« Au milieu de l'hiver, j'apprenais enfin qu'il y avait en moi un été invincible. »
“No meio do inverno, eu finalmente aprendia que havia em mim um verão invencível.”
Albert Camus, “Retour à Tipasa”, in L’Été (O verão), 1954.
Por: Silvério da Costa Oliveira.
Albert Camus
Poucos escritores do século XX conseguiram transformar questões filosóficas tão profundas em uma obra literária tão acessível e poderosa quanto Albert Camus. O absurdo da existência, a possibilidade do suicídio, a revolta contra a injustiça, a liberdade, a responsabilidade e a busca por uma maneira digna de viver atravessam seus romances, ensaios, peças de teatro e textos jornalísticos. Camus viveu em uma época marcada por guerras, totalitarismos, violência política e crises profundas de valores, e sua obra nasceu desse confronto entre a necessidade humana de encontrar sentido e um mundo que nem sempre oferece respostas.
Mas reduzir Camus ao “filósofo do absurdo” é deixar de fora justamente uma das partes mais importantes de seu pensamento. O absurdo é, para ele, um ponto de partida, não uma conclusão. A questão decisiva é saber o que fazer depois de reconhecer que não existem garantias últimas capazes de dar sentido à existência. É nesse momento que aparecem a revolta, a liberdade, a solidariedade, a defesa de limites para a ação humana e, finalmente, uma afirmação da própria vida. Conhecer Albert Camus é acompanhar esse percurso: aprender a olhar de frente para o absurdo sem transformar essa lucidez em desespero.
1- Vida
Albert Camus (1913-1960), de origem franco-argelina, nasceu em 7 de novembro de 1913 em Mondovi (hoje denominada Dréan), na costa da Argélia francesa e morreu, então com 46 anos de idade, em 4 de janeiro de 1960, perto de Villeblevin, França em virtude de um gravíssimo acidente de carro. Voltava então de Lourmarin para Paris no carro dirigido por seu amigo e editor Michel Gallimard, quando sofreu o acidente fatal. No porta-malas do veículo encontrava-se o manuscrito de Le Premier Homme.
O acidente que vitimou Camus de modo fatal gera polêmica, pois, após décadas de sua morte, aventou-se a possibilidade de não ter sido um acidente e sim um assassinato a mando de altas autoridades da URSS em virtude das opiniões expressas pelo autor. Eram no total cinco os integrantes do veículo: Michel Gallimard, proprietário e motorista do veículo, também amigo e editor de Camus. No impacto foi ferido gravemente, internado em hospital e falece cinco dias depois do acidente. Albert Camus, que viajava no banco dianteiro do carona morreu no momento do acidente em decorrência de múltiplos traumas no pescoço e coluna. Janine Gallimard, esposa de Michel Gallimard e Anne Gallimard, então com 18 anos de idade, filha de um relacionamento anterior de Michel, e enteada de Janine. Ambas as mulheres sobreviveram com ferimentos leves e viajavam no banco traseiro. Floc, cão da raça Skye Terrier pertencente a família Gallimard que desapareceu após o impacto e nunca mais foi encontrado. A mulher (Francine Faure) e os dois filhos de Camus (Jean e Catherine) seguiram de trem para Paris no dia anterior.
A tese (que começa a ganhar vulto entre 2011 e 2019) de assassinato pela KGB da URSS a mando de Dmitri Shepilov (Ministro dos Negócios Estrangeiros da URSS, entre 1956 e 1957), surge nos diários do poeta e tradutor tcheco Jan Zábrana (Celý život, que significa "Toda a Vida", é o título original da obra publicada a partir de seus diários e cadernos pessoais) e com a publicação do livro “A Morte de Camus”, do acadêmico italiano Giovanni Catelli. As datas de 2011, 2013 e 2019 referem-se ao momento em que o caso veio à tona para o grande público global através da pesquisa do italiano Giovanni Catelli. A cronologia é a seguinte, o poeta Jan Zábrana falece em 1984, aos 53 anos, sem jamais ter tornado públicas essas anotações. Somente após a queda do regime comunista (a Revolução de Veludo em 1989), a viúva de Zábrana organizou e publicou os diários do marido em 1992, sob o título Celý život (Toda uma Vida). O trecho sobre Camus estava lá, mas passou despercebido pela imprensa internacional. O escritor e acadêmico italiano Giovanni Catelli, ao ler a edição tcheca, descobriu a anotação de Zábrana sobre a KGB. Catelli publicou essa descoberta no jornal italiano Corriere della Sera em 2011. Foi nesse ano que a teoria explodiu na mídia global. Depois veio o livro italiano “Camus deve morire”, também de Catelli, em 2013. Após quase uma década aprofundando a investigação e reunindo novos testemunhos (como o do advogado e escritor Jacques Vergès), Catelli lançou o livro “La fine di Camus” (A morte de Camus), publicado na versão ampliada na França em 2019 (e traduzido para vários idiomas nos anos seguintes).
No entanto, apesar desta nova tese, vale ressaltar que, para a maioria dos biógrafos e historiadores acadêmicos de Camus (como Olivier Todd e Michel Onfray), a tese de conspiração do KGB permanece uma hipótese controversa e não comprovada, mantendo-se a versão oficial do acidente automobilístico por falha mecânica/pista molhada.
Camus é filho de Lucien Auguste Camus (1885-1914) e Catherine Hélène Sintès (1882-1960), ambos nascidos na Argélia, sendo a família de sua mãe de origem minorquina (espanhola). Com a morte do pai em 1914, durante uma batalha no transcorrer da primeira guerra mundial, sua mãe mudou para Argel, vindo a morar na casa da avó materna, localizada no bairro operário de Belcourt, onde Camus cresceu e passou sua infância em condições de pobreza material e de silêncio afetivo. Ali passaram a morar Camus, seu irmão mais velho, Lucien, sua mãe, sua avó materna e um tio. A família vivia em condições simples, para não dizer na pobreza. A mãe de Camus era analfabeta, parcialmente surda e com dificuldades de fala, passou a sustentar a família como empregada doméstica. A figura da mãe se mostrava como silenciosa, resignada, mas presente, somada a ausência do pai, tornaram-se os eixos permanentes de sua imaginação e de sua obra futura.
É lugar comum entre os comentadores da vida de Camus falar sobre a sua infância em Belcourt e como esta foi marcada pelo contraste entre a miséria cotidiana e a intensidade da luz, do mar e do sol mediterrâneos.
Fato interessante e curioso é que sua família se opunha a que Camus seguisse nos estudos, preferindo que este fosse trabalhar com seu tio, fabricando barris e tonéis, o que ajudaria financeiramente a família a mitigar sua condição de pobreza, enquanto que a longa permanência nos estudos afastaria Camus de poder contribuir para o sustento da família.
Seu professor, Louis Germain (1884-1966 - professor da escola primária) foi o primeiro a interceder a favor da continuidade dos estudos de Camus, reconhecendo seu talento e o incentivando a prestar o exame de bolsa para o liceu. Sem essa intervenção, Camus provavelmente não teria tido acesso à educação secundária. Na sequência, na época em que este estudava no que hoje no Brasil chamamos de ensino médio, tivemos Jean Grenier (1898-1971), que o conseguiu atuar para lhe impedir de largar os estudos nesta época. Incentivado por seus professores, se dedicou a concluir seus estudos. Na Universidade de Argel, estudou filosofia e, em 1936, obteve o Diplôme d’études supérieures com o trabalho Métaphysique chrétienne et néoplatonisme: Plotin et Saint Augustin, dedicado à relação entre o pensamento de Plotino e o cristianismo de Agostinho de Hipona.
No Liceu de Argel, destacou-se e, sob a influência do professor de filosofia Jean Grenier, começou a ler os autores que o marcaram: Nietzsche, Dostoiévski, os pré-socráticos, André Gide, Molière e os moralistas franceses. Na Universidade de Argel, estudou filosofia e, em 1936, defendeu a dissertação Métaphysique chrétienne et néoplatonisme. Participou ativamente da vida cultural da cidade: fundou o Théâtre du Travail (depois Théâtre de l’Équipe), escreveu e encenou peças. Nesse mesmo período publicou seus primeiros livros de ensaios: L’Envers et l’Endroit (1937) e Noces (1939), textos ainda fortemente ligados à experiência argelina e à celebração da vida sensível.
Durante um período breve de sua vida esteve filiado ao partido comunista francês, tendo saído por divergências em relação à questão árabe e à disciplina partidária. Camus filiou-se ao Partido Comunista Francês (PCF) em Argel em 1935. O Partido Comunista Argelino foi formalmente constituído em 1936 como uma ramificação/secessão do PCF. Camus participou do partido comunista argeliano e do francês, mas não teve duas filiações separadas; tratou-se do mesmo engajamento inicial (1935-1937).
Desde cedo contraiu tuberculose, alguns comentaristas datam dos 17 anos de idade, doença que o acompanhou no transcorrer de sua vida, limitando seu esforço físico e algumas de suas escolhas, como, por exemplo, de atuar como jogador de futebol (goleiro) ou professor. Ele foi diagnosticado com tuberculose no pulmão direito, doença ainda sem cura e que acabava inevitavelmente levando mais cedo ou mais tarde à morte do paciente. A doença o afastou temporariamente dos estudos e o colocou, de modo definitivo, diante da proximidade da morte. A tuberculose o acompanhou pelo resto da vida, em crises recorrentes, e tornou-se uma das experiências fundadoras de sua reflexão sobre o absurdo e a intensidade da existência. Apesar disto, é comum sua imagem sempre vinculada a prática de fumar cigarros de modo constante.
Escritor, filósofo e jornalista. Escreveu ensaios, artigos, peças para o teatro e romances, explorando como tema central o absurdo da condição humana e a revolta diante disto. De sua obra se destacam seus dois romances: O estrangeiro, 1942; A peste, 1947. Em prosa cabe destacar o importantíssimo “O mito de Sísifo”, 1942. Sua obra atravessa temas como a condição humana, a morte, o absurdo, a revolta, a liberdade, a justiça, a solidariedade e a relação entre o ser humano e o mundo sensível.
No ano de 1938 participou da fundação do jornal Alger Républicain, também atuou como editor do jornal Combat e do jornal Paris-Soir. Temos, também, sua participação na resistência francesa, no transcorrer da segunda guerra mundial.
No decorrer de sua vida assumiu uma postura contrária aos totalitarismos políticos, fosse o fascismo, nazismo ou comunismo de Stalin. Manteve uma postura crítica tanto a URSS quanto ao Partido Comunista Francês - PCA, o que o colocou em marcha de colisão com outros intelectuais franceses, dentre os quais Sartre. Na questão da Argélia, buscou uma solução negociada entre a colônia (Argélia) e a metrópole (França), mas pouco conseguiu de fato intervir contra a violência de ambas as partes diante do conflito (1954-1962) que acabou resultando na independência definitiva da Argélia.
Pouco depois, a guerra e a ocupação alemã o levaram a Paris, onde trabalhou como redator em Paris-Soir. Em 1942 publicou L’Étranger e Le Mythe de Sisyphe, obras que o projetaram no cenário literário e filosófico. Isolado da Argélia pelo desembarque aliado no Norte da África, engajou-se na “Resistência francesa” sob o pseudônimo de Beauchard e tornou-se redator e depois redator-chefe do jornal clandestino Combat. Após a Libertação, Combat passou a circular legalmente e Camus adquiriu uma posição de destaque público.
Casou-se duas vezes. Em 1934 casou-se com Simone Hié (1914-1970), uma jovem de Argel dependente de morfina; o casamento durou pouco e terminou em 1940 (a separação de fato ocorre por volta de 1936–37; já o divórcio formal em 20 de fevereiro de 1940), após traições mútuas. Ainda em 1940 casou-se com Francine Faure (1914-1979), pianista e professora de matemática originária de Orã, com quem tem dois filhos (gêmeos), nascidos em 5 de setembro de 1945: Catherine Camus, que dedicou grande parte da vida à gestão e preservação do acervo literário do pai; Jean Camus, que seguiu uma carreira mais reservada, trabalhando como advogado. Já com Simone Hié, seu primeiro casamento, Camus não teve filhos. A relação com Francine foi marcada por crises, inclusive por episódios de depressão grave da esposa, relacionados, em parte, às infidelidades do marido. Também em 1945, iniciou o relacionamento intenso e duradouro com a atriz espanhola Maria Casarès (1922-1996), que se estendeu, com interrupções, até sua morte.
Além dos dois casamentos, Camus teve vários relacionamentos amorosos sexuais com amantes fora dos seus dois casamentos e a par com os mesmos. Eram mulheres famosas, belas e artistas que acabou proporcionando uma vida amorosa muito intensa, turbulenta, não monogâmica e que por vezes fazia Camus precisar registrar em um cronograma minucioso a gestão simultânea destes relacionamentos, para conseguir dividir seu tempo com todas, inclusive a esposa. Dentre as principais amantes de Camus, cabe citar: Maria Casares (Filha de um ex-primeiro-ministro espanhol no exílio e uma das maiores atrizes do teatro e cinema francês da época); Catherine Sellers (Atriz britânica naturalizada francesa que estrelou peças adaptadas por Camus na década de 1950); Mi (Mette Ivers) (pintora e ilustradora francesa de origem dinamarquesa). Wanda Kosakiewicz (Atriz do grupo de teatro de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir).
Entre julho e agosto de 1949 esteve no Brasil (visitando Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador e Porto Alegre) e foi até Iguape (saída de São Paulo dia 5 e ficando até 7 de agosto), onde conheceu a festa do Senhor Bom Jesus de Iguape. Apaixonado desde cedo pelo futebol, ficou positivamente impressionado pela paixão dos brasileiros por este esporte, quando aqui esteve. Algumas de suas falas posteriores a esta visita soaram um tanto quanto preconceituosas e eurocêntricas. A viagem inteira à América do Sul (Brasil, Chile, Uruguai, Argentina) foi entre junho e agosto.
Em 1957, aos 44 anos, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura “pela importante produção literária que, com clareza de visão, ilumina os problemas da consciência humana em nossa época”. O prêmio o surpreendeu e o constrangeu; declarou que preferiria tê-lo visto atribuído a André Malraux. Camus dedicou o discurso do Nobel ao antigo professor Louis Germain e no próprio “Discours de Suède” traz “À M. Louis Germain”. Nos últimos anos comprou uma casa em Lourmarin, na Provença, e dedicou-se à escrita de Le Premier Homme, romance autobiográfico que ficou inacabado.
A publicação de La Peste (1947) consolidou sua reputação internacional. A amizade com Jean-Paul Sartre, iniciada nos anos da ocupação, rompeu-se de forma pública e definitiva em 1952, após a publicação de L’Homme révolté (1951) e a crítica severa aparecida nas páginas de Les temps modernes. A divergência era filosófica e política: Camus rejeitava o uso da violência revolucionária e o apoio ao stalinismo, enquanto Sartre se aproximava do Partido Comunista e justificava certos meios em nome da História. Durante a guerra da Argélia, Camus adotou uma posição intermediária e impopular: condenava tanto a repressão colonial quanto o terrorismo do FLN, defendia uma Argélia plural e a proteção das minorias (incluindo os pieds-noirs), e recusou-se a alinhar-se plenamente a qualquer dos campos. Essa postura lhe valeu críticas de ambos os lados e o isolamento de grande parte da esquerda intelectual francesa.
Interessante sua história com Sartre, a quem conheceu em Paris no ano de 1943 após a publicação de seu livro “O estrangeiro”, 1942, que recebera uma crítica elogiosa de Sartre, e com quem manteve laços de amizade até o ano de 1952, quando a publicação de outro livro, “O homem revoltado”, no qual fazia críticas ao regime de governo então em vigor na URSS e apoiado por Sartre e outros intelectuais franceses, levou ao rompimento da amizade. Um livro começa a amizade e outro a termina. O relacionamento começou a se deteriorar diante das divergências filosóficas e políticas que se aprofundaram no contexto da Guerra Fria. Em 1952, uma crítica de Francis Jeanson a “O homem revoltado”, publicada em “Les temps modernes”, provocou uma resposta de Camus. Sartre interveio pessoalmente na polêmica, em uma carta particularmente dura, e a troca pública marcou o rompimento definitivo entre os dois. A divergência envolvia não apenas a avaliação do comunismo soviético, mas questões sobre revolução, violência, história, liberdade e responsabilidade intelectual.
Politicamente Camus se posicionou contra as ideologias totalitárias (fascismo, nazismo, comunismo), se engajou na resistência francesa e, posteriormente, esteve presente nas discussões sobre a Argélia enquanto ainda colônia francesa, se posicionou de modo a criticar e denunciar os campos de concentração soviéticos (Gulags), condenou o ataques feitos pelos EUA ao Japão com o uso de armamento nuclear (Hiroshima e Nagazaki), foi contrário a prerrogativa dos vetos no Conselho de Segurança da ONU, se posicionou no sentido do absurdo da guerra fria, esteve fortemente engajado na oposição ao governo espanhol de Francisco Franco (1892-1975 – governou a Espanha entre 1936 e 1975). Para Camus, a consciência do absurdo da vida não deve resultar em indiferença mora.
A biografia de Camus é a de um homem marcado desde cedo pela pobreza, pela doença e pela ausência paterna, marcado pelas origens na Argélia, pela luz do sol e pela pobreza da região, engajado na resistência, rompido com as ideologias totalitárias de seu tempo e constantemente tensionado entre a fidelidade à própria origem e a exigência ética de justiça. Sua vida não se separa facilmente de sua obra: a experiência do absurdo, a recusa do suicídio e da resignação, a revolta medida e a busca de uma fraternidade possível são, em larga medida, elaborações de uma existência vivida sob a ameaça permanente da morte e sob a luz intensa do Mediterrâneo de sua terra natal, como vários comentadores não cansam em destacar.
2- Ideias
A filosofia de Camus é frequentemente denominada “absurdismo”, embora o próprio autor não tenha adotado esse termo para designar seu pensamento nem tenha fundado uma escola filosófica com esse nome. A expressão surgiu posteriormente para caracterizar uma filosofia que tem no absurdo um de seus conceitos centrais. Para Camus, o absurdo nasce do confronto entre a necessidade humana de encontrar sentido, ordem e explicação para a existência e o silêncio de um mundo que não oferece uma resposta definitiva. Mas reconhecer o absurdo não significa concluir que a vida não tem valor ou que nada importa. Ao contrário, Camus procura saber como viver depois dessa descoberta, sem recorrer a falsas certezas, ao suicídio ou a respostas que simplesmente eliminem o problema.
O principal tema desenvolvido na obra de Camus é o absurdo da condição humana e a revolta deste diante do absurdo. Muitos comentaristas o identificam ao “Movimento Existencialista”, isto em virtude dos temas abordados, como, por exemplo, a angústia existencial presente diante do absurdo da vida e a revolta dela resultante, mas o próprio Camus não se considerava um existencialista e chegou a escrever criticando pensadores desta abordagem teórica. No entanto, ele de fato compartilha com os existencialistas várias preocupações: a existência concreta, a morte, a liberdade, a angústia e a ausência de garantias metafísicas.
O pensamento de Albert Camus parte de uma experiência fundamental: o absurdo. Não se trata de uma doutrina elaborada em um sistema fechado, mas de uma descrição rigorosa da condição humana quando confrontada com a ausência de respostas definitivas às suas perguntas mais urgentes e importantes. O absurdo nasce do confronto entre, de um lado, o desejo humano de clareza, de unidade e de sentido e, de outro, o silêncio do mundo. O universo não oferece justificativa última, nem ordem moral garantida, nem finalidade transcendente. Essa dissonância não é uma ideia abstrata: ela se manifesta no cotidiano. Quando alguém pergunta “por que continuo a viver?” e não encontra resposta que não seja provisória; quando a morte de uma pessoa próxima revela a fragilidade de todos os projetos; quando o sol brilha indiferente sobre a injustiça ou o sofrimento, nesses momentos o absurdo se torna concreto. O absurdo surge quando o desejo humano por clareza, unidade e sentido se confronta com um mundo que não oferece uma resposta capaz de satisfazer definitivamente essa exigência.
São características presentes na obra desenvolvida por Camus, a presença de: reflexão sobre a condição humana; valorização das sensações; caráter realista e materialista; absurdo da vida; o humano revoltado; exaltação da natureza; tragicidade; negatividade; ironia.
O absurdo e a revolta, temas presentes na obra do autor, fazem-se mais presentes em “O mito de Sísifo”, no qual teoriza que é justamente da oposição entre a busca por sentido da vida e a falta de respostas claras para questões de fundo existencial, que surge a sensação de absurdo diante da vida. O absurdo é tal que não pode ser explicado meramente pela razão humana. O absurdo não é um enigma que a razão ainda não conseguiu resolver. Ele nasce justamente da constatação de que a exigência humana por uma explicação última encontra um mundo que não oferece essa resposta. Justamente por a vida ser absurda, não é possível falar corretamente em uma providência divina ou em uma moral presente na história. Não se trata aqui de tentar buscar uma explicação para tal e sim de constatar o absurdo da condição humana.
Camus recusa as duas respostas tradicionais à experiência do absurdo. A primeira é o suicídio. Se a vida não tem sentido garantido, por que não interrompê-la? Ele rejeita essa solução porque o suicídio elimina o problema em vez de enfrentá-lo: é uma fuga, não uma resposta. A segunda é o “salto”, seja este o salto religioso (a fé que postula um sentido oculto), seja o salto filosófico (a construção de um sistema que dissolve a contradição). Para Camus, o salto é uma forma de evasão: em vez de permanecer fiel à evidência do absurdo, o indivíduo prefere inventar ou aceitar uma transcendência que o isenta da tensão. Aqui observamos uma crítica endereçada a determinadas respostas de pensadores, como no caso de Kierkegaard, Chestov, Jaspers e Husserl. A atitude legítima, segundo ele, é permanecer no absurdo sem tentar resolvê-lo. É preciso viver com a contradição, sem negá-la.
Dessa lucidez decorrem três consequências práticas que Camus apresenta em “O mito de Sísifo”: a revolta, a liberdade e a paixão. A revolta é a recusa permanente de se resignar ao absurdo. Não se trata de uma revolta que pretende abolir a condição humana, mas de uma afirmação contínua: “eu não aceito o silêncio do mundo como resposta definitiva”. A liberdade surge quando se deixa de esperar um sentido externo; o indivíduo se torna responsável por seus atos sem a justificativa de uma ordem superior. A paixão consiste em viver o maior número possível de experiências com intensidade, não porque a quantidade substitua o sentido, mas porque a consciência lúcida transforma cada instante em valor absoluto. A paixão significa viver intensamente o presente, sem adiar a vida em nome de uma promessa futura ou transcendente. O exemplo de Sísifo ilustra essa posição: condenado a rolar eternamente uma pedra montanha acima, ele encontra a felicidade não na esperança de libertação, mas na consciência plena de seu esforço. “É preciso imaginar Sísifo feliz” significa que a lucidez, mesmo diante do fracasso repetido, pode tornar a existência digna de ser vivida.
O humano vive uma vida absurda e deve aceitar que seja assim, quando falo em “aceitar” não me refiro à resignação e sim a aprendizagem, cabe aprender a conviver com este absurdo mantendo-o sempre diante de si-mesmo e vivendo uma revolta permanente, evitando a tentação de buscar sua solução por meio da fuga. O humano se encontra diante do absurdo e precisa aprender a viver sem negá-lo. O sentido do absurdo está justamente em reconhecê-lo, mas não em consenti-lo. O absurdo não se encontra isolado no humano ou no mundo, mas justamente nesta presença comum a ambos, no contraste que se forma entre o apetite humano por unidade diante da hostilidade mais primitiva presente no mundo que habitamos. Isto faz Camus recusar tanto a solução proposta por ditas filosofias existencialistas, como também o término da vida por escolha voluntária, o suicídio. Camus critica determinadas respostas existencialistas ao absurdo que, em sua interpretação, alguns pensadores propõem na tentativa de escapar da contradição introduzindo uma esperança ou uma transcendência que acaba funcionando como uma solução para aquilo que deveria permanecer sem solução. As filosofias com base no existencialismo buscam uma reconciliação com o absurdo, o que seria um suicídio filosófico, já o suicídio físico busca abolir o absurdo da vida da pessoa abolindo sua própria vida, mas não resolve o absurdo.
Em “O homem revoltado”, 1951, livro que levou a ruptura de Camus com toda a intelectualidade francesa comunista, inclusive Sartre, Camus critica todos os movimentos ditos revolucionários que acabam por transformar a história em um fim em si mesmo e, deste modo, legitimam a violência em nome de ideais políticos ideológicos. O livro provocou uma das mais importantes rupturas da vida intelectual francesa do pós-guerra, especialmente o rompimento público entre Camus e Sartre.
A partir de “O homem revoltado”, Camus amplia a análise da revolta do plano individual para o coletivo e histórico. A revolta metafísica (a recusa do absurdo e da injustiça do mundo) tende a se transformar em revolta histórica. A revolta metafísica nasce da recusa de uma existência marcada pela injustiça, pelo sofrimento e pela condição mortal. O problema surge quando a revolta se converte em revolução total: ao pretender criar um homem novo e uma sociedade definitivamente justa, a revolução justifica o assassinato e o terror em nome do futuro. Camus distingue cuidadosamente a revolta da revolução. A revolta verdadeira afirma um limite, no fundo ela diz: “até aqui, e não além”. Ela reconhece que a dignidade humana não pode ser sacrificada em nome de um fim histórico, por mais elevado que este se apresente. A revolução, ao contrário, quando se torna absoluta, transforma a própria revolta em seu contrário: o assassino se apresenta como juiz, e a justiça se torna pretexto para a opressão. Exemplos históricos abundam (o jacobinismo, o bolchevismo, os totalitarismos do século XX), mas o argumento de Camus não depende de nenhum caso particular: é uma análise da lógica interna da revolta quando ela abandona a medida.
Essa “medida” (mesure) é um conceito central e frequentemente negligenciado. Camus herda de suas origens, do pensamento mediterrâneo e da tradição grega, a ideia de que a excessividade leva à destruição. A revolta legítima é aquela que se mantém dentro de limites: ela luta contra a injustiça sem pretender abolir a condição humana; ela afirma a solidariedade sem exigir a uniformidade; ela busca a liberdade sem sacrificar a vida presente em nome de um paraíso futuro. No plano ético, isso se traduz numa recusa tanto do niilismo quanto do messianismo histórico. Não há absolvição última, mas há responsabilidades concretas. O médico de “A peste” não cura a doença porque acredita num sentido transcendente da epidemia; ele age porque a solidariedade com os que sofrem é a única resposta possível à ausência de sentido. No cotidiano, isso se manifesta quando alguém escolhe ajudar um desconhecido sem esperar recompensa, ou quando se recusa a mentir mesmo sabendo que a mentira seria mais cômoda: a ação não se justifica por uma ordem superior, mas pela afirmação da dignidade compartilhada.
A revolta, portanto, não encontra seu fundamento apenas na oposição individual ao absurdo. A revolta mostra que o ser humano não existe isoladamente. Ela revela que os seres humanos compartilham uma condição comum e, justamente por isso, possuem uma dignidade que não pode ser sacrificada em nome de qualquer projeto histórico. Quando alguém se revolta contra uma injustiça, não está simplesmente afirmando “eu” contra o mundo; não está apenas defendendo a própria liberdade, está dizendo, implicitamente, que existe algo em nós que merece ser respeitado. É nesse ponto que a revolta deixa de ser apenas negativa e passa a adquirir um fundamento de solidariedade. Revoltar-se contra a opressão significa reconhecer no outro a mesma dignidade que se reivindica para si. É por isso que Camus aproxima a revolta da solidariedade: dizer “não” à opressão implica afirmar, ao mesmo tempo, um valor que compartilhamos com os outros. A revolta estabelece, assim, uma exigência de limite. Se aquele que se revolta passa a considerar legítimo destruir qualquer pessoa em nome de sua causa, ele acaba reproduzindo a mesma lógica contra a qual se levantou. Liberdade, justiça e dignidade precisam permanecer ligadas, porque nenhuma delas pode ser transformada em justificativa para negar as outras.
Essa perspectiva explica por que Camus desconfia tanto das ideologias que prometem uma sociedade perfeita quanto do individualismo que transforma a liberdade em simples ausência de limites. A revolta estabelece um vínculo entre liberdade e responsabilidade: posso resistir à injustiça, mas não posso transformar minha própria revolta em autorização para destruir o outro. Há valores compartilhados que antecedem qualquer projeto político e que devem impor limites à ação. A solidariedade nasce precisamente dessa consciência de que ninguém enfrenta sozinho a condição humana. Por isso, em Camus, a revolta não conduz necessariamente ao ódio: ela pode ser uma forma de dizer não à injustiça justamente porque se afirma um sim à vida, à dignidade e à convivência entre os seres humanos.
Há uma frase marcante na obra de Camus e muito citada, se bem que na maioria das vezes em tradução livre, a frase correta é: "Au milieu de l'hiver, j'apprenais enfin qu'il y avait en moi un été invincible", em francês, que pode ser traduzida para o português como: "No meio do inverno, eu aprendia finalmente que havia em mim um verão invencível". Esta frase se encontra no ensaio “Retour à Tipasa” (Regresso a Tipasa), que foi escrito por Camus no ano de 1952 e incluído no livro de ensaios “L’été” (O verão), publicado em 1954. O contexto se dá ao entendermos ser Tipasa uma cidade no litoral da Argélia, lugar cheio de ruínas do antigo império romano. Além da Argélia ser o berço do nascimento de Camus, este havia visitado Tipasa quando ainda jovem e retornou a ela novamente no ano de 1952. Aqui, “inverno” e “verão” são metáforas com significado filosófico existencial na obra de Camus. O “inverno” nos remete ao absurdo da vida, na qual temos a época contemporânea de Camus duas guerras mundiais e a guerra fria. Neste período da primeira metade do século XX nos deparamos com diversos governos totalitários, com a destruição da Europa e outras partes do mundo. Isto gerou um sentimento de desespero e também uma sensação de absurdo quando diante da vida e tal esteve presente em toda a intelectualidade da época de Camus, caracterizando, inclusive, o surgimento do movimento filosófico “Existencialismo”. Já “verão” nos remete a força vital e a possibilidade de réplica da vida diante dos fatos e contra a destruição. O verão além de ser uma estação do ano, também mostra-se como a luz do sol constantemente presente no mediterrâneo, faz uma referência à beleza da natureza, ao amor pela vida e à dignidade humana. Dentro da filosofia de Camus o “verão” é sempre invencível, já que núcleo de resiliência e paixão pela vida. Mesmo quando tudo parece inverno, ou seja, sem qualquer sentido dentro de uma violência inexplicável pela razão humana, podemos encontrar luz e força no verão, para resistir, criar e também amar. A verdadeira revolta não surge do ódio e sim do amor à vida e é justamente a memória que mantemos do verão que nos concede forças para enfrentar o inverno no qual temos lutas políticas e ideológicas que mascaram e encobrem a verdadeira beleza da vida e do mundo.
Camus nunca pretendeu construir um sistema filosófico fechado. Seu pensamento é deliberadamente incompleto, aberto à experiência e refratário às totalizações. Ele rejeitou o rótulo de existencialista, embora compartilhasse com esse movimento a centralidade da existência concreta. Sua originalidade está em ter mantido, até o fim, a tensão entre a lucidez do absurdo e a exigência de uma ética da solidariedade e da medida. Em um mundo que frequentemente oscila entre a resignação cínica e a paixão revolucionária destrutiva, a posição de Camus continua a interpelar: viver sem ilusão, mas sem se render; revoltar-se sem se tornar algoz; amar a vida mesmo sabendo que ela não oferece garantias. Em Albert Camus temos a presença do absurdo, a recusa do salto de fé teológico ou metafísico, a fidelidade ao "verão invencível" e metaforicamente a dimensão corporal e sensível do Mediterrâneo.
3- Palavras finais
Chegamos, assim, ao final desse percurso pelo pensamento de Albert Camus, e é hora de retomar a frase que abriu este texto. O verão invencível que Camus descobriu em si mesmo, em meio ao inverno de Tipasa, não é uma metáfora isolada: é a síntese de tudo o que sua vida e sua obra ensinam. Uma pessoa marcada desde cedo pela pobreza, pela tuberculose, pela ausência do pai e pela violência de duas guerras mundiais e de uma guerra colonial encontrou, mesmo assim, razões para afirmar a vida sem recorrer a nenhuma promessa de salvação. Essa é, talvez, a lição mais difícil de Camus: reconhecer o absurdo sem se entregar a ele, e resistir sem se tornar aquilo que se combate.
O mito de Sísifo, texto central dessa filosofia, não se esgota na imagem do herói condenado a rolar eternamente sua pedra. Camus também descreve, ao longo do ensaio, outras figuras que chama de tipos absurdos: “Don Juan”, que multiplica os amores sem se prender a nenhum deles; “o ator”, que vive intensamente cada personagem sabendo que nenhum é definitivo; “o conquistador”, que se lança à ação histórica sem esperar dela uma justificativa última. Estes tipos absurdos são exemplos de vidas que assumem a paixão e a quantidade de experiência sem buscar sentido último. Cada um, a seu modo, ilustra a paixão de que Camus fala: viver o maior número possível de experiências com lucidez, sem transformar a ausência de sentido em desculpa para a indiferença. Sísifo continua sendo o mais célebre desses tipos porque resume, na sua repetição infinita, a condição de qualquer humano que precisa recomeçar todos os dias sem garantia de que o esforço será, ao fim, recompensado.
Há um episódio da vida de Camus que resume, talvez melhor do que qualquer definição abstrata, o que ele entendia por revolta com medida. Em dezembro de 1957, dias depois de receber o Prêmio Nobel, Camus enfrentou em Estocolmo um jovem argelino que o acusava de silêncio diante da guerra de independência. "Entre a justiça e minha mãe, escolho minha mãe" (frase dita durante entrevista coletiva por ocasião do Nobel, não no discurso oficial, mas amplamente associada a ele). Sua resposta, frequentemente citada de forma incompleta e distorcida, não foi uma escolha sentimental da família contra a justiça: Camus lembrava que atentados terroristas atingiam então os bondes de Argel, que sua própria mãe poderia estar em um deles, e que, se a isso chamavam de justiça, ele preferia sua mãe. Não se tratava de negar a justiça, mas de recusar que ela fosse confundida com um terrorismo cego contra inocentes. É exatamente a mesma lógica de "O homem revoltado": toda causa, por mais legítima que pareça, encontra um limite intransponível quando passa a justificar a morte de quem nada tem a ver com ela.
É por isso que Camus continua sendo lido, mais de sessenta anos depois de sua morte. Vivemos, como ele, em um tempo de extremos, de discursos que prometem soluções totais e de violências justificadas por causas supostamente superiores. A obra de Camus não oferece consolo fácil nem sistema fechado; oferece, isso sim, uma disciplina de lucidez: reconhecer o absurdo, recusar tanto o suicídio quanto o salto para falsas certezas, revoltar-se contra a injustiça sem se tornar o algoz que se combate, e guardar, mesmo em meio ao inverno mais rigoroso, a memória de um verão invencível. Essa é, em síntese, a herança que Albert Camus deixou não apenas à filosofia e à literatura do século XX, mas a qualquer pessoa disposta a viver de olhos abertos.
4- Algumas das principais obras de Albert Camus
1. Título original: L’envers et l’endroit. Título em português: O avesso e o direito. Ano da primeira publicação: 1937.
Coleção de ensaios curtos e fortemente autobiográficos em que Camus revisita a infância pobre em Argel (capital da Argélia), a figura da mãe silenciosa, a avó autoritária e as primeiras percepções de contraste entre beleza e miséria. O texto já revela a tensão entre o amor à vida sensível e a consciência da morte, traço que atravessará toda a sua obra.
2. Título original: Noces. Título em português: Núpcias. Ano da primeira publicação: 1939.
Quatro ensaios líricos ambientados na Argélia (Tipasa, Djémila, Argel e o deserto) que celebram a união intensa entre o corpo e a natureza mediterrânea. Camus exalta o sol, o mar e a sensualidade como afirmação da existência contra qualquer transcendência, esboçando já uma ética da felicidade terrestre.
3. Título original: L’Étranger. Título em português: O estrangeiro. Ano da primeira publicação: 1942.
Romance narrado em primeira pessoa por Meursault, um jovem de Argel que se recusa a fingir emoções que não sente. Após o enterro da mãe e um assassinato sob o sol ofuscante, ele é julgado menos pelo crime do que pela sua indiferença às convenções sociais. A obra cristaliza a experiência do absurdo: a dissonância entre a busca humana de sentido e o silêncio do mundo.
4. Título original: Le mythe de Sisyphe. Título em português: O mito de Sísifo. Ano da primeira publicação: 1942.
Ensaio filosófico que define o absurdo como o encontro entre o desejo humano de clareza e o universo indiferente. Camus analisa o suicídio, a revolta e a liberdade, concluindo que a resposta legítima não é a fuga (física ou metafísica), mas a lucidez que assume a condição absurda e a transforma em intensidade de viver. O mito de Sísifo serve de metáfora central: é preciso imaginar Sísifo feliz.
5. Título original: Caligula. Título em português: Calígula. Ano da primeira publicação: 1944 (escrita iniciada em 1938; estreia teatral em 1945).
Peça em quatro atos que apresenta o imperador romano após a morte da irmã-amante. Calígula descobre a impossibilidade de ser livre e feliz e decide exercer o poder absoluto para forçar os outros a enfrentar a mesma verdade. A peça dramatiza a lógica destrutiva do absurdo levado às últimas consequências.
6. Título original: Le malentendu. Título em português: O mal-entendido. Ano da primeira publicação: 1944.
Drama em três atos ambientado em uma hospedaria de uma região pobre da Europa Central. Uma mãe e uma filha assassinam hóspedes para conseguir dinheiro e partir para um lugar melhor; por um equívoco trágico, matam o próprio filho e irmão que retornara sem se identificar. A peça aprofunda o tema da incomunicação e do absurdo no seio das relações humanas.
7. Título original: Lettres à un ami allemand. Título em português: Cartas a um amigo alemão. Ano da primeira publicação: 1945.
Conjunto de quatro cartas escritas entre 1943 e 1944 e publicadas na França em 1945. Dirigidas a um interlocutor alemão imaginário, as cartas refletem sobre a guerra, a resistência e a diferença entre a força e o direito. Camus procura mostrar que combater o nazismo não significa odiar o povo alemão, mas defender uma concepção de justiça, liberdade e dignidade humana. A obra é importante para compreender sua posição diante da violência política e sua tentativa de estabelecer limites morais mesmo em situações de guerra.
8. Título original: La peste. Título em português: A peste. Ano da primeira publicação: 1947.
Romance ambientado em Orã, na Argélia, durante um surto de peste bubônica. Narrado principalmente pelo médico Bernard Rieux, o livro acompanha diferentes respostas humanas à epidemia: solidariedade, egoísmo, idealismo, religião e resignação. Funciona como alegoria da ocupação nazista e, ao mesmo tempo, como meditação sobre a revolta coletiva e a responsabilidade ética diante do sofrimento, e como uma reflexão mais ampla sobre o sofrimento, a morte, a solidariedade e a responsabilidade humana diante do mal.
9. Título original: L’état de siège. Título em português: O estado de sítio. Ano da primeira publicação: 1948.
Espetáculo teatral em três partes que dramatiza a chegada da peste personificada a uma cidade espanhola. A peça denuncia o totalitarismo e a burocracia que se instalam em nome da ordem, mostrando como o medo e a colaboração tornam possível a opressão.
10. Título original: Les justes. Título em português: Os justos. Ano da primeira publicação: 1950 (estreia teatral em 1949).
Peça em cinco atos baseada no atentado real de 1905 contra o grão-duque Sérgio da Rússia. Um grupo de revolucionários debate os limites éticos do assassinato político: é legítimo matar inocentes em nome de um ideal de justiça? A obra examina a tensão entre pureza moral e eficácia revolucionária.
11. Título original: L’homme révolté. Título em português: O homem revoltado. Ano da primeira publicação: 1951.
Ensaio longo que analisa a revolta metafísica, histórica e artística desde o marquês de Sade até o niilismo contemporâneo e os totalitarismos do século XX. Camus distingue a revolta legítima (que afirma um limite e uma solidariedade) da revolução que, ao pretender criar um homem novo, termina no assassinato em massa. O livro provocou a ruptura pública com Sartre.
12. Título original: L’été. Título em português: O verão. Ano da primeira publicação: 1954.
Coleção de oito ensaios escritos entre 1939 e 1953, em grande parte centrados na Argélia e no Mediterrâneo. Camus retoma a celebração da luz, do mar e da beleza sensível, contrastando-a com o exílio interior e a crise da civilização europeia.
13. Título original: La chute. Título em português: A queda. Ano da primeira publicação: 1956.
Romance monológico em que Jean-Baptiste Clamence, antigo advogado de sucesso em Paris, confessa-se a um interlocutor anônimo em um bar de Amsterdã. Através de uma longa confissão irônica, ele desmascara a hipocrisia da boa consciência burguesa e contemporânea, revelando a culpa universal e a impossibilidade de inocência.
14. Título original: Réflexions sur la guillotine. Título em português: Reflexões sobre a guilhotina. Ano da primeira publicação: 1957.
Ensaio em que Camus desenvolve uma crítica à pena de morte e, particularmente, à execução por guilhotina. Partindo também da experiência pessoal de seu pai diante de uma execução pública, Camus questiona a legitimidade de um Estado que reivindica o direito de matar em nome da justiça. A obra retoma temas centrais de seu pensamento, como a dignidade humana, os limites da violência e a recusa de justificar a morte de uma pessoa em nome de um princípio abstrato ou de uma suposta finalidade social.
15. Título original: L’exil et le royaume. Título em português: O exílio e o reino. Ano da primeira publicação: 1957.
Volume de seis contos que exploram situações de solidão, incomunicação e busca de sentido em diferentes geografias (Argélia, Brasil, Paris, etc.). Cada narrativa apresenta um personagem em exílio (geográfico, social ou existencial) e a possibilidade precária de um “reino” de comunhão ou lucidez.
16. Título original: La mort heureuse. Título em português: A morte feliz. Ano da primeira publicação: 1971 (escrita entre 1936 e 1938; publicação póstuma).
Romance abandonado por Camus, que depois se tornou o material preparatório de “O estrangeiro”. O protagonista Patrice Mersault busca deliberadamente a felicidade, inclusive através de um assassinato, e vive uma existência intensa e sensível até a morte. A obra antecipa temas do absurdo e da recusa de qualquer justificativa transcendental.
17. Título original: Le premier homme. Título em português: O primeiro homem. Ano da primeira publicação: 1994 (manuscrito inacabado encontrado no local do acidente fatal de 1960; publicação póstuma).
Romance autobiográfico incompleto em que Camus reconstitui a infância do menino Jacques Cormery na Argélia colonial, a figura do pai morto na Primeira Guerra e a mãe analfabeta e silenciosa. O texto é uma busca das origens e um tributo à pobreza e à luz mediterrânea que formaram o escritor. O manuscrito encontrado no acidente tinha 144 páginas e permaneceu inédito por décadas até a sua publicação a partir do manuscrito e da primeira transcrição preparada por Francine Camus.
Silvério da Costa Oliveira.
Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.
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