorismo e do filósofo Parmênides.

Em linhas gerais, podemos falar em três hipóstases dentro do movimento neoplatônico, tomando por base o pensamento de Plotino: O um ou Uno, o nous, e a alma. O termo hipóstase é proveniente do grego clássico e faz referência à “substância” ou à natureza de algo, ou ainda a uma determinada instância deste algo. Pode fazer referência à existência de algo individual, a uma realidade concreta, fundamental e permanente.

As três hipóstases presentes no pensamento de Plotino são respectivamente o Uno, o nous e a alma. O termo “hipóstase” tem como significado “estado subjacente” ou “substância subjacente”, em outras palavras, a própria realidade última na qual tudo o mais se fundamenta. Por baixo da superfície dos fenômenos que percebemos há princípios superiores chamados de hipóstases, as quais se apresentam em uma hierarquia, no qual cada princípio emana do anterior, refletindo a sua imagem, deste modo, temos o Uno, o nous e a alma (psyche, mente divina, alma do mundo, alma universal).

Apresenta a ideia de Uno, que pode também ser entendido, mais tarde, como Deus dentro do pensamento de alguns autores cristãos que foram influenciados pelo seu pensamento. O conceito de Uno se contrapõe à ideia de trevas, ou ausência da luz proveniente do Uno. O que de fato existe é somente o Uno, sendo o restante visto não em sua concretude, mas sim como a ausência do Uno. Da mesma forma que a escuridão da noite é a ausência da luz. A dualidade presente no conceito de mundo das ideias de Platão é aqui atenuada, pois, tudo é Uno, algumas coisas estão dele mais próximas e outras mais afastadas, mas mesmo estas são também parte do Uno. A semelhança de uma imagem no espelho ou da sombra projetada de um corpo, as demais coisas não possuem uma realidade independente do Uno e nem toda a perfeição do mesmo.

O um ou Uno é entendido como sendo a perfeição, o absoluto, o eterno e o imutável. Já o nous é entendido como sendo a inteligência (intelecto) ou o pensamento. O nous pode ser entendido como sendo a razão universal ou o logos, tal como presente em filósofos anteriores. A alma é proveniente do nous e cabe à alma a contemplação do nous.

O primeiro princípio é o “um” ou “Uno”, fazendo referência a que tudo é uma unidade. Este princípio possui um caráter transcendente, simples e em contraste com a multiplicidade. É tido como a origem necessária para que tudo exista. Já o nous é a imagem perfeita do um ou Uno. Tudo procede do Uno, mas não é por ele criado e sim emanado, do mesmo modo que a luz do sol.

O Uno que Plotino apresenta é transcendente, mas em tudo o mais temos sua presença imanente, de modo que este se mostra como parte de um sistema no qual temos um panenteismo, ou seja, tudo está no Uno, mas este é mais que tudo que podemos observar, transcendendo a toda realidade.

O Uno se identifica com o Bem, já a multiplicidade há de se identificar com o mal, pois tende a se afastar da unidade. Quanto mais próximo do Uno, maior a perfeição e quanto mais distante, maior a imperfeição. Deste modo, a matéria se mostra como algo mal, mas somente por estar mais afastada do Uno e, portanto, ser imperfeita em relação ao Uno.

Plotino se baseia na dualidade presente em Platão a partir da formulação do conceito de mundo das ideias. Entende que temos um corpo e uma alma ou espírito, sendo o primeiro (o corpo) finito e temporário e o segundo (alma ou espírito) eterno e imortal.

Entende que os humanos possuem três almas, a superior ou intelectiva, a racional que se iguala a alma universal, e por último, a alma sensitiva vinculada e unida ao corpo para atender as funções necessárias a sobrevivência deste.

Plotino ao fazer referência a existência de três almas ou três potências da alma no homem ou três homens, não gera obstáculo a entendermos este mesmo humano como um “eu” e não múltiplos. A superior (intelectiva ou nous) nos permite contemplar o mundo inteligível, podendo também ser chamada de o primeiro homem. A racional (diánoia ou alma do mundo) nos permite raciocinar e nos afastarmos de nosso corpo, sendo por meio dela que decidimos sobre nosso destino, podendo também ser chamada de segundo homem. A sensitiva (aisthêtike) é a mais unida ao corpo, pois, por meio dela realizamos as funções sensitivas e vegetativas, é por meio dela que nosso corpo é vivificado, podendo também ser chamada de terceiro homem. Nenhuma destas três almas está realmente unida ao corpo, só estão submersas dentro do corpo, do mesmo modo que ocorreria ao corpo de alguém que se sentasse na beira de um rio com os pés dentro d’água, mas todo o restante do corpo fora. Em essência todas as três almas são iguais, o que ocorre é que varia o grau em que as mesmas estão submersas em nosso corpo, no entanto, o máximo grau de submersão não se encontra nos humanos ou demais animais, e sim nas plantas.

Podemos falar em três estágios, que vão do Uno, a partir de sua emanação, o nous, até a alma do mundo e o mundo material. O nous é emanado diretamente do Uno e pode ser entendido como logos, inteligência, razão suprema, sendo a primeira e suprema manifestação do Uno. A alma do mundo compartilha em si a inteligência e o mundo sensível, estando na divisa de dois mundos. Já o mundo material é o estágio que está mais afastado da verdadeira luz proveniente do Uno. Mas também é no mundo material que o humano nasce e se desenvolve, podendo dele elevar-se a estágios mais avançados em direção à contemplação do nous e do Uno.

O Uno se mostra como a origem e fonte transcendente e inefável de tudo que há, e dele emana o nous, que por sua vez gera por emanação a alma do mundo. Por meio da alma do mundo é formado todo o cosmos, o mundo material. Por meio da filosofia e da contemplação podemos retornar ao Uno. Plotino nos ensina deste modo que tudo se apresenta enquanto gradações de níveis ontológicos, a partir de uma realidade mais elevada ou primeiro princípio, que é o Uno, perfeito, eterno, criativo, sem forma, sem medida e infinito.

Em Plotino, a rigor, estamos diante de uma teologia negativa (ou apofática, em oposição a teologia positiva / afirmativa / propositiva, ou catafática) ao falarmos sobre o Uno, pois, dele nada se pode predicar, estando o mesmo muito além de qualquer predicação que dele possamos fazer. Qualquer atributo que possamos conferir ao Uno o estaria limitando e, portanto, sendo causa de imperfeição. O Uno não é o criador ou causa de tudo a partir de sua vontade consciente, mas sim como efeito necessário de sua absoluta perfeição. Gera a partir de emanação, sem nada perder ou diminuir de si próprio. As coisas provêm do Uno como o frio emana do gelo, ou o calor do fogo, ou a luz do sol, ou a imagem do espelho.

Para Plotino a matéria é a fonte de todo o mal, pois com ela temos a multiplicidade e o afastamento do Uno. A matéria é entendida como sendo um elemento mal e negativo, cárcere da alma e suporte das formas.

Para Plotino o mal é a privação ou afastamento do Uno, do mesmo modo que podemos ter luz e escuridão, sendo esta última a ausência ou privação da luz. A beleza e a inteligibilidade dos seres provêm do Uno e quanto mais afastados deste, mas também se afastam destas características. A matéria é o que mais se afasta do Uno, de modo que esta representa o mal, não em sua concretude, mas sim enquanto afastamento do Uno.

Apesar de não podemos conhecer o Uno por meio de conceitos obtidos por nossa inteligência oriundos da nossa experiência no mundo material, podemos conhece-lo por meio da intuição e de uma forma de êxtase místico. O Uno proposto por Plotino está acima de todas as categorias, inclusive a de deus e de divino, o Uno carece de toda determinação, tanto ontológica como também inteligível.

 Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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quarta-feira, 18 de maio de 2022

Marco Aurélio (1) * As meditações e o estoicismo do imperador filósofo

 


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 Marco Aurélio (Marcus Aurelius Antoninus) (121-180 d.C.), nasceu em Roma e faleceu em Viena. Seu reinado foi marcado por diversas guerras, revoltas e epidemias de peste, tendo um governo conturbado. Considerado o último dos cinco bons imperadores. Ficou conhecido como “o imperador filósofo” e “o imperador sábio”. Durante seu governo, demonstrou serenidade, justiça e força moral. Se bem que em 177 ocorreu uma perseguição aos cristãos. Considerado o principal representante do assim chamado “novo estoicismo”. Sofreu influência de Epicteto e Sêneca, filósofos estoicos.

Seu livro mais famoso e de cunho filosófico é “Meditações”, provavelmente escrito durante campanhas de guerra. Tal livro parece ser mais um exercício filosófico voltado para o autoaperfeiçoamento e para a orientação de sua própria vida, sem o intuito de ser publicado ou endereçado a terceiros. Apesar de clara orientação estoica, percebe-se também a presença do ecletismo, que traz para as reflexões outros autores e correntes filosóficas. Também nos chegaram as cartas trocadas com seu amigo e professor, Frontão, onde se aborda o tema da retórica.

Seu livro se coloca mais próximo de um aconselhamento moral, onde a filosofia se mostra como um modo de vida e o problema central é como se pode viver bem e feliz. Temos como tema central a importância de analisar a si próprio e aos demais por meio de uma perspectiva mais ampla, cósmica. Temos a aceitação da morte e uma discussão sobre a existência ou não de deus ou dos deuses. Assume uma atitude que busca libertar o humano dos prazeres e dores da vida e do corpo vinculados ao mundo material. Ninguém pode nos prejudicar a não ser nós mesmos, a única maneira de sermos prejudicados por outros é permitir ser dominado por uma reação, pois, tudo não passa de opinião. Pela razão o humano consegue viver em harmonia com o universo.

As meditações têm como objetivo ser uma análise do dia-a-dia do imperador, o que ocorreu e qual a melhor forma de proceder diante dos fatos. Dentro do estoicismo temos a necessidade de voltarmos para nosso interior e nos questionarmos sobre nossa vida, comportamento, atitudes, ações diárias, de modo a poder com isto obter algum aprendizado útil, alguma lição de vida, visando não somente o autoaperfeiçoamento, mas também o aperfeiçoamento enquanto filósofo estoico, uma vez que o estoicismo prevê que seus princípios básicos não devem ser meramente compreendidos e sim vividos.

Como representante do estoicismo, mantém que a virtude é a única fonte de felicidade e que o homem sábio deve suportar todas as adversidades da vida e ao mesmo tempo, se propor a fazer o que for o seu dever.

 Em meus blogs "Ser Escritor" e "Comportamento Crítico" você encontrará um artigo / texto de minha autoria que resume as ideias deste vídeo, apresentando o tema em toda a sua complexidade. Leia:

"Marco Aurélio: As meditações e o estoicismo imperial".

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terça-feira, 17 de maio de 2022

Marco Aurélio: As meditações e o estoicismo imperial

 Por: Silvério da Costa Oliveira.

 Marco Aurélio

 Marco Aurélio (em latim Marcus Aurelius Antoninus) (121-180 d.C.), nasceu em Roma e faleceu em Viena, vítima da peste, proveniente de uma família nobre espanhola, assumiu como imperador em 161 e ocupou o cargo até sua morte. Seu reinado foi marcado por diversas guerras: Contra os Partas, na fronteira oriental, de 161 a 166; contra as tribos germânicas, na fronteira norte, de 166 a 180. Teve de lidar com revoltas e epidemias de peste, tendo um governo conturbado. Considerado o último dos cinco bons imperadores, foi também escritor e filósofo estoico. Ficou conhecido como “o imperador filósofo” e “o imperador sábio”. Durante seu governo, demonstrou serenidade, justiça e força moral. Se bem que em 177 ocorreu uma perseguição aos cristãos. Considerado o principal representante do assim chamado “novo estoicismo”. Sofreu influência de Epicteto e Sêneca, filósofos estoicos.

Quando jovem, teve uma boa educação, tanto de questões teóricas como práticas (estudou letras latinas e gregas, direito, retórica, filosofia e pintura), dedicando-se também a cuidar do corpo e treiná-lo (treinou luta livre e também praticou dança ritual dedicada ao deus Marte).


 

Seu livro mais famoso e de cunho filosófico é “Meditações”, provavelmente escrito durante campanhas de guerra, entre os anos de 171 a 175. Tal livro parece ser mais um exercício filosófico voltado para o autoaperfeiçoamento e para a orientação de sua própria vida, sem o intuito de ser publicado ou endereçado a terceiros. Originalmente escrito em grego, observamos nesta obra a junção da cultura grega com a romana. Apesar de clara orientação estoica, percebe-se também a presença do ecletismo, que traz para as reflexões outros autores e correntes filosóficas. Também nos chegaram as cartas trocadas com seu amigo e professor, Frontão, onde se aborda o tema da retórica.

Apesar de termos citações e referências às “Meditações” em autores antigos, uma edição da obra somente é publicada e torna-se disponível a partir dos séculos XVI e XVII d.C.

Em Marco Aurélio, no seu livro “Meditações”, as especulações físicas, metafísicas e lógicas cedem seu lugar a uma outra abordagem, mais próxima do caráter prático e não especulativo presente nos romanos. De base estoica, seu livro se coloca mais próximo de um aconselhamento moral, onde a filosofia se mostra como um modo de vida e o problema central é como se pode viver bem e feliz.

No seu livro temos presente como tema central a importância de analisar a si próprio e aos demais por meio de uma perspectiva mais ampla, cósmica. Temos a aceitação da morte e uma discussão sobre a existência ou não de deus ou dos deuses. Assume uma atitude que busca libertar o humano dos prazeres e dores da vida e do corpo vinculados ao mundo material. Ninguém pode nos prejudicar a não ser nós mesmos, a única maneira de sermos prejudicados por outros é permitir ser dominado por uma reação, pois, tudo não passa de opinião. Pela razão o humano consegue viver em harmonia com o universo.

Tendeu a dar destaque aos aspectos religiosos presentes no estoicismo, transformando-o em uma norma de vida, de como atuar em questões práticas e sobre a obtenção de consolo para as dores e problemas que a vida nos traz. O estoicismo anterior a Marco Aurélio não admite a ideia de “espírito”, assumindo uma postura na qual só admite a existência de seres concretos e corpos, e em oposição ao conceito de mundo das ideias presente no platonismo, somente com Marco Aurélio passamos a falar e pensar a noção de espírito. Temos um profundo sentimento religioso, presente em todo o movimento estoico, mas com o destaque de uma relação mais íntima com o divino que é imanente ao humano. Temos a presença de um cosmopolitismo, onde todos os humanos são vistos como irmãos e dignos de nosso amor. Podemos constatar influência de Heráclito a partir da presença nítida de um processo de constante mudança e impermanência de todas as coisas. Um pouco de pessimismo ou conformismo diante da realidade, que as vezes ganha o tom de otimismo diante da aceitação da lei divina, da providência e do amor. O pessimismo pode ser observado quando afirma que tudo passa, tudo há de se destruir, nada permanece para sempre e que a vida não passa de um breve caminho que leva à morte. Já o otimismo surge da contemplação da lei divina que tudo governa com sabedoria. Esta realidade divina contrasta com a impermanência e mudança observada nas coisas, pois, se mostra como permanente, imutável e causa da harmonia do universo. Para viver bem é necessário se por em afinidade com este divino, que é imanente a tudo, e com os deuses.

As meditações têm como objetivo ser uma análise do dia-a-dia do imperador, o que ocorreu e qual a melhor forma de proceder diante dos fatos. Dentro do estoicismo temos a necessidade de voltarmos para nosso interior e nos questionarmos sobre nossa vida, comportamento, atitudes, ações diárias, de modo a poder com isto obter algum aprendizado útil, alguma lição de vida, visando não somente o autoaperfeiçoamento, mas também o aperfeiçoamento enquanto filósofo estoico, uma vez que o estoicismo prevê que seus princípios básicos não devem ser meramente compreendidos e sim vividos.

As meditações não foram escritas com o propósito de ser publicadas e sim como material de reflexão individual para o autoaperfeiçoamento. Questões presentes ao estoicismo vinculadas a lógica, a física ou a ética não são desenvolvidas de modo sistemático nas meditações, pois não é este o objetivo, o que temos são reflexões diárias de caráter eminentemente prático.

Marco Aurélio entende a vida como algo instável e passageiro e cujo sentido se dá ao ligar o indivíduo com o universo. Cabe ao humano produzir seus frutos do mesmo modo que uma árvore o faz, e o ato moral se apresenta como sendo um desenvolvimento da natureza universal deste humano.

Como representante do estoicismo, mantém que a virtude é a única fonte de felicidade e que o homem sábio deve suportar todas as adversidades da vida e ao mesmo tempo, se propor a fazer o que for o seu dever.

 Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

quarta-feira, 11 de maio de 2022

O Helenismo (2) * Academia, Liceu, NeoPitagorismo e Ecletismo

 


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 Academia, Liceu, NeoPitagorismo, Ecletismo

 

Academia

A Academia fundada por Platão, em 387 a.C. ou próximo desta data, após a morte deste, continuou a formar novos filósofos e em determinado momento de sua história passou a ser conhecida por Nova Academia, aproximando-se teoricamente do ceticismo e, posteriormente, em outro momento histórico,  assume uma postura eclética. Dentre os autores antigos, encontramos algumas divisões possíveis em torno da época histórica da Academia, que variam de duas (Cícero), três (Diógenes Laércio) a cinco (Sexto Empírico), todas iniciando com o fundador, Platão.

Trata-se da primeira escola ou universidade organizada no sentido de ser um espaço de troca de conhecimento, onde, apesar de não haver um currículo formal, tínhamos a presença de mestres e alunos mais ou menos experientes nas questões filosóficas. Inicialmente ali tínhamos o estudo das ideias de Platão, posteriormente houve uma evolução onde prevaleceu uma abordagem cética e probabilística e, por fim, em uma última fase, adotou-se uma abordagem eclética contra um inimigo comum à Academia e ao Estoicismo, o ceticismo. Das questões estudadas por Platão, a Academia evoluiu para um interesse mais voltado para questões morais e éticas sobre o bem viver e a felicidade, abandonando as bases metafísicas propostas por Platão, como, por exemplo, o mundo das ideias.

 

Liceu

A termo “Liceu” designa a Escola filosófica fundada por Aristóteles, em 335 a.C., cujos membros se reuniam no local, onde tínhamos um bosque consagrado a Apolo Lykeios (Lyceus), de onde é provável que se origine o nome, um templo dedicado ao deus Apolo Liceu. Também conhecida como Escola Peripatética. Os sucessores se mantiveram afastados das discussões entre Acadêmicos e Estoicos, mas também participaram da tendência eclética. A Escola peripatética sempre demonstrou uma clara preferência empírica e não dialética e especulativa como observamos na Academia.

O ensino ministrado no Liceu pode ser resumido em algumas teses defendidas por Aristóteles, visando a conduzir o humano à obtenção da felicidade. A educação tem como objetivo guiar o humano ao longo de sua vida a partir do ensino de conceitos úteis e necessários a vida prática e também o ensino da virtude moral.

 

NeoPitagorismo

Com o neopitagorismo temos um retorno parcial ao pensamento presente na Escola Pitagórica, em particular o misticismo e orfismo, a defesa da imortalidade da alma e de sua reencarnação, uma relação harmônica com o cosmos e uma atitude de oposição ao materialismo. Também muito importante a noção presente de desejo de união mística com o divino.

 

Ecletismo

Em filosofia entendemos por ecletismo uma abordagem teórica que teve início na Antiguidade, caracterizando-se pela justaposição de teses e argumentos provindos de distintas Escolas filosóficas, criando por tal modo, uma visão de mundo ou cosmovisão pluralista e multifacetada sobre os temas em pauta. A ideia básica é que se possa escolher dentre as diversas doutrinas provenientes de Escolas filosóficas diferentes, as que sejam percebidas como a melhor em determinado assunto particular, seja este teórico ou prático. Pelo ecletismo se busca, portanto, a conciliação entre teorias distintas e por vezes antagônicas entre si, buscando sempre o que aparente ser o melhor diante do problema ou realidade que se nos apresenta naquele momento. Tenta-se desta forma conciliar teorias que são em diversos pontos opostas, buscando a harmonia e se opondo ao dogmatismo e radicalismo. Quem primeiro usou o termo e com ele se referiu a uma Escola Eclética foi Diógenes Laércio (180-240 d.C.).

O Ecletismo teve uma boa acolhida em Roma, sendo proveniente dali um dos ecléticos mais conhecidos, Cícero (106 a.C. - 43 a.C.). Os romanos não tinham um gosto ou preferência para a filosofia especulativa e teórica e por seu modo de vida, buscavam sempre algo prático, donde a boa acolhida pela abordagem eclética em filosofia, buscando o que de melhor fora produzido pelas distintas Escolas e movimentos filosóficos do passado, para com isto compor uma nova e mais completa filosofia, adequada às questões e problemas com os quais se deparavam.

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"Escolas filosóficas do mundo helênico".

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terça-feira, 10 de maio de 2022

Escolas filosóficas do mundo helênico

 Por: Silvério da Costa Oliveira.

 Academia, Liceu, NeoPitagorismo, Ecletismo

 

Academia

A Academia fundada por Platão, em 387 a.C. ou próximo desta data, após a morte deste, continuou a formar novos filósofos e em determinado momento de sua história passou a ser conhecida por Nova Academia, aproximando-se teoricamente do ceticismo e, posteriormente, em outro momento histórico (segundo alguns comentadores, durante a quarta Academia), assume uma postura eclética. Dentre os autores antigos, encontramos algumas divisões possíveis em torno da época histórica da Academia, que variam de duas (Cícero), três (Diógenes Laércio) a cinco (Sexto Empírico), todas iniciando com o fundador, Platão.



 

Coube a Platão, fazendo uso de seu direito enquanto cidadão ateniense (somente os atenienses podiam ser proprietários de terra), comprar (ou herdar) um terreno localizado em um belo subúrbio de Atenas, local público conhecido por Akademia ou Hekademeia, onde se localizava um parque público com alamedas, árvores e oliveiras, adornado por estátuas, templos e sepulturas de atenienses ilustres. O nome provém de um lendário herói ático, Akademos ou Hekademos, ao qual a área em questão era dedicada. Para permitir juridicamente a fundação desta escola, quando Platão a fundou, fez dela uma comunidade consagrada ao culto das Musas de Apolo.

Quanto ao fim da Academia e de tudo que ela representou na Antiguidade, isto ocorre formalmente no século VI, ou mais exatamente no ano de 529 a.C. quando por ordem do então imperador Justiniano, do Império Romano do Oriente, foi fechada, pondo fim ao último baluarte da cultura helênica, ainda vinculada aos deuses gregos e às musas inspiradoras. Sua finalidade era cultural, também de caráter jurídico e religioso.

Podemos dividir historicamente a Academia em algumas fases (de duas a cinco), deste modo, temos a primeira Academia ou Academia antiga, com Platão a frente, tendo como sucessores Espeusipo (347–339 a.C.), Xenócrates (339–314 a.C.), Polemo (314–269 a.C.) e Crates (século IV a.C.). Outros membros notáveis da Academia incluem Aristóteles, Heráclides do Ponto, Eudoxo de Cnido, Filipo de Opunte e Crantor.

A segunda Academia ou Academia média, tem início por volta de 266 a.C., iniciando com Arcesilau (315-240 a.C.) a frente, que iniciará a luta contra os estoicos e a aproximação do ceticismo para se opor ao dogmatismo. Arcesilau foi sucedido por Lácides de Cirene (241–215 a.C.), Evandro e Télecles (juntos) e, depois, Hegésino.

A terceira Academia ou Academia nova, que se inicia com Carnéades (214-137/135 a.C.), mantém a discussão e oposição ao dogmatismo presente nos estoicos e em particular no estoico Crisipo de Salos (281-208 a.C.).

Carnéades entende que não existe um critério de verdade, já que não podemos ter um conhecimento direto das coisas e não temos como distinguir o que seja realmente verdadeiro ou falso, seja por meio dos sentidos ou da experiência. Tampouco podemos distinguir com certeza o mal do bem. Estando numa postura bem próxima do ceticismo. Carneades foi seguido por Clitômaco e Filon de Larissa, que provavelmente foi o último mestre localmente pertencente à Academia.

No século III a.C. os ocupantes da Academia preocupavam-se com o embate contra o dogmatismo dos estoicos e o problema do critério de verdade, daí terem assumido uma postura mais próxima do ceticismo, para se contrapor ao dogmatismo presente no estoicismo.

Apesar de se aproximarem teoricamente dos céticos, hão de se diferenciar na medida em que a Nova Academia há de desenvolver um humanismo prático e uma teoria da verdade pautada no probabilismo. A nova academia acabou desenvolvendo uma abordagem probabilística.

Resumidamente, trata-se da primeira escola ou universidade organizada no sentido de ser um espaço de troca de conhecimento, onde, apesar de não haver um currículo formal, tínhamos a presença de mestres e alunos mais ou menos experientes nas questões filosóficas. Inicialmente ali tínhamos o estudo das ideias de Platão, posteriormente houve uma evolução onde prevaleceu uma abordagem cética e probabilística e, por fim, em uma última fase, adotou-se uma abordagem eclética contra um inimigo comum à Academia e ao Estoicismo, o ceticismo. Das questões estudadas por Platão, a Academia evoluiu para um interesse mais voltado para questões morais e éticas sobre o bem viver e a felicidade, abandonando as bases metafísicas propostas por Platão, como, por exemplo, o mundo das ideias.

 

Liceu

A termo “Liceu” designa a Escola filosófica fundada por Aristóteles, em 335 a.C., cujos membros se reuniam no local, onde tínhamos um bosque consagrado a Apolo Lykeios (Lyceus), de onde é provável que se origine o nome, um templo dedicado ao deus Apolo Liceu. Também conhecida como Escola Peripatética. O termo “peripatético” provém do fato interessante de que Aristóteles tinha por hábito ensinar seus alunos caminhando, sendo esta a palavra grega referente a “caminhar”, “ambulante”, “itinerante”.

No Liceu Havia cursos regulares durante a parte da manhã e da tarde, sendo que pela manhã os cursos eram dedicados ao público interno (discursos filosóficos esotéricos) e pela tarde ao público em geral (discursos filosóficos exotéricos). Pela manhã se estudava lógica, física e metafísica e já pela tarde se estudava retórica, política e literatura.

Após 12 anos à frente de sua Escola, Aristóteles deixa Atenas e o Liceu fica aos cuidados de Teofrasto de Eresos (372-287 a.C.), que fica a frente da mesma até seu falecimento em 287 a.C., ou seja, por cerca de 35 anos esteve no comando do Liceu. Coube a Teofrasto empreender obras de construção e reconstrução de prédios, bem com ampliar as instalações do Liceu. Ele ali organizou um museu, salas de aula e alojamentos para os alunos e professores, bem como, a biblioteca de Aristóteles.

Conjuntamente com Teofrasto tivemos o período de maior esplendor do Liceu. Teofrasto, por sua vez, foi sucedido por Estratão de Lâmpsaco (340-269 a.C.), que esteve à frente do Liceu de 287 até 269 a.C., mas quando Estratão ficou à frente do Liceu, este perdeu a biblioteca de Aristóteles, que ficou a cargo de Neleu de Escépsis, e foi levada para sua cidade.

Estratão foi sucedido por Lyco de Troas (300-226 a.C.), que esteve a frente do Liceu por cerca de 44 anos, sendo um bom retórico e dialético. Sucedendo a Lyco, tivemos Aristo de Ceos (ou também conhecido por Aristo de Iulis) (228-190 a.C.), seguido por Critolau de Fasélis (200-118 a.C.), e depois Diodoro de Tiro, Erimneo, Andrônico de Rodes (século I a.C.), último escolarca conhecido.

Pelo menos até o século III d.C. o Liceu esteve ativo e no máximo funcionou até 529 d.C. quando por ordem do imperador Justiniano I não foi mais possível a existência de Escolas filosóficas.

Fundado por Aristóteles, após sua morte os sucessores se mantiveram afastados das discussões entre Acadêmicos e Estoicos, mas também participaram da tendência eclética. A Escola peripatética sempre demonstrou uma clara preferência empírica e não dialética e especulativa como observamos na Academia.

De um modo geral, o ensino ministrado no Liceu pode ser resumido em algumas teses defendidas por Aristóteles, visando a conduzir o humano à obtenção da felicidade. A educação tem como objetivo guiar o humano ao longo de sua vida a partir do ensino de conceitos úteis e necessários a vida prática e também o ensino da virtude moral.

 

NeoPitagorismo

A filosofia neopitagórica teve como principais representantes a Apolônio de Tiana (40-97 d.C. - século I d.C.), que merece destaque especial, e que escreveu um livro romanceado sobre a vida de Pitágoras; Plutarco de Queronéia (século I d.C.), que escreveu os livros: “Vidas paralelas” e “Obras morais”; Apuleio (século I d.C.), que escreveu o livro “O asno de ouro”; Numênio de Apaméia (século II d.C.) que exerceu influência sobre os neo-platônicos a partir de seu sincretismo religioso greco-oriental; Hermes Trimegisto (século I d.C.), que é tido como autor dos escritos chamados de “herméticos”, de caráter místico, também cabe citar entre seus representantes, Moderato de Cádiz (século I d.C.). O neopitagorismo se espalhou por Roma no século I a.C., destacando-se, dentre outros, o poeta Publio Virgilio Maro (em latim: Publius Vergilius Maro) (70 a.C. - 19 a.C.), Nicômaco de Gerasa (60 a.C. – 120 a.C.), Flávio Filóstrato (ou Filostratus) (século III d.C.; 170 – 250 d.C.). Vindo esta Escola a desaparecer enquanto movimento filosófico por volta do século III d.C.

A antiga Escola Pitagórica some por volta do século IV a.C., só vindo a reaparecer no século I a.C., se bem que de acordo com alguns comentadores, já encontramos o início do ressurgimento da escola pitagórica desde o século III a.C.

O neopitagorismo surge como corrente filosófica com forte influência de Pitágoras, a partir do século I a.C., mas traz também elementos presentes em outras escolas e movimentos filosóficos, tal é o caso de Aristóteles, Platão, bem como as escolas por eles fundadas, o Liceu e a Academia. Também encontramos elementos provenientes do estoicismo, da matemática, das ciências e mesmo do misticismo, onde temos sua afinidade com o orfismo de origem oriental, bem como, o simbolismo dos números, característico da escola pitagórica. Teria surgido inicialmente na cidade de Alexandria.

Com o neopitagorismo temos um retorno parcial ao pensamento presente na Escola Pitagórica, em particular o misticismo e orfismo, a defesa da imortalidade da alma e de sua reencarnação, uma relação harmônica com o cosmos e uma atitude de oposição ao materialismo. Também muito importante a noção presente de desejo de união mística com o divino.

Os neopitagóricos fazem uma distinção entre alma e corpo. O corpo é constituído por matéria e há de perecer, já a alma é imortal e passa por vários corpos em um ciclo de reencarnações. Defendiam a adoração de deus, bem como a prática de boas ações e uma vida ascética. Entendiam que se deva afastar-se dos prazeres meramente corporais e sensuais, pois são prejudiciais para a pureza da alma. Entendiam que deus era o princípio do bem e a matéria o princípio do mal.

 

Ecletismo

Após longa disputa entre os Acadêmicos e os Estoicos, por fim, passou-se a adotar uma atitude mais conciliadora e eclética. Com exceção da Escola Epicúrea, que se manteve fiel a seus princípios iniciais, as demais Escolas passaram a buscar soluções conciliadoras e ecléticas. Dentro do movimento estoico, foi o chamado estoicismo médio quem primeiro adotou esta postura intermediária e conciliadora presente no ecletismo. Aos estoicos seguiram os acadêmicos.

Como representantes do estoicismo médio, onde passamos a ter presente uma abertura ao ecletismo, temos Panecio (185/180-112/110 a.C.), Posidonio (135-51 a.C.). Já no tocante a quarta Academia, temos como representantes da abordagem eclética, Filon de Larisa (159-86 a.C.), Antioco de Ascalon (150-68 a.C.).

Nesta época o inimigo comum era identificado como o ceticismo e daí a importância de resgatar pontos em comum nas diversas escolas para embasar uma reação contrária ao crescimento do ceticismo.

O Ecletismo (do grego eklektikos, eleger), apresenta uma solução probabilística para o problema da verdade, diante das demais Escolas filosóficas, cada qual com sua defesa incondicional de uma dada solução para a questão da verdade, entendem que se trata de visões unilaterais da realidade, não sendo possível haver um critério de verdade que seja por todos aceitos, no entanto, a necessidade imposta pela vida nos direciona para uma visão probabilística e baseada no sentido comum e consenso universal sobre as questões em pauta. Há aqui um afastamento do empírico e também do mundo das ideias proposto por Platão, que o aproximam da crença e da religiosidade.

Como características, cabe citar, ter um maior afastamento de questões ontológicas e cosmológicas e uma maior ênfase em questões éticas e morais. Influência pela tomada deste caminho está presente na conquista da Grécia por Roma, pois, com a entrada da filosofia em Roma, esta encontra o espírito prático e pouco especulativo dos romanos, onde o ecletismo tem uma acolhida melhor.

Em filosofia entendemos por ecletismo uma abordagem teórica que teve início na Antiguidade, caracterizando-se pela justaposição de teses e argumentos provindos de distintas Escolas filosóficas, criando por tal modo, uma visão de mundo ou cosmovisão pluralista e multifacetada sobre os temas em pauta. A ideia básica é que se possa escolher dentre as diversas doutrinas provenientes de Escolas filosóficas diferentes, as que sejam percebidas como a melhor em determinado assunto particular, seja este teórico ou prático. Pelo ecletismo se busca, portanto, a conciliação entre teorias distintas e por vezes antagônicas entre si, buscando sempre o que aparente ser o melhor diante do problema ou realidade que se nos apresenta naquele momento. Tenta-se desta forma conciliar teorias que são em diversos pontos opostas, buscando a harmonia e se opondo ao dogmatismo e radicalismo. Quem primeiro usou o termo e com ele se referiu a uma Escola Eclética foi Diógenes Laércio (180-240 d.C.).

Além da oposição ao dogmatismo e a busca de um caminho conciliatório, temos também a busca por um critério de verdade que proporcione instrumento para justificar as escolhas empreendidas. Não se trata de mero sincretismo, ou seja, a união em um mesmo todo de elementos em si discordantes, mas sim de uma escolha feita por meio de um critério ou princípio que traga coerência e harmonia ao resultado final.

O Ecletismo tende a atuar de modo a selecionar e recolher dentre diversas teorias provindas de Escolas filosóficas distintas, elementos que se mostrem mais apropriados ao momento histórico e ao gosto daquele que faz uso da filosofia, dando ênfase na liberdade de escolha diante de abordagens filosóficas distintas, sempre buscando uma conciliação entre temas anteriormente tratados por outras Escolas ou filósofos.

O Ecletismo teve uma boa acolhida em Roma, sendo proveniente dali um dos ecléticos mais conhecidos, Cícero (106 a.C. - 43 a.C.). Os romanos não tinham um gosto ou preferência para a filosofia especulativa e teórica e por seu modo de vida, buscavam sempre algo prático, donde a boa acolhida pela abordagem eclética em filosofia, buscando o que de melhor fora produzido pelas distintas Escolas e movimentos filosóficos do passado, para com isto compor uma nova e mais completa filosofia, adequada às questões e problemas com os quais se deparavam.

 Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

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