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Jules Payot: A Educação da Vontade, Disciplina e Formação do Caráter

 

L'éducation de la volonté ne peut ni ne doit être négative et formelle; il faut porter la volonté à son maximum d'énergie.

 

Tradução para o português:

A educação da vontade não pode nem deve ser negativa e formal; é preciso levar a vontade ao seu máximo de energia.

Jules Payot, L'Éducation de la volonté, 1893 (ampliada em 1895).

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Jules Payot

 

1- Vida

 

Jules Payot deve ser entendido dentro do seu contexto histórico-cultural, no qual se apresenta como um pensador e educador que atuou como figura pública presente na Terceira República Francesa.

Jules Payot (1859-1940) nasceu em Chamonix, na região de Haute-Savoie, em verdade, tal nascimento se dá aos pés do imponente Monte Branco, na região dos Alpes franceses.  Essa origem montanhosa não foi mero detalhe geográfico: o contato precoce com a natureza grandiosa e austera dos Alpes marcou profundamente sua sensibilidade e, mais tarde, alimentaria reflexões sobre disciplina, esforço e superação pessoal, temas centrais em sua obra pedagógica. Payot casou-se em 3 de outubro de 1888 com Clémentine Caillet (Clémentine Payot; 1861-1940), com quem teve um filho. Clémentine faleceu em 20 de fevereiro de 1940, poucos dias após o marido (28 de janeiro). Payot vem a falecer aos 80 anos de idade nesta mesma região, em Aix-en-Provence, no sul da França, e as fontes divergem entre 28 ou 30 de janeiro de 1940.  Nestas breves notas biográficas, entendo ser interessante também destacar que Payot demonstrou familiaridade com a psicologia de Théodule-Armand Ribot (1839-1916), referência central em sua época e que alguns comentadores buscam destacar em maior primazia a influência de Ribot sobre Payot.


 

No tocante às fontes que nos chegaram nos dias de hoje, pouco se sabe sobre sua infância e formação inicial, o que torna sua trajetória ainda mais notável. Filho de uma família camponesa modesta da província francesa de Chamonix, segundo algumas fontes seu pai atuava como artesão em madeira. Payot construiu uma carreira sólida por meio de esforço intelectual e dedicação ao magistério, que reforça a meritocracia presente no crescimento pessoal e profissional ocorrido na sua vida. Em 4 de outubro de 1879, iniciou sua vida profissional como professor no colégio de Privas. Nos anos seguintes, lecionou em diferentes estabelecimentos de ensino secundário, como o colégio de Gap (1880) e outros liceus e colégios da França provincial. Essa experiência direta com o ensino médio permitiu-lhe conhecer de perto as dificuldades dos alunos e dos professores, especialmente em contextos afastados dos grandes centros intelectuais de Paris.

Sua carreira prosseguiu naturalmente e com certa rapidez em direção à administração educacional. Payot tornou-se inspetor de academia, cargo que lhe proporcionou uma visão mais ampla do sistema de ensino francês de sua época. O ponto alto de sua trajetória institucional ocorreu, quando foi nomeado reitor das academias de Chambéry (por volta de 1902-1907) e, posteriormente, de Aix-Marseille (com sede em Aix-en-Provence; 1907-1922 aproximadamente). Como reitor, Payot ocupou uma posição de grande influência na estrutura educacional da Terceira República Francesa, período marcado pela consolidação do ensino laico, republicano e obrigatório.

Esta evolução histórica de sua carreira consolida sua sólida formação como educador. Payot destacou-se como uma das principais figuras da educação laica na França. Embora admirasse profundamente a doutrina psicológica e moral presente na Igreja Católica Apostólica Romana, o que transparece em vários de seus escritos, ele defendeu com convicção o ensino público não confessional. Essa posição o colocou no coração dos debates pedagógicos de sua época, defendendo uma moral laica ancorada na razão, na vontade e na solidariedade humana, em oposição tanto ao clericalismo quanto ao materialismo reducionista. Além de atuar como educador/pedagogo, Payot escreveu vários livros sobre educação e filosofia moral. A teoria educacional por ele desenvolvida foca no autoconhecimento e também no desenvolvimento das potencialidades dos indivíduos.

Um episódio curioso e revelador de seu prestígio intelectual ocorreu quando Vladimir Ilitch Lenin (então exilado na Suíça sob o nome de Vladimir Ilitch Oulianov) visitou-o em Chamonix. Lenin (1870-1924) buscava conselhos ou diálogo com Payot, que já era reconhecido como guia intelectual de muitos professores primários franceses. Comentadores também ressaltam a vinculação de Payot com o pensador inglês John Ruskin (1819-1900), que comparava as montanhas a “catedrais da terra”, uma afinidade que reflete o gosto de Payot pela reflexão estética e moral inspirada na natureza. O episódio com Lenin (visita a Chamonix quando este ainda usava o nome Oulianov) é real e documentado em fontes locais de Chamonix, embora não seja o fato mais central da vida de Payot. A ligação com John Ruskin existe principalmente via admiração mútua pelas montanhas e pela iniciativa póstuma de Payot (ou da família) em homenageá-lo com a “Pierre à Ruskin” em 1925. No entanto, não há evidência forte de correspondência direta extensa entre ambos pensadores, mas, podemos sempre afirmar que Payot demonstrava admiração pela obra de Ruskin e que manteve contato indireto com o círculo de admiradores de Ruskin.

Sua vida foi marcada por uma dedicação constante à formação humana. Como professor de filosofia, inspetor e reitor, Payot sempre esteve voltado para a prática educativa real, não apenas para a teoria abstrata. Ele via a educação não como transmissão mecânica de conhecimentos, mas como processo de autoconhecimento, desenvolvimento da vontade e construção de uma moral sólida para o cidadão republicano.

Em termos pessoais, Payot manteve forte ligação com sua região natal. Chamonix representava para ele um ancoradouro afetivo e simbólico: nasceu ali, e o ambiente alpino parece ter reforçado sua visão de que a educação exige esforço, resistência e elevação constante do espírito. Embora tenha atuado em centros universitários do sul da França, nunca se afastou completamente das raízes provincianas que moldaram sua sensibilidade.

Payot chegou a apresentar sua candidatura a uma vaga de professor na École Normale Supérieure (Escola Normal Superior de Paris), na cátedra de pedagogia anteriormente ocupada por Ferdinand Buisson. No entanto, ficou em terceiro lugar, atrás de Malapert e Durkheim, este último que ficou com a vaga.

Payot viveu até o início da Segunda Guerra Mundial, testemunhando as transformações profundas da sociedade francesa desde o final do século XIX até o conturbado início do século XX. Sua morte em 1940 ocorreu em um momento de grande tensão europeia, encerrando uma carreira que influenciou gerações de educadores, especialmente por meio de obras que se tornaram verdadeiros best-sellers pedagógicos da época.

Em relação a tudo que dissemos anteriormente e a título de fechamento, existem aqui alguns elementos que cabe resumir para proporcionar um maior destaque, já que tem importância na sua formação pessoal e profissional. Por exemplo, sua origem humilde em ambiente alpino como fonte de inspiração para temas de vontade e superação. A ascensão por mérito: de professor secundário a reitor universitário. O equilíbrio entre admiração pela tradição presente na tradição da Igreja católica e o compromisso firme com a educação laica republicana. O prestígio que atraiu figuras como Lenin e permitiu diálogo com intelectuais como Ruskin. E, por fim, a longa dedicação prática ao ensino e à administração educacional, longe do isolamento acadêmico puramente teórico. Sua atuação deve ser compreendida no contexto da Terceira República Francesa, marcada pela consolidação do ensino público, laico e obrigatório, em oposição à influência tradicional da Igreja no campo educacional. Disto tudo, nos fica claro que Payot não somente foi um autor de textos sobre educação, mas alguém inserido dentro de seu tempo histórico e que acreditava e vivia aquilo que pregava.

 

2- Ideias

 

Jules Payot construiu uma pedagogia prática e psicológica centrada na formação integral do ser humano, indo muito além da mera transmissão de conhecimentos. Claro que aqui quando me refiro a uma “pedagogia psicológica”, esta antecede (não de modo histórico e cronológico, e sim em relação ao uso das ideias) o desenvolvimento da psicologia profunda de Freud, que nos torna joguetes de pulsões inconscientes, e, portanto, esta visão não se encontra presente na obra de Payot. Para ele, o objetivo maior da educação não era apenas instruir o intelecto, mas fortalecer a vontade como força central da personalidade. Em um período marcado pela consolidação do ensino laico republicano, Payot defendia uma moral independente da religião, ancorada na razão, na solidariedade e no esforço pessoal, uma “moral laica” capaz de formar cidadãos conscientes e autônomos. Para Payot, a educação deve ser entendida como uma possibilidade de autoconhecimento e auto-formação. Também podemos dizer que suas principais contribuições abordam as ações voluntárias e os estados de atividade muscular associados às ações voluntárias e conscientes.

Seu conceito fundamental aparece já no título de sua obra mais influente e famosa, “L'Éducation de la volonté”, 1893 (ampliada em 1895). Payot entendia a vontade não como um dom inato ou um “livre-arbítrio” abstrato e metafísico, mas como uma capacidade que se educa e se fortalece por meio de hábitos, atenção concentrada e domínio dos impulsos.

Vamos prosseguir, portanto, dando um destaque maior a sua principal obra, “A educação da vontade”, que se apresenta como um conceito central de toda a sua pedagogia. No coração do pensamento pedagógico de Jules Payot encontra-se a ideia de que a educação da vontade constitui a tarefa mais elevada e urgente da formação humana. Para ele, não basta instruir o intelecto com conhecimentos; é preciso forjar um caráter capaz de dominar impulsos, perseverar no esforço e direcionar a vida para fins elevados. A vontade não é um dom inato ou um livre-arbítrio metafísico absoluto, mas uma potência que se constrói progressivamente por meio de treinamento sistemático, como um músculo que se fortalece com o uso repetido e consciente.

A educação da vontade se encontra na base da formação humana. Payot argumentava que o trabalho intelectual prolongado e exigente é o melhor campo de treinamento da vontade. Ele observava que muitos jovens fracassam não por falta de inteligência, mas por incapacidade de manter a atenção e perseverar no esforço.

Payot dividia a vida psíquica em três elementos interdependentes: ideias, estados afetivos (emoções e sentimentos) e ações. E analisava como cada um pode servir ou sabotar a vontade.

Payot organizava seus métodos, sobre a educação da vontade, em torno de alguns pilares interligados: reflexão meditativa, domínio da atenção, formação de hábitos pela ação repetida e cultivo dos estados afetivos / emocionais, sempre apoiados no cuidado com o corpo e na alternância entre esforço e repouso.

A inteligência deve reinar como árbitro supremo, mas não como tirana isolada. Payot defendia que a reflexão meditativa (um momento de calma interior para examinar motivos e objetivos) prepara o terreno, mas é insuficiente sozinha. A verdadeira educação ocorre na ação: só o esforço repetido transforma intenções em hábitos enraizados. Ele enfatizava o trabalho intelectual como campo privilegiado. Amar o esforço sustentado no mesmo sentido gera unidade interior e liberta o humano de tendências dispersivas. As ideias claras e elevadas atuam como faróis que orientam a ação. No entanto, Payot alertava que o simples conhecimento intelectual tem pouca força contra a inércia ou a sensualidade. Uma ideia só se torna eficaz quando penetra profundamente na consciência e se associa a hábitos.

Já no tocante à formação de hábitos, temos que para Payot a vontade não se manifesta apenas em grandes decisões heroicas, mas na construção cotidiana de rotinas. A formação de hábitos se dá pela ação repetida.

Payot insistia que a vontade se cristaliza em hábitos. Ele comparava o ser humano a um “contador incorruptível” do caráter. Cada ato de esforço ou de fuga ao esforço fica registrado no caráter, na personalidade da pessoa, cada nova pequena vitória ou derrota fica ali anotada. Com o tempo, ações inicialmente penosas e desagradáveis (levantar cedo para estudar, resistir a impulsos, etc.) tornam-se, com a constante repetição, comportamentos quase automáticos e até necessários à existência do sujeito. Por exemplo, um jovem estudante que decide estudar todas as manhãs por duas horas, das 6h. às 8h., sem interrupção, mesmo sentindo preguiça e sem ter vontade inicialmente, no final acaba transformando essa disciplina em parte de sua identidade pessoal. Ele pode saber que o estudo sistemático é necessário para o sucesso, mas isso não o impede de procrastinar se a ideia permanecer superficial. A educação da vontade exige transformar ideias abstratas em forças motrizes internas. O sujeito pode escolher uma ação inicialmente penosa (levantar-se cedo para estudar, resistir a um prazer imediato) e repeti-la diariamente no mesmo horário. Pode começar devagar para evitar desistência, em vez de estudar 4 horas seguidas, comprometer-se com 1 hora fixa todos os dias, por exemplo. Aos poucos irá transformar o esforço em necessidade. Após algumas semanas de repetição, a ação torna-se quase automática e até prazerosa, porque o caráter se reorganiza em torno dela.

A preguiça, para Payot, não é ausência de vontade, mas vontade mal direcionada, e pode ser vencida pela construção lenta de rotinas positivas. Payot recomenda a reflexão meditativa combinada com ação. A meditação solitária e silenciosa ajuda a clarificar objetivos e fortalecer resoluções, mas deve ser seguida imediatamente de ação concreta. Payot alertava: “A reflexão meditativa é indispensável, mas por si só é impotente.” Só a combinação de introspecção e esforço real forma hábitos sólidos.

Também é importante cuidar do suporte físico, como a saúde corporal, repouso consciente, alternância entre períodos de tensão (esforço) e relaxamento. Uma boa higiene de vida (sono regular, alimentação equilibrada, exercício) é indispensável, pois o corpo cansado sabota a vontade. Por exemplo, após uma caminhada vigorosa nos Alpes (Payot recorria frequentemente à sua experiência nas montanhas), o indivíduo retorna com maior clareza mental e energia afetiva para enfrentar tarefas intelectuais. Neste tocante, cabe o combate aos males principais que podem se apresentar, tais como a preguiça disfarçada de liberdade, a sensualidade excessiva, a vaidade e a dispersão.

Payot insistia que toda educação da vontade começa com um momento de calma interior e exame de consciência. A “reflexão meditativa” não é devaneio passivo, mas um exercício ativo de clarificação. O humano deve isolar-se, em silêncio, para examinar seus motivos, objetivos e obstáculos reais. Antes de iniciar uma sessão de estudo, por exemplo, o jovem senta-se por dez ou quinze minutos e formula claramente: “Qual é o objetivo desta tarefa? Quais são as resistências internas que vou enfrentar (tédio, desejo de distração)? Como vou superá-las?”. Essa reflexão ajuda a criar uma resolução firme (o “fiat” enérgico), que Payot considerava essencial. Sem ela, as ações tornam-se impulsivas e passageiras. No entanto, ele alertava que a reflexão sozinha é impotente se não for seguida imediatamente de ação concreta.

Para Payot a atenção não é algo espontâneo; ela exige esforço voluntário contra as distrações internas e externas. Para combater a dispersão mental típica da juventude, Payot recomendava exercícios sistemáticos, tais como, escolher um tema difícil e fixar nele o pensamento por períodos cada vez mais longos, combatendo distrações internas (devaneios) e externas, típicas da juventude. Com o tempo, a capacidade de concentração se fortalece, tornando o trabalho intelectual menos penoso. A atenção voluntária é o fundamento.

Segundo o pensamento de Payot, é na juventude que temos o período decisivo. Entre os 18 e os 30 anos, o humano pode moldar seu destino por meio de um trabalho silencioso, solitário, perseverante e entusiástico.

É nos estados afetivos que Payot via um dos maiores recursos e também perigos. Emoções fortes (entusiasmo, amor pela justiça, admiração pela beleza) podem impulsionar a vontade com uma energia que a razão sozinha raramente alcança. Ele citava experiências pessoais, como superar o medo durante uma caminhada perigosa nos Alpes, para mostrar como um estado afetivo intenso pode gerar um “fiat” (decisão enérgica) capaz de vencer obstáculos. Por outro lado, afetos negativos ou passageiros (tédio, vaidade, desejo de prazer imediato, etc.) sabotam a perseverança. O segredo está em cultivar sentimentos nobres e duradouros, que sirvam de combustível constante.

Payot não ignorava o lado emocional, ele dava grande importância às emoções e aos sentimentos nobres.  Uma sensibilidade cultivada serve como poderoso combustível para a vontade. Sentimentos nobres (admiração pela beleza, amor pela justiça, entusiasmo pelo conhecimento) geram energia que a razão pura raramente alcança. Como método recomenda cultivar paixões elevadas por meio da leitura de grandes autores, contato com a natureza ou reflexão sobre ideais humanos. Associar ideias elevadas a emoções positivas para que penetrem mais profundamente. Ele também recomendava evitar excessos de sensualidade ou vaidade, que dispersam a energia vital. Ele citava que uma paixão elevada pode vencer a inércia mais facilmente do que a razão sozinha. No entanto, alertava: sem direção racional, os afetos podem levar ao entusiasmo passageiro e à instabilidade. Daí a necessidade de se trabalhar conjuntamente a paixão e a razão.

A atenção voluntária constitui, para Payot, o fundamento da vontade superior. Ele observava que a maioria dos fracassos intelectuais não decorre de falta de inteligência, mas da incapacidade de manter o foco contra distrações internas (devaneios, associações aleatórias) e externas. Como método para resolver esta situação ele recomenda começar com tarefas curtas e difíceis, como, por exemplo, escolher um texto complexo ou um problema matemático e fixar nele a atenção por 10 ou 15 minutos sem interrupção. Depois ir aumentando gradualmente a duração. Passar para 30 minutos, depois 1 hora, sempre combatendo o “espalhamento mental”. Técnica contra distrações: quando o pensamento divagar, trazer gentilmente a atenção de volta ao objeto, sem irritação ou autocrítica excessiva. Com a repetição, a capacidade de concentração fortalece-se como um músculo. Um estudante que se força a ler um capítulo de filosofia difícil, por exemplo, anotando apenas os pontos principais sem consultar as redes sociais no celular ou permitir devaneios, está treinando a atenção voluntária. Payot comparava esse exercício ao treinamento físico: o desconforto inicial transforma-se, com o tempo, em facilidade.

Aqui podemos buscar um exemplo no próprio Payot. O contraste entre o “herói do primeiro movimento” (aquele que age por impulso generoso, mas logo desiste) e o “herói da perseverança” (aquele que, mesmo sem entusiasmo inicial, mantém o esforço graças à vontade treinada).

Ele rejeitava duas visões extremas: a que via o caráter como um bloco imutável (hereditariedade fatalista) e a que exagerava o livre-arbítrio como algo absoluto, sem necessidade de treinamento. Payot não aceitava visões fatalistas que atribuíam o caráter exclusivamente à hereditariedade ou ao ambiente, assim como teorias românticas que exageravam o poder espontâneo da motivação. Ele propunha uma via intermediária e prática: a vontade superior surge quando o humano consegue submeter as tendências naturais (preguiça, dispersão mental, paixões, sensualidade, busca imediata de prazer) ao império de ideias claras, sentimentos nobres e ações repetidas. Para Payot, a vontade superior consiste em submeter as tendências naturais ao império de ideias claras e elevadas. Essa educação não visa criar heróis excepcionais, mas formar cidadãos republicanos sólidos, capazes de resistir às fraquezas cotidianas e contribuir para o progresso coletivo.

Payot oferecia ferramentas concretas, dirigidas especialmente a jovens, estudantes e professores, buscando atingir um método prático para a educação da vontade, tais como domínio da atenção; formação de hábitos pela ação repetida; reflexão meditativa combinada com ação; cuidado com o corpo, combate a alguns males tidos por Payot como principais.

Esses métodos práticos não eram neutros, eles serviam ao projeto republicano de Payot de, por meio da escola laica, formar cidadãos autônomos, solidários, responsáveis, capazes de viver segundo uma moral ancorada na razão e na solidariedade humana, sem depender da autoridade religiosa. Ele defendia métodos ativos que envolvessem o aluno na construção do conhecimento, em oposição ao ensino passivo e mecânico.

Payot admirava aspectos da psicologia moral católica (como em São Francisco de Sales), mas insistia que a escola pública devia oferecer ferramentas acessíveis para a “maestria de si-mesmo”, a escola precisava oferecer uma doutrina moral alta, acessível aos mestres, aos alunos e às famílias, sem recorrer à autoridade divina. Essa posição gerou forte oposição clerical e até levou alguns de seus manuais a serem colocados no Index pelo Vaticano.

Na época de Payot, marcada pela industrialização, pela urbanização e pela consolidação da Terceira República, ele via perigos como o hedonismo superficial e a falta de persistência. Sua proposta era um antídoto: transformar o trabalho intelectual em via de elevação pessoal e coletiva.

Do ponto de vista crítico, a educação da vontade de Payot revela um otimismo republicano característico de seu tempo: confiança no esforço individual e na razão como forças quase ilimitadas. Isto funciona bem para indivíduos com certa estabilidade emocional e apoio ambiental, mas tais ideias podem subestimar determinações sociais, econômicas ou inconscientes mais profundas que limitam a autonomia individual. No entanto, acertava ao colocar o autocontrole, a perseverança cotidiana e o treinamento gradual no centro da formação social humana, temas que ressoam fortemente hoje, em discussões sobre resiliência, hábitos e desenvolvimento pessoal. Payot oferece ferramentas concretas para quem busca maestria de si em meio às distrações da contemporaneidade.

Enquanto muitos pensadores da época limitavam-se a discussões teóricas sobre a vontade, Jules Payot distinguiu-se por oferecer métodos concretos, acessíveis e progressivos, dirigidos especialmente a jovens estudantes, trabalhadores intelectuais e educadores. Ele via a educação da vontade não como exercício abstrato de ginástica mental, mas como treinamento cotidiano aplicado ao trabalho intelectual prolongado. O objetivo era transformar intenções frágeis em hábitos enraizados, superando a preguiça, a dispersão e os impulsos imediatos.

Em “La Morale à l'école”, 1907, Payot radicalizou sua proposta pedagógica. Como defensor da laicidade militante, ele propunha uma moral escolar independente da doutrina religiosa, mas não materialista ou niilista. Essa moral baseava-se em: 1- solidariedade humana; 2- dever e responsabilidade pessoal; 3- métodos ativos. Solidariedade humana: O reconhecimento de que somos parte de uma humanidade que avança por esforço coletivo, superando heranças “bárbaras” de egoísmo e violência. Dever e responsabilidade pessoal: Cada criança deve “escolher sua destinação” por meio de atos voluntários, libertando-se progressivamente da ignorância, da feiura moral e da injustiça. Métodos ativos: Payot criticava o ensino passivo e defendia práticas que envolvessem o aluno na construção do conhecimento e na formação do caráter.

Para Payot, o trabalho intelectual se apresenta como sendo uma via de elevação. Em obras complementares, como “Le Travail intellectuel et la volonté”, Payot aprofundava a ideia de que o verdadeiro progresso intelectual exige amar o trabalho e saber trabalhá-lo. Ele criticava o diletantismo e a dispersão mental, propondo técnicas concretas: alternar períodos de esforço intenso com repouso consciente, cultivar a “reflexão meditativa” (não como fim em si, mas como preparação para a ação) e transformar o estudo em hábito enraizado. Payot via na educação da vontade um antídoto contra os males da contemporaneidade: a preguiça disfarçada de liberdade, o hedonismo superficial e a falta de persistência. Seu otimismo republicano inicial foi abalado pela Primeira Guerra Mundial, levando-o, na maturidade, a um certo ceticismo quanto à capacidade das instituições de reformar profundamente o ser humano, embora nunca tenha abandonado a crença no esforço pessoal.

As ideias de Payot representam uma síntese original entre a nascente psicologia experimental, a filosofia moral e a pedagogia prática. Diferentemente de autores mais teóricos, ele escrevia para professores, estudantes e pais, oferecendo ferramentas concretas para a “maestria de si”. Sua ênfase na vontade como conquista diária ecoa em abordagens contemporâneas sobre autocontrole, resiliência e formação de hábitos, embora sua visão laica e republicana carregue o selo de seu tempo.

Esses métodos práticos transformam a educação da vontade em um projeto acessível e cotidiano, longe de romantismos ou fatalismos. Payot escrevia para ser aplicado: sua obra destinava-se a estudantes com “velléités chancelantes” (vontades vacilantes), oferecendo um guia psicológico realista para forjar caráter por meio do trabalho intelectual.

Do ponto de vista crítico, Payot pode ser visto como um otimista da razão e do esforço individual em uma época de grandes esperanças republicanas. Ele subestimava, talvez, outros aspectos também importantes, como as determinações psicológicas, sociais e econômicas mais profundas, mas acertava ao colocar a educação da vontade no centro da formação humana, um tema que continua relevante para quem busca compreender por que tantos talentos se perdem por falta de perseverança e por que a verdadeira liberdade exige disciplina interior.

A pedagogia de Payot aproxima-se de uma tradição clássica da filosofia moral (presente, por exemplo, no estoicismo), na qual a liberdade não é concebida como espontaneidade, mas como domínio de si adquirido por exercício. Suas ideias antecipam, em muitos aspectos, abordagens contemporâneas de psicologia e ciência do comportamento, embora com uma dimensão moral e pedagógica mais explícita. Para Payot, a verdadeira liberdade não é ausência de constrangimento, mas a capacidade conquistada de dirigir a própria vida rumo a fins que possam ser considerados dignos.

 

3- Algumas das principais obras de Jules Payot

 

1. L'éducation de la volonté. Título em português: A educação da vontade. Data da primeira publicação: 1893.

Obra central e mais importante de Payot, considerada sua contribuição definitiva ao pensamento pedagógico e filosófico. O próprio autor data o prefácio de Chamonix, 8 de agosto de 1893, deixando claro o momento de conclusão da obra. Nela, Payot parte do diagnóstico de que a fraqueza da vontade é a raiz da maioria dos fracassos humanos, e propõe um método sistemático para o desenvolvimento da capacidade volitiva, especialmente voltado ao trabalho intelectual prolongado. O livro investiga as causas da preguiça, da dispersão da atenção e da fraqueza moral, apresentando um método eficaz para se alcançar atenção aos estudos e concentração em si. Para Payot a vontade não é um dado inato, mas uma conquista gradual, sustentada pela disciplina dos sentimentos, pela criação de hábitos saudáveis e pela educação do caráter. A obra tornou-se um clássico da pedagogia republicana francesa. Em 1931, L'Éducation de la volonté já havia chegado à sua 44ª edição, com cerca de 60.000 exemplares vendidos, tendo sido traduzida para quinze línguas.

2. L'éducation de la démocratie. Título em português: A educação da democracia. Data da primeira publicação: 1895.

Nesta obra, Payot desloca o foco da formação individual para a dimensão coletiva e política da educação. Ele examina os fundamentos filosóficos e morais necessários para a consolidação de uma sociedade democrática e laica, argumentando que a democracia não se sustenta apenas por estruturas institucionais, mas exige cidadãos com vontade formada, capacidade crítica e comprometimento com o bem comum. O livro é uma expressão direta de seu engajamento como pensador da Terceira República Francesa, conectando sua teoria da vontade às exigências da vida pública e ao ideal republicano de progresso social.

3. De la croyance: sa nature, son mécanisme, son éducation. Título traduzido para o português: Da crença. Data da primeira publicação: 1896.

Obra de natureza filosófica, dedicada à análise psicológica e epistemológica do fenômeno da crença. Payot examina como as crenças se formam, quais mecanismos psíquicos as sustentam e como podem ser educadas ou transformadas. A questão da crença é tratada em diálogo com a tradição positivista e com a psicologia da época, revelando a preocupação de Payot com os fundamentos racionais da vida moral em um contexto de enfraquecimento das certezas religiosas.

4. Avant d'entrer dans la vie: aux instituteurs et aux institutrices, conseils et directions pratiques. Título traduzido para o português: Antes de entrar na vida: aos professores e professoras, conselhos e orientações práticas. Data da primeira publicação: 1897.

Dirigida diretamente ao corpo docente, esta obra é um manual de formação moral e intelectual para educadores. Trata-se de um livro de conselhos aos professores, voltado para orientar a conduta profissional e a formação das convicções morais e cívicas dos professores do ensino primário. Payot acreditava que o educador precisava, antes de qualquer coisa, ter formado em si mesmo a vontade e o caráter que desejava cultivar nos alunos. A obra integra sua série de publicações voltadas à renovação do ensino laico republicano.

5. Cours de morale. Título traduzido para o português: Curso de moral. Ano da primeira publicação: 1904.

Manual de filosofia moral destinado ao uso em instituições de ensino. Payot organiza aqui de forma didática e sistemática os fundamentos da ética laica que defendia ao longo de toda a sua carreira. A obra aborda deveres individuais e sociais, a formação do caráter, a relação entre liberdade e determinismo, e os fundamentos racionais da conduta moral, sem recurso a qualquer fundamento religioso. Payot era um defensor de uma educação renovada que, além dos saberes, deveria formar uma vontade razoável, e esta obra é a expressão mais sistemática desse projeto no plano da ética.

6. La morale à l'école. Título traduzido para o português: A moral na escola. Data da primeira publicação: 1907.

Manual de educação moral para o ensino primário, que se tornou uma das obras mais polêmicas de Payot. Sua publicação desencadeou numerosas tensões, sendo o livro parte de um conjunto de treze obras proibidas que motivaram uma carta pastoral dos cardinais, arcebispos e bispos da França, que justificava a recusa dos sacramentos aos pais cujos filhos utilizassem tais livros. A obra defendia uma formação moral inteiramente laica para crianças, afastada de qualquer tutela religiosa, em consonância com os princípios da República Francesa.

7. L'apprentissage de l'art d'écrire.  Título traduzido para o português: O aprendizado da arte de escrever. Ano da primeira publicação: 1913.

Obra dedicada ao desenvolvimento das habilidades de expressão escrita, com ênfase pedagógica. Payot trata a escrita não apenas como técnica, mas como exercício de pensamento e de autodomínio, conectando o ato de escrever bem à formação mais ampla da inteligência e da vontade. A obra integra seu projeto de renovação das práticas pedagógicas, buscando métodos ativos em contraposição ao ensino enciclopédico e passivo que criticava sistematicamente.

8. Le travail intellectuel et la volonté. Título traduzido para o português: O trabalho intelectual e a vontade. 1919–1920 (primeiras edições registradas em 1919 e 1920, com edição definitiva em 1921).

Sequência direta de L'éducation de la volonté, à qual o próprio Payot a nomeou como continuação. Payot escreveu diversos livros sobre filosofia moral e educação dedicados aos professores, sendo Le travail intellectuel et la volonté um dos mais relevantes nessa linha. A obra aprofunda a reflexão sobre as condições concretas do trabalho da inteligência (concentração, método, uso do tempo, combate à dispersão) e sobre a relação indissociável entre esforço intelectual e disciplina da vontade. Também foi traduzida para o português no Brasil, com o título O trabalho intelectual e a vontade.

9. La conquête du bonheur. Título traduzido para o português: A conquista da felicidade. Ano da primeira publicação: 1921.

Obra de caráter filosófico-prático, voltada para uma reflexão sobre as condições morais e psicológicas da felicidade humana. Da obra provém a célebre frase de Payot: "A multidão só é acessível às emoções; é incapaz de uma atitude mental objetiva." Payot argumenta que a felicidade não é um estado passivo a ser encontrado, mas uma conquista ativa, resultado de esforço, autodomínio e cultivo das melhores potencialidades humanas. O livro sintetiza muitas das teses desenvolvidas ao longo de sua carreira, agora em um registro mais reflexivo e voltado ao público em geral.

10. La faillite de l'enseignement. Título traduzido para o português: A falência do ensino. Data da primeira publicação: 1937.

Último grande livro publicado em vida por Payot, quando já contava 78 anos. Nesta obra, Payot elabora com amargura um diagnóstico de fracasso da instituição escolar à qual havia dedicado toda a sua vida. O tom é o de um balanço crítico e desencantado: o sistema de ensino francês, em sua avaliação, havia traído os ideais republicanos que ele e sua geração abraçaram. Critica a centralização excessiva, a mediocridade promovida pelas estruturas burocráticas, a ausência de formação real da vontade nos jovens e o predomínio do verbalismo sobre a experiência concreta. Da obra provém outra frase marcante: "A maioria das pessoas adquire uma opinião como se pega o sarampo, por contágio."

 

Silvério da Costa Oliveira.

 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

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Por: Silvério da Costa Oliveira. ----- Original Message ----- Subject: Pergunta........ Caro Dr. Silvério, Achei o seu site numa busca feita na internet. Tenho um problema que me incomoda ha anos e ate agora ninguém (psicólogo, terapeuta, urologista, etc...) foi capaz de me dar um resposta e apresentar uma solução satisfatória para o meu problema. Nas primeiras vezes que transei (fazem bem uns 15 anos) eu sentia um prazer tão intenso no meu pênis. Esse prazer se espalhava pelo corpo e no outro dia eu sentia flutuando. Foram as únicas vezes que senti assim. Com o passar do tempo fui perdendo a sensibilidade no pênis. Quando uso camisinha e que não sinto nada. Às vezes parece que nem tenho pênis. Todo o resto funciona normal. Tenho ereções, ejaculo, tenho orgasmo e desejo sexual. So que nao tenho mais as sensações na glande. Por acaso o Sr. já ouviu algum problema assim. Consegue me orientar de alguma forma. Agradeço desde de já, J.X.C. Começo sugerindo...

Homem que usa calcinhas

Por: Silvério da Costa Oliveira. ----- Original Message ----- Subject: HOMEM QUE USA CALCINHAS BOA TARDE DR. SILVÉRIO... DESCULPE-ME PELA OUSADIA EM LHE ESCREVER ESTE E-MAIL, MAS É QUE AO PERCEBER SUA ABERTURA EM RECEBER E-MAIL´S VENHO POR MEIO DESTE, EXPOR O MEU PERFIL E FAZER ALGUMAS PERGUNTAS SE ME PERMITIR:  01) SOU UM HOMEM COM 51 ANOS DE IDADE, CASADO, FILHOS MAS QUE DESDE BEM NOVO NOTEI A MINHA TENDENCIA DE ME MANIPULAR NO ANUS... ISSO FOI EVOLUINDO GRADATIVAMENTE ATE ME CASAR. COM POUCO TEMPO DE CASADO POR SORTE MINHA MINHA, A MINHA ESPOSA PROCUROU ME ACARICIAR NESTA PARTE TÃO PRAZEIROSA QUE É O ANUS. DE CARICIAS PASSOU A PENETRAÇÕES E ISSO ME LEVA AO PRAZER... HOJE TEMOS UMA COLEÇÃO DE VIBRADORES E BRINCAMOS BASTANTE...  02) DESDE A MINHA PRE-ADOLESCENCIA QUE TIVE O FASCINIO POR CALCINHAS. AS ESCONDIDAS PEGAVA CALCINHAS DAS MINHAS IRMÃS E ME MASTURBAVA ESFREGANDO-AS EM MEU PENIS.... QUANDO ME CASEI DEI CONTINUIDADE COM AS CALCINHAS DA MIN...

Mulher com muito tesão em ter uma relação sexual com dois homens simultaneamente e fazer uma dupla penetração - DP

Por: Silvério da Costa Oliveira. ----- Original Message ----- Subject: artigo no blog Prezado Dr. Silvério Li uns artigos no seu blog sobre o tema do relacionamento aberto e adorei sua forma de escrever e encarar esta forma de relacionamento, que ainda hoje as pessoas tem pre-conceitos. Se me permite gostaria de relatar a minha situação, embora saiba que o sr deva ser muito ocupado. Sou casada, ou melhor, vivo com uma pessoa há 21 anos, não temos filhos e tenho muito tesão nele e ele em mim, nosso sexo é bem intenso, é como se estivéssemos nos conhecendo agora, de tanto que pega fogo. Estamos sempre nos descobrindo e fazendo coisas novas. Fazemos de tudo na cama, se é que o sr. me entende. Sou uma mulher bonita e atraente (o que se chama comumente de gostosa), que chama a atenção, apesar de já estar com 41 anos. Ultimamente, venho tendo desejos de um relacionamento a três. Eu com dois homens. Queria experimentar uma dupla penetração, mas ele não aceita muito bem a idéi...