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A Psicanálise de Sigmund Freud: fundamentos teóricos, evolução histórica e limites científicos

 

Por: Silvério da Costa Oliveira.

 

Sigmund Freud

 

Sigmund Freud é uma das figuras mais influentes do pensamento do século XX e mesmo no atual XXI. Fundador da Psicanálise, sua obra ultrapassou os limites da medicina e da psicologia clínica, impactando profundamente áreas como a filosofia, a sociologia, a antropologia, a literatura e a teoria da cultura. Ao propor a centralidade do inconsciente na vida psíquica, Freud transformou a maneira como o humano passou a compreender a si mesmo, suas motivações, conflitos e sofrimentos.

Ao longo de sua trajetória intelectual, Freud desenvolveu conceitos fundamentais, como repressão, pulsões, complexo de Édipo, inconsciente, superego e pulsão de morte, e ampliou progressivamente o alcance da Psicanálise para além da clínica, oferecendo interpretações sobre a religião, a moral, a civilização e o mal-estar cultural. Contudo, ao mesmo tempo em que sua teoria exerceu enorme influência, ela também suscitou críticas quanto ao seu estatuto científico e aos seus limites explicativos.


 

O presente artigo tem como objetivo apresentar os principais fundamentos da Psicanálise freudiana, acompanhar sua evolução histórica e examinar criticamente seus alcances e limites, tanto no campo clínico quanto no âmbito cultural e filosófico.

 

1- Vida

 

Sigmund Freud (1856-1939 - Sigismund Schlomo Freud, segundo alguns autores e fontes, por volta do ano de 1877, Freud mudou seu nome para Sigmund Freud, o certo, no entanto, é que esta mudança informal de seu nome ocorre após seu ingresso na universidade), de origem judaica, nasceu em Freiberg in Mähren (atualmente Pribor, na República Tcheca), Morávia, Império Austríaco, sendo o primogênito de oito filhos (Sigmund, seguido por Julius, que morreu na infância, Anna, Rosa, Marie, Adolfine, Paula e Alexander), e faleceu aos 83 anos de idade em Londres, Inglaterra, Reino Unido. Filho de Jacob Freud (1815–1896) e Amalia Nathansohn Freud (1835-1930). Jacob era um comerciante de lã cerca de 20 anos mais velho que Amalia, sua terceira esposa, e já tinha dois filhos adultos de seu primeiro matrimônio quando se casara com Amalia, a morte dele em 1896 foi um evento marcante que desencadeou a autoanálise de Freud, processo central para o desenvolvimento de suas principais teorias.

Em 1859, quando Freud tinha três anos de idade, sua família mudou-se para Leipzig buscando melhores condições e oportunidades de trabalho. No ano seguinte a família estabelece residência definitiva em Viena, então capital do Império Austro-Húngaro. A cidade de Viena foi importante e teria papel central na vida intelectual e profissional de Freud. Nela encontramos uma atmosfera excitante e vibrante em termos culturais e científicos, mas infelizmente, como também ocorria no restante da Europa, temos já a presença do antissemitismo, que acabaria com o tempo evoluindo para a tragédia da década de 1930 / 40, com a perseguição, prisão e morte de vários judeus pelo simples fato de nascerem judeus.

Freud cresceu em um bairro judeu, com um ambiente familiar modesto, frequentou inicialmente uma escola particular e depois, aos nove anos de idade, ingressou no Gymnasium, onde se destacou em línguas clássicas, literatura e história, graduando-se com honras em 1873, aos 17 anos. Freud desde cedo demonstrou grande aptidão e talento nos estudos.

Aos 17 anos de idade, em 1873, ingressa na Universidade de Viena, inicialmente para estudar Direito, mas muda para Medicina e se forma em 1881. No decorrer do tempo em que esteve na faculdade de medicina, conheceu o trabalho de pesquisa de Ernst Wilhelm von Brücke (1819-1892), em seu laboratório de fisiologia, começando a trabalhar com ele a partir do ano de 1876. Brücke era um proeminente cientista que pesquisou o sistema nervoso de peixes e desenvolveu habilidades em histologia. Freud se dedicou a pesquisa sobre histologia do sistema nervoso. Freud trabalhou também no Instituto de Anatomia sob a orientação de Theodor Hermann Meynert (1833-1892). Após a conclusão de seu curso, decide-se pela clínica especializada em neurologia.

A partir de 1882 passa a se dedicar à clínica psiquiátrica, ingressou no Hospital Geral de Viena como residente, especializando-se em neurologia e psiquiatria, e publicou artigos sobre anatomia cerebral e afasia. Em 1885, obteve uma bolsa para estudar em Paris com Jean-Martin Charcot (1825-1893), um renomado neurologista que tratava histeria com hipnose, trabalho e tratamento que este desenvolvia na Salpêtrière. Charcot entendia que a histeria não era uma doença unicamente presente nas mulheres, como a comunidade médica então acreditava, e que havia uma íntima relação entre a histeria e a sexualidade. Freud toma para si estas ideias e as defende em Viena, mas seus pares a rejeitam, começando aí um certo isolamento de Freud da comunidade médica que só iria se agravar nos próximos anos na medida em que desenvolvia suas próprias ideias e começava a criação da Psicanálise. Essa experiência de seis meses na Salpêtrière foi transformadora, expondo Freud aos fenômenos inconscientes e ao tratamento psicológico de sintomas físicos, afastando-o gradualmente da neurologia pura.

Também no ano de 1882 conhece e fica noivo de sua futura esposa Martha Bernays (1861-1951), com quem casa em 1886 e com quem teve seis filhos, Mathilde (1887-1938), Jean-Martin (1889-1967, nomeado em homenagem a Charcot), Oliver (1891-1969), Ernst (1892-1970), Sophie (1893-1920) e Anna (1895-1982). Este noivado de quatro anos foi marcado por cartas apaixonadas e ciúmes. Martha Bernays era uma jovem judia de família ortodoxa de Hamburgo, que ele conhecera no mesmo ano em que noivara, sendo apresentado por uma de suas irmãs. Martha era culta e dedicada, abandonando práticas religiosas ortodoxas para se adaptar ao agnosticismo de Freud. O casal estabeleceu-se em Viena. Anna, a caçula, tornou-se uma proeminente psicanalista, continuando o legado do pai e cuidando dele em seus anos finais. A família enfrentou tragédias, como a morte precoce de Sophie por gripe espanhola em 1920 e de um neto em 1923, eventos que exerceram influência sobre as reflexões de Freud em relação ao luto e melancolia.

É significativo na vida de Freud seus estudos sobre os efeitos analgésicos da cocaína. Ele se dedicara a esta pesquisa antes de 1884, mas não concluiu, entregando-a a dois colegas de profissão, um destes foi Carl Koller (1857-1944).

Entre 1882 e 1896 Freud faz parceria com o médico Josef Breuer (1842-1925) nos estudos sobre a histeria. Em 1886, quando Freud retorna de Paris, onde estudara com Charcot, abre em Viena uma clínica particular como neurologista, focando em distúrbios nervosos. A partir do ano de 1886 começa sua clínica com pacientes histéricos fazendo uso da hipnose, mas a partir do método empregado por Josef Breuer, que no lugar de fazer sugestões hipnóticas, permitia a paciente falar. A par com o trabalho em sua nova clínica, temos a parceria com Breuer e desta relação surge a criação do método catártico com o uso da hipnose, no qual o paciente era invitado a falar sobre sugestão da origem causadora de seus sintomas. Este método permitiu a ambos pesquisadores vincular a histeria e seus sintomas a traumas ocorridos na infância. Desta parceria resultou a publicação do livro “Estudos sobre a histeria”, 1895, obra que introduziu o conceito de trauma psíquico. Mas esta obra, apesar de toda a sua importância, ainda não marca o início da Psicanálise, pois, a Psicanálise só irá realmente surgir a partir do momento do abandono definitivo por parte de Freud, da hipnose e sua substituição pelo método de Associação Livre. Divergências levaram Freud a desenvolver seu próprio método.

Em 1895, ele redigiu "Projeto para uma psicologia científica", um texto não publicado em vida que tentava explicar o psiquismo em termos neurológicos, precursor de suas teorias sobre o inconsciente. Influenciado por sua autoanálise, após a morte de seu pai em 1896 e por uma amizade intensa (e posterior ruptura) com Wilhelm Fliess (1858-1928), Freud abandonou gradualmente a hipnose em favor da associação livre. O marco derradeiro em termos de publicação é A interpretação de sonhos, 1900, livro no qual a hipnose cede em definitivo lugar ao método de associação livre.

Em 1889 estuda com a Escola de Nancy, rival da de Charcot, que se propõe ao uso da hipnose não somente para pacientes histéricos, mas para qualquer um.

Aos 24 anos de idade, em 1880, inicia-ee no hábito de fumar, primeiramente cigarros e depois charutos. Este hábito, do qual gostava, teria como consequência a geração de um câncer de boca.

Freud conheceu Franz Brentano (1838-1917), que foi seu professor, além disto, fica patente a influência em sua obra dos filósofos Schopenhauer (1788-1860) e Nietzsche (1844-1900), mesmo que este o negue.

O termo “Psicanálise” foi adotado por Freud no ano de 1886 para designar o trabalho que este vinha desenvolvendo na clínica com o abandono gradativo do uso da hipnose e sua substituição pelo método de associação livre e pela interpretação de sonhos. A publicação do livro “A interpretação de sonhos”, 1900, marca o início formal da Psicanálise. Seguiram-se publicações chave, como "A psicopatologia da vida cotidiana", 1901, que explorava atos falhos como manifestações inconscientes, e "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", 1905, que revolucionou o entendimento da libido infantil e do complexo de Édipo gerando controvérsias. O termo “complexo”, se bem que amplamente adotado hoje em dia, não é criação de Freud e sim de Bleuler e Jung e com o rompimento com Jung, Freud não se sente totalmente a vontade com a expressão. Freud adotava a referência a “Édipo” e ao “romance familiar”, no lugar de “complexo”. Freud também não adotou o termo “complexo de Electra”, proposto por Jung para se referir ao mesmo processo com suas variáveis quando ocorrido em meninas.

A partir do ano de 1902 é formada a Sociedade Psicológica das Quartas-feiras, que se reunia na residência de Freud para discutir trabalhos com pacientes e o método psicanalítico que se desenvolvia. Esta sociedade era composta por um grupo de médicos convidados por Freud. Este grupo muda sua denominação para Sociedade Psicanalítica de Viena no ano de 1908. Deste grupo participaram, dentre outros, Alfred Adler (1870-1937), Carl Gustav Jung (1875-1961) e Otto Rank (1884-1939), embora cisões posteriores (Adler em 1911, Jung em 1913) marcassem o movimento.

No desenvolvimento inicial de seu trabalho clínico, Freud entendeu que os problemas neuróticos apresentados por seus pacientes eram decorrentes de um trauma infantil gerado por abusos sexuais na infância, aqui estamos diante da teoria da sedução. Freud abandona esta formulação inicial para adotar que qualquer cenário infantil sobre sedução, independente desta ser real ou imaginária, associada a conteúdos reprimidos, tende a favorecer o surgimento de neuroses. Aqui temos a base para a formulação do complexo de Édipo.

Em 1909 Freud é convidado por G. Stanley Hall e aceita participar como conferencista na Clark University, Worcester, Massachusetts, EUA, por ocasião do 20º aniversário da instituição, proferindo uma série de palestras sobre o desenvolvimento da Psicanálise. Freud foi acompanhado por Jung e Sándor Ferenczi (1873-1933), e apresentou cinco conferências introdutórias à Psicanálise, recebendo um doutorado honorário. Essa visita marcou o reconhecimento internacional da Psicanálise, apesar do desconforto de Freud com a cultura americana, que ele via como superficial e materialista.

No ano de 1910, durante o segundo congresso internacional de Psicanálise, em Nuremberg, é criada a "Associação Psicanalítica Internacional".

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) trouxe desafios: Freud perdeu investimentos, viu filhos servirem no front e refletiu sobre agressividade humana, influenciando obras como "Além do princípio do prazer",1920, que introduziu a pulsão de morte. Nos anos 1920, ele continuou produzindo: "O ego e o id", 1923, reformulou a estrutura psíquica com id, ego e superego; "O futuro de uma ilusão", 1927, criticou a religião como ilusão; e "O mal-estar na civilização", 1929, analisou o conflito entre pulsões e sociedade.

Com a subida ao poder do nazismo na década de 1930 e após vários atos hostis, temendo o pior, Freud consegue ir para Londres, Inglaterra, no ano de 1938 visando escapar da perseguição dos nazistas, mas só o conseguiu com a ajuda da princesa francesa Marie Bonaparte (1882-1962). Como judeu, Freud enfrentou crescente antissemitismo na Áustria. Após o Anschluss em março de 1938, quando a Alemanha anexou a Áustria, nazistas invadiram sua casa e editora, queimando livros e interrogando sua filha Anna. Com a ajuda de amigos internacionais, incluindo a princesa Marie Bonaparte (que pagou os resgates), Ernest Jones (1879-1958) e o embaixador americano William Bullitt (1891-1967), Freud obteve vistos para fugir. Em junho de 1938, aos 82 anos, ele deixou Viena com Martha, Anna e outros familiares, passando por Paris antes de se instalar em Londres, na Inglaterra, onde foi recebido como refugiado e continuou trabalhando.

Infelizmente, quatro de suas irmãs (Pauline, Adolfine, Marie e Rosa) não tiveram a mesma sorte e apesar de tentativas para retirá-las da área dominada pelos nazistas, estas tentativas fracassaram e as mesmas acabaram morrendo em campos de concentração.

Freud falece em 23 de setembro de 1939, na verdade, foi um suicídio induzido (eutanásia por meio de injeções de morfina) pelo seu médico, Max Schur (1897-1969), quem mais tarde iria escrever uma de suas biografias, “Freud: vida e agonia” (Freud: Living and dying), 1973. Freud lutava contra um câncer de mandíbula diagnosticado em 1923, causado pelo hábito de fumar charutos, que exigiu mais de 30 cirurgias e próteses dolorosas, sendo o motivo de perda gradativa de sua voz e dores intensas que culminaram na decisão final de Freud de por fim a sua própria vida.

Em seus anos finais, dependia de Max Schur, seu médico pessoal desde 1928, que o acompanhou na fuga. Em setembro de 1939, com a dor insuportável e o câncer avançado, Freud, agnóstico e defensor da eutanásia digna, pediu a Schur que acabasse com seu sofrimento. Após consultar Anna, Schur administrou doses letais de morfina em 21 e 22 de setembro. Freud morreu em 23 de setembro de 1939, aos 83 anos, em sua casa em Hampstead, Londres. Seus restos foram cremados, e as cinzas depositadas em uma urna grega antiga de sua propriedade e coleção. Seu legado, controverso e influente, fundou a Psicanálise, impactando profundamente a nossa cultura, e diversos campos do saber, como, por exemplo: a psiquiatria, psicologia, filosofia, artes, literatura e cinema.

 

2- Desenvolvimentos anteriores a 1900 – Jean-Martin Charcot, Josef Breuer, Eugen Bleuler, hipnose, histeria

 

Quando Freud começou a se interessar pelo estudo das neuroses, em particular a histeria, era comum na comunidade médica o entendimento de tratar-se de uma doença exclusiva de mulheres, inclusive, o nome do distúrbio é originado da palavra grega hystera, que significa útero. Coube a Freud e antes dele Charcot e Breuer desenvolverem estudos que apontavam para a predominância da neurose histérica tanto em mulheres, como também em homens, portanto, estando presente em ambos os sexos em proporções semelhantes.

Com Breuer, Freud escreve e publica diversos trabalhos sobre a clínica, em particular cabe aqui citar seu livro "Estudos sobre a Histeria", 1895 (1893-1895). Coube a Breuer criar o “método catártico” pelo qual o paciente iria falar abertamente de seus problemas em busca da origem e cura dos mesmos. Breuer desenvolveu este método enquanto cuidava de uma paciente neurótica histérica chamada Bertha Pappenheim (Anna O.), que começou a adoecer enquanto cuidava de seu pai doente. Por sua vez, Pappenheim preferia chamar o método usado por Breuer de “cura pela fala”. Breuer notara que os sintomas histéricos apresentados pela paciente estavam ligados a memórias traumáticas que haviam sido esquecidas, mas que com o uso da hipnose era possível serem recuperadas e com sua recuperação e a partir da consciência que o paciente passava a ter das mesmas, este apresentava melhora de seu quadro clínico fazendo com que os sintomas desaparecessem. Ora, este método ainda fazia uso da hipnose, agora sem uso direto de sugestões sobre os sintomas, mas propiciando um acesso a memórias esquecidas e a verbalização das mesmas. Breuer compartilhou de suas descobertas para com Freud, proporcionando que este último, mais tarde, abandonasse o uso da hipnose, mas mantivesse a fala do paciente sobre seus sintomas buscando a origem dos mesmos e a consequente melhora ou cura.

Primeiramente Breuer com o uso da hipnose e posteriormente Freud com o método de associação livre, observaram que, quando os pacientes relatavam os pensamentos que estavam associados a seu estado doentio (cegueira, paralisia, incapacidade de falar a língua materna, falta de ar, etc.) no decorrer da terapia, os pacientes melhoravam de seus sintomas ou mesmo estes deixavam de existir. Esta é a “cura pela fala”, como foi chamada por Pappenheim e a base sobre a qual será construído o método terapêutico psicanalítico de Freud.

Antes de 1900 (publicação de “A interpretação de sonhos”), o caminho de Sigmund Freud rumo à Psicanálise foi marcado por uma transição gradual da neurologia convencional para uma abordagem que privilegiava o psíquico sobre o orgânico. Nesse período anterior ao ano de 1900, três figuras e conceitos centrais se destacam: Jean-Martin Charcot (com sua ênfase na hipnose e na histeria como fenômeno psicológico), Josef Breuer (com o método catártico e o tratamento de casos histéricos) e, em menor grau inicial, Eugen Bleuler (cuja influência mais direta viria depois, mas que já compartilhava interesses em estados alterados de consciência e psiquiatria dinâmica). Esses elementos formaram o solo fértil para que Freud abandonasse progressivamente a hipnose e desenvolvesse ideias sobre o inconsciente, o trauma psíquico e a etiologia psicológica das neuroses.

Jean-Martin Charcot (1825-1893) foi o primeiro grande catalisador. Em 1885, Freud obteve uma bolsa de estudos para passar seis meses na Salpêtrière, em Paris, hospital onde Charcot dirigia o serviço de neurologia. Charcot, um dos neurologistas mais respeitados da Europa, revolucionara o estudo da histeria ao demonstrar que seus sintomas (paralisias, contraturas, anestesias, crises convulsivas sem lesão orgânica evidente) podiam ser reproduzidos e modificados por hipnose. Ele classificava a histeria como uma neurose funcional, não simulada nem exclusivamente feminina (embora a maioria de suas pacientes fossem mulheres), e mostrava que a hipnose induzia estados semelhantes aos sintomas histéricos, o que ele chamava de "histeria artificial". Para Charcot, a hipnose revelava uma predisposição neuropática hereditária, mas também permitia intervenções sugestivas diretas para aliviar sintomas.

Charcot fazia demonstrações no hospital com pacientes neuróticos histéricos. Ele os hipnotizava e criava novos sintomas ou fazia desaparecer os sintomas existentes durante o transe hipnótico e sob sugestão hipnótica, mas, quando os pacientes saiam do transe retornavam para seus sintomas. A sugestão hipnótica não resolvia o problema dos sintomas histéricos na vida cotidiana dos pacientes (homens e mulheres).

Freud ficou profundamente impressionado. Ele assistiu às demonstrações de Charcot nas terças-feiras ("Leçons du Mardi"), traduziu obras dele para o alemão e adotou inicialmente a visão de que a histeria tinha raízes psicológicas, não apenas uterinas ou orgânicas como se pensava antes. Charcot introduziu Freud à ideia de que o psiquismo podia produzir sintomas corporais reais sem base anatômica, e que a hipnose era uma ferramenta para acessar e manipular esses processos. No entanto, Freud logo percebeu limitações: a hipnose de Charcot era mais demonstrativa que terapêutica, e a sugestão direta nem sempre resolvia a causa subjacente. Deste modo, uma paralisia histérica era curada e o paciente sob transe caminhava normalmente, um paciente que não conseguia falar em seu próprio idioma, voltava a falar sem apresentar problemas e assim por diante. Uma vez cessada a sessão hipnótica, na qual os sintomas sumiam sob sugestão hipnótica, ao acordar do transe, os sintomas reapareciam.

De volta a Viena em 1886, Freud abriu consultório como neurologista e começou a aplicar hipnose em pacientes com sintomas nervosos. Em 1889, viajou a Nancy para estudar com Hippolyte Bernheim (1840-1919) e Ambroise-Auguste Liébault (1823-1904), da escola rival de Salpêtrière, que enfatizava a hipnose como fenômeno sugestivo psicológico (não neuropático), aplicável a pessoas normais e não só a histéricos. Essa experiência reforçou sua crítica à visão organicista de Charcot e o preparou para questionar a hipnose como técnica definitiva.

Josef Breuer (1842-1925), médico vienense respeitado e amigo mais velho de Freud, representou o passo decisivo para o abandono da hipnose pura. Breuer tratava pacientes histéricos desde o início dos anos 1880, e seu caso mais famoso foi o de Bertha Pappenheim (conhecida como "Anna O."), atendida entre 1880 e 1882. Anna O. apresentava sintomas graves: paralisias, distúrbios visuais, alucinações, tosse nervosa e estados de ausência. Breuer descobriu que, ao hipnotizá-la e incentivá-la a falar livremente sobre suas lembranças (especialmente as associadas aos sintomas), ela experimentava uma "catarse emocional", uma descarga afetiva que aliviava temporariamente os sintomas. Anna O. chamou isso de "talking cure" (cura pela fala) e "chimney sweeping" (limpeza da chaminé).

Breuer e Freud discutiram o caso intensamente a partir de 1882-1883. Freud, impressionado, começou a aplicar o método catártico em suas pacientes, combinando hipnose com a evocação de memórias traumáticas. A colaboração culminou na "Comunicação preliminar sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos", 1893, e no livro conjunto “Estudos sobre a histeria”, 1895. Nesse trabalho, eles propuseram que os sintomas histéricos eram "ideógenos", originados de representações psíquicas traumáticas reprimidas, que não podiam ser descarregadas normalmente e se convertiam em sintomas somáticos. A hipnose permitia acessar essas representações reprimidas, e a catarse (ab-reação afetiva) as neutralizava.

Freud, porém, começou a notar limitações: nem todos os pacientes entravam em hipnose profunda, a catarse era temporária se o trauma não fosse plenamente elaborado, e surgia o fenômeno da transferência (o paciente projetava afetos no terapeuta: amor ou ódio). O método de Freud consistia em pressionar a testa do paciente para estimular lembranças ("técnica da pressão"). Gradualmente, Freud abandonou a hipnose em favor da associação livre. Após o comentário de uma paciente (Emmy von N., pseudônimo usado por Freud para Fanny Moser, uma viúva rica de 40 anos na época do tratamento, em 1889) que preferia que Freud parasse de pressionar sua testa e a deixasse falar livremente, Freud assim procede, nascendo o método de associação livre. Cabe também mencionar que Freud nunca fora um bom hipnotizador, motivo pelo qual adotou a técnica de pressão na testa do paciente e que mais tarde fez com que este abandonasse de vez qualquer tentativa de hipnotizar o paciente, deixando que este falasse livremente sobre o que lhe viesse à mente, buscando não exercer controle algum sobre este conteúdo ou sua exposição. Essa transição marcou o nascimento da Psicanálise propriamente dita.

Freud relata que essa reação de sua paciente, Emmy von N., foi decisiva, marcando o início da transição para a associação livre propriamente dita, onde o paciente fala tudo o que vem à mente sem censura, direção, pressão física ou qualquer intervenção ou interrupção do terapeuta. Ele percebeu que interromper ou forçar o paciente quebrava o fluxo natural e que permitir a fala livre facilitava o acesso ao material reprimido de forma mais autêntica e eficaz.

Eugen Bleuler (1857-1939), psiquiatra suíço e diretor do Burghölzli (clínica psiquiátrica de Zurique) a partir de 1898, teve contato indireto e inicial com Freud antes de 1900, mas sua influência mais forte veio depois. Bleuler interessava-se por hipnose, introspecção e estados alterados de consciência, e já admirava as ideias freudianas sobre afetividade e inconsciente. Ele cunharia o termo "esquizofrenia" em 1908 e introduziria conceitos como "autismo" e "complexo" (influenciando Jung), mas antes de 1900 sua relação com Freud era periférica, mais uma convergência de interesses em psiquiatria dinâmica que uma colaboração direta. Bleuler representava a ponte entre neurologia clássica e abordagens psicológicas, e seu hospital formaria discípulos como Jung, que mais tarde aproximariam Freud da psiquiatria acadêmica.

Em resumo, o período anterior a 1900 foi de transição: Charcot forneceu a hipnose como ferramenta para demonstrar o elemento psicológico na histeria; Breuer ofereceu o método catártico e a ideia de trauma psíquico reprimido; Bleuler antecipou uma psiquiatria mais aberta ao dinâmico. Freud absorveu esses elementos, mas os superou ao rejeitar a hipnose como técnica adotada no tratamento e ao enfatizar o inconsciente, a sexualidade e a resistência, preparando o terreno para "A interpretação de sonhos", 1900, onde a Psicanálise emerge como teoria autônoma a partir do método de associação livre. Esse ponto é fundamental para entender que a Psicanálise não surgiu do nada: foi uma síntese crítica de influências neurológicas e hipnóticas, transformadas por Freud em uma nova ciência da mente humana e da sociedade.

 

3- O projeto (1895)

 

A questão principal que podemos inferir de um debate sobre este pequeno trabalho é se é possível, ou não, deduzir os pressupostos presentes das estruturas mentais teorizadas pela Psicanálise de uma origem neurológica, biológica e orgânica. O próprio Freud, autor do “Projeto”, 1895, em diversos momentos de sua obra fala de modo contraditório sobre este tema, por vezes entendendo não ser possível buscar as estruturas descritas na Psicanálise em uma base orgânica, física, neurológica e biológica, já em outros momentos parece apontar justamente para esta possibilidade, talvez nunca esquecida, que fora aqui nesta obra estudada e desenvolvida, se bem que somente enquanto rascunho não publicável. Na obra futura desenvolvida por Freud, é justamente em “A interpretação de sonhos”, 1900, que os temas e ideias desenvolvidas aqui no “Projeto” são em parte retomadas, isto em particular no capítulo VII desta obra.

No ano de 1895 Freud escreve este trabalho ambicioso. O esboço de um modelo para explicar o funcionamento da mente humana por meio de uma abordagem científica e neurológica com base no espírito de sua época, o espírito do tempo, em alemão: Zeitgeist. Nesse rascunho, enviado a um amigo (Wilhelm Fliess) por carta e comentado pessoalmente, mas publicado apenas após sua morte.

Trata-se de um texto inconcluso e não publicado durante a vida de Freud. O amigo e correspondente de Freud, Wilhelm Fliess (1858-1928), o recebeu por carta no formato de rascunho e teve a oportunidade de opinar sobre o mesmo, mas a real publicação e disponibilização para o grande público só ocorre postumamente, em 1950, quando é publicado pela primeira vez em alemão. Neste texto temos as origens ainda embrionárias do que mais tarde será a Psicanálise.

O "Projeto para uma psicologia científica" (originalmente intitulado Entwurf einer Psychologie), redigido por Sigmund Freud em 1895, marca um ponto importante no desenvolvimento do pensamento de Freud rumo a Psicanálise. O “Projeto” pode ser entendido como atuando como ponte entre as bases neurológicas da formação de Freud para o desenvolvimento da técnica psicanalítica, na qual o estudo da mente humana se desvincula do neurológico e orgânico para buscar suas bases no desenvolvimento infantil a partir das fantasias e da sexualidade.

Freud tenta construir um modelo do funcionamento mental baseado estritamente em princípios neurofisiológicos, inspirado em sua formação médica e em influências como o Positivismo de Ernst Brücke (1819-1892) e a física da energia de Hermann von Helmholtz (1821-1894). O objetivo era explicar fenômenos psíquicos (como percepção, memória, desejo e defesa) em termos de processos neuronais quantificáveis, sem recorrer a conceitos metafísicos ou puramente psicológicos. Embora Freud tenha abandonado esse projeto explícito pouco depois, suas ideias centrais ecoam ao longo de toda a evolução da Psicanálise, influenciando conceitos posteriores como a pulsão (Trieb), a repressão e as duas tópicas do aparelho psíquico.

Freud imagina o cérebro como uma rede de neurônios que processam uma energia quantitativa (em obras posteriores parece que Freud faz uso do termo “intensidade” como sinônimo de “quantidade”, aqui descrita) neutra, chamada de "Q", vinda de estímulos internos e externos. Ele divide o sistema em três partes principais: uma para a percepção imediata (Phi - 𝜙), outra para a memória e os processos inconscientes (Psi – ψ), e uma para a consciência qualitativa (ômega - ω). Princípios como o de inércia (que busca eliminar qualquer excitação), constância (para manter um equilíbrio energético mínimo) e prazer-desprazer (onde o prazer surge da redução de tensão) guiam o fluxo dessa energia, distinguindo entre formas livres (que levam a ações impulsivas) e ligadas (que permitem pensamento e adaptação). Freud introduz aqui a ideia de pulsão como uma força interna dinâmica, não instintiva, que impulsiona o psíquico em direção à satisfação, antecipando conceitos centrais da Psicanálise, como repressão e desejo, mas ainda ancorados em uma visão materialista do cérebro.

Neste modelo presente no “Projeto”, Freud postula um sistema nervoso composto por neurônios que operam como condutores de uma energia quantitativa neutra, denominada simplesmente "Q" (de Quantität, quantidade). Essa energia, derivada de estímulos internos e externos, circula pelo sistema neuronal e tende a ser descarregada para manter um equilíbrio. Freud delineia três princípios fundamentais para o funcionamento desse sistema: o princípio de inércia neuronal, que impõe aos neurônios a tendência a eliminar completamente qualquer excitação recebida (mais presente nos neurônios Phi), evitando acúmulo; o princípio de constância, uma versão modificada do primeiro, que admite a necessidade de manter um nível mínimo de energia para funções vitais (mais presente nos neurônios Psi); e o princípio do prazer-desprazer, que associa o prazer à redução de excitação, e o desprazer ao seu aumento. Esses princípios quantitativos antecipam diretamente a dualidade pulsional na Psicanálise posterior, onde a busca por descarga de tensão (prazer) contrasta com retenções necessárias para a adaptação à realidade (princípio do prazer versus princípio da realidade).

Freud divide o aparelho neuronal em três subsistemas interconectados: o sistema phi (φ), responsável pela percepção de estímulos externos, permeável e sem memória permanente, atuando como uma barreira contra sobrecargas. Se assemelha ao sistema “percepção-Consciência” (Pcpt.-Cs.) da primeira tópica; o sistema psi (ψ), central para a memória e o pensamento, onde as excitações deixam traços permanentes (facilitações ou "bahnungen") e onde ocorrem processos como a repressão e o desejo. Se pensarmos em relação a primeira tópica, corresponde principalmente ao inconsciente (Ucs.), mas com sobreposição ao pré-consciente (Pcs.). Psi é o reservatório de representações duradouras e conflitos dinâmicos, o lugar das memórias reprimidas, desejos pulsionais e traços que não acessam diretamente a consciência; e o sistema ômega (ω), ligado à consciência qualitativa, que transforma quantidades energéticas em sensações de prazer ou desprazer. Mais próximo do consciente (Cs.) e do pré-consciente (Pcs.), especialmente o sistema Percepção-Consciência (Pcpt.-Cs.). Ômega é o ponto onde surge a consciência propriamente dita, ligada a percepções internas e externas.

Na primeira tópica, o consciente é o que está acessível agora, e o pré-consciente é o que pode vir a ser consciente com facilidade, Ômega captura essa transição qualitativa. Nesse framework, o psíquico surge da interação entre essas camadas: estímulos internos (como necessidades biológicas) geram excitações que, se não descarregadas, produzem desejo ou angústia, enquanto defesas como a repressão bloqueiam caminhos neuronais para evitar desprazer excessivo.

Um aspecto crucial é a distinção entre energia livre e energia ligada: a primeira flui sem obstáculos, levando a alucinações ou descargas motoras primitivas (como no bebê que chora para satisfazer uma necessidade); a segunda é investida em representações mais complexas, permitindo pensamento e adaptação. Aqui, Freud introduz precocemente a noção de pulsão (Trieb), entendida não como instinto biológico fixo (que ele diferencia explicitamente em textos posteriores, como "As pulsões e suas vicissitudes", de 1915), mas como uma força interna dinâmica, uma "exigência de trabalho" imposta ao psíquico pela biologia, impulsionando a busca por objetos de satisfação. Essa concepção de pulsão como "drive" (em inglês) ou impulso (e não mero instinto inato) vincula-se diretamente à teoria da libido posterior, onde a energia sexual (libido) se torna o motor principal das neuroses e do desenvolvimento psíquico.

Embora o "Projeto" seja uma tentativa ambiciosa de fundar a psicologia em bases científicas materialistas, Freud o abandonou por volta de 1896, reconhecendo limitações: o modelo era excessivamente mecânico, não capturava a complexidade qualitativa do psíquico e dependia de hipóteses neurológicas especulativas (como a teoria neuronal da época, anterior à descoberta de sinapses por Santiago Ramón y Cajal, 1852-1934). No entanto, suas sementes floresceram na Psicanálise madura. A divisão em sistemas phi, psi e ômega prefigura a primeira tópica (inconsciente, pré-consciente e consciente) de 1900, onde o inconsciente é um reservatório de representações reprimidas; o princípio de constância evolui para o princípio do prazer em "A interpretação de sonhos", 1900, e, posteriormente, para a dualidade pulsão de vida/pulsão de morte em "Além do princípio do prazer", 1920; e a repressão neuronal torna-se a repressão psíquica, mecanismo central das neuroses. Além disso, a ênfase em energia pulsional pavimenta o caminho para a teoria da sexualidade infantil em "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, 1905, onde pulsões parciais se organizam em fases do desenvolvimento.

Uma análise crítica valiosa desse texto é oferecida no livro "Freud's Project Re-Assessed: Preface to Contemporary Cognitive Theory and Neuropsychology", 1976, de Karl H. Pribram (neurocientista) e Merton M. Gill (psicanalista). Os autores reassessam o "Projeto" à luz da neurociência e psicologia cognitiva da década de 1970, argumentando que Freud antecipou conceitos modernos como processamento de informação, feedback neural e sistemas abertos biológicos. Pribram, em particular, destaca paralelos com modelos holográficos do cérebro e biologia sistêmica, sugerindo que o "Projeto" não foi um fracasso, mas um modelo proto-cibernético para o psiquismo, onde energia “Q” se assemelha a fluxos informacionais. Gill complementa com uma perspectiva psicanalítica, criticando o reducionismo neurológico de Freud, mas valorizando como ele abriu caminho para uma metapsicologia dinâmica. Essa releitura crítica ressalta a relevância atemporal do texto, conectando-o a debates atuais em neuropsicanálise e ciências cognitivas, e convida a uma visão integrada onde o biológico e o psíquico não são opostos, mas interdependentes.

O "Projeto" é fundamental como o embrião teórico da Psicanálise, revelando as raízes neurológicas das ideias freudianas e influenciando obras posteriores, como a primeira tópica do inconsciente (inconsciente, pré-consciente e consciente) e a dualidade pulsional de vida (Eros) e morte (Thanatos). Sua importância reside em demonstrar como Freud tentou unificar biologia e psiquismo, pavimentando o caminho para uma ciência da mente que transcende o puramente orgânico. No entanto, revela uma dubiedade persistente em Freud: embora ele abandonasse o modelo estritamente neurológico por sua rigidez especulativa, ecos dessa tensão entre o físico-biológico e o puramente psíquico permeiam sua obra futura, onde estruturas como o inconsciente ou o ego são descritas como processos dinâmicos autônomos, mas com sugestões implícitas de origens neurológicas, deixando aberta a questão de se a Psicanálise precisa ou não de uma base material para explicar o humano e se um dia seria ou não possível vincular as descobertas da Psicanálise ao corpo físico, ao orgânico, ao biológico, ao neurológico.

Em essência, o "Projeto" de 1895 não é apenas um relicário histórico, mas o embrião de toda a Psicanálise: uma tentativa de ancorar o subjetivo no material que, ao fracassar em sua forma original, liberou Freud para explorar o inconsciente como reino autônomo, pulsional e conflituoso, moldando assim o século XX e o atual XXI.

 

4- A descoberta do inconsciente e o nascimento do método: associação livre, catarse e abandono da hipnose – Transferência e contratransferência – Narcisismo

 

A formação de Freud se deu na medicina e não na filosofia. Ele não sentou em uma cadeira refletindo sobre a realidade, em seu lugar, sua teoria surge a partir de atendimentos de pacientes neuróticos em sua clínica. O inconsciente é uma marca registrada, podemos assim dizer, da Psicanálise, mas esta descoberta não surge do nada ou de modo isolado. A descoberta por Freud do inconsciente foi algo gradual que ocorreu a partir de sua prática clínica, em particular entre 1880 e 1900. Nesta época encontramos um Freud de formação em medicina e neurologia que aos poucos muda a forma de tratamento empregada na clínica com neuróticos. Inicialmente Freud fazia uso do método hipnótico, mas aos poucos mudou para o método de associação livre e conforme sua experimentação clínica prosseguia, chegou a conclusão sobre a existência de um inconsciente. A vida humana cotidiana se dá a partir da realidade provinda deste inconsciente.

O inconsciente surge a partir do trabalho de Freud e seu contato com o método de hipnose de Charcot, e o método catártico de Breuer. Aos poucos Freud foi abandonando técnicas decorrentes da hipnose em favor da associação livre, dando destaque a outro fenômeno que este observara em seus pacientes: a transferência. Por meio desta o paciente passava os seus sentimentos mais profundos de amor e ódio que nutria com pessoas significativas de suas relações (pai, mãe) para o terapeuta. Freud também chegou a conclusão que o mecanismo de transferência poderia gerar no terapeuta uma contratransferência e que o fenômeno da transferência era totalmente inevitável dentro no tratamento. Outro importante conceito desenvolvido na esteira do inconsciente foi o de narcisismo, fazendo aqui referência a história de Narcísio. O narcisismo aparece formalmente em um texto do ano de 1914, mas é uma consequência natural da descoberta do inconsciente e sua vinculação com a libido e o ego. Este percurso que foi da hipnose para o método de associação livre, passando pela descoberta do inconsciente e sua relação com a transferência, contratransferência, libido e ego vem a marcar o surgimento e desenvolvimento inicial da Psicanálise.

Na prática de atendimento usada por Freud, o paciente deitava-se em um divã em seu consultório e falava abertamente sobre o que viesse a sua mente. Esta técnica surge após Freud abandonar o uso da hipnose e foi chamada de “associação livre”. Freud também usava esta técnica para analisar os sonhos de seus pacientes. O uso do divã, com Freud sentado atrás do mesmo, o que colocava Freud também atrás da cabeça do paciente, com este não podendo encarar a Freud, já que não o via, tendo de olhar para o teto ou para a frente, não foi criado com a intenção de facilitar o paciente, ou fazê-lo sentir-se mais a vontade, mas sim para facilitar a vida de Freud e para que este, Freud, sentir-se a vontade diante do paciente, sem necessidade de ficar olhando-o no rosto e encarando seus olhos.

O método empregado na Psicanálise por Freud é um só e se chama “associação livre”. Com o abandono da hipnose, o paciente fala livremente sobre tudo que lhe vier a mente, seja lá o que for. Os próprios sonhos são interpretados por meio da associação livre e o mesmo ocorre com os chistes e a psicopatologia da vida cotidiana. Não há um método diferente para cada e sim um único método empregado em diversas situações para que o paciente tome consciência de seus reais motivos e desejos. Não confundamos a “associação livre” de Freud com a “associação induzida” usada por Jung junto a sua pesquisa sobre os “complexos”. Na “associação livre” o paciente fala livremente sobre tudo que lhe vier a mente, já na “associação induzida” uma lista de palavra previamente escolhidas é dita para o paciente que deve responder com a primeira palavra que lhe vier a mente.

O termo “Psicanálise”, criação de Freud, surge a partir do ano de 1886 em artigo publicado, mesmo ano do falecimento de seu pai. No ano de 1897 Freud abandona a teoria de que os sintomas neuróticos estariam associados a um trauma ocorrido na infância e de origem sexual. Em seu lugar passa a elaborar o que se tornaria a teoria do “édipo” na qual temos o “romance familiar” e os desejos sexuais infantis.

O início do processo que acabou por criar a Psicanálise se dá ainda com a colaboração entre Freud e Breuer, que gerou a publicação “Estudos sobre a histeria”. Em particular aqui pensamos em Anna O., pseudônimo para a paciente Bertha Pappenheim, uma mulher que sofreia de neurose histérica e cujos sintomas eram: paralisias, amnésias, convulsões sem base orgânica. Com o uso da hipnose, Breuer pedia que a paciente falasse sobre a origem de seus sintomas, o que proporcionava não a cura, mas alívio para os mesmos. Havia, no entanto, a necessidade não meramente de lembrar ou ser informado dos fatos ocorridos, mas de vivenciá-los com a mesma emoção original. A este reviver de eventos traumáticos associados aos sintomas foi dado o nome de “catarse”, fazendo referência a uma descarga afetiva e muito intensa que permitia que a emoção reprimida fosse ab-reagida, liberando a mente em conflito.

Tendo estudado com Charcot e trabalhado em parceria com Breuer, inicialmente Freud adotou para si o método catártico com o uso de hipnose, mas o substituiu primeiramente pela técnica de pressão na testa no lugar da hipnose e depois pelo método de associação livre, visando sempre a evocação de memórias com as respectivas emoções.

Em 1893, Freud e Breuer publicaram a “Comunicação preliminar sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos”, afirmando que os sintomas histéricos eram “ideógenos”: produzidos por representações psíquicas intoleráveis que, não podendo ser processadas conscientemente, convertem-se em sintomas somáticos. O inconsciente, aqui, já aparece como um reservatório de afetos e lembranças traumáticas que pressionam o corpo quando não descarregados.

Freud tinha problemas com o uso da hipnose, revelando limitações deste método. Nem sempre conseguia induzir o paciente ao sono profundo e a catarse gerada era por vezes de efeito temporários sobre os sintomas. Parecia que o trauma inicial não havia sido devidamente elaborado no transcorrer do processo de hipnose e catarse. Isto levou Freud a substituir a técnica de hipnose pela técnica de efetuar com os dedos pressão na testa do paciente (Drucktechnik), colocando ali a mão e pedindo que este se lembrasse de tudo que ocorrera em determinada situação de seu passado. Aqui neste momento temos a paciente Emmy von N. (Fanny Moser), que durante uma sessão de Freud reclamou do uso desta técnica e pediu que Freud parasse de a interromper pressionando sua testa e a deixasse falar livremente. Isto levou Freud a perceber que a interrupção do fluxo natural da fala podia interferir negativamente no acesso ao material inconsciente, nascendo aqui, na prática clínica, o método de associação livre: o paciente deve dizer tudo o que lhe vier à mente, sem censura, julgamento ou direção do analista. Essa técnica permitia que o inconsciente se manifestasse diretamente através de cadeias associativas, sonhos, lapsos e sintomas, revelando desejos reprimidos e conflitos internos.

Isto marca uma enorme mudança, deixando teoricamente o inconsciente de ser apenas um enorme depósito de traumas histéricos para tornar-se o núcleo dinâmico de todo o psiquismo. Freud o descreveu como regido pelo processo primário (condensação, deslocamento, ausência de lógica temporal), em contraste com o processo secundário do consciente (lógica, realidade, linguagem). A histeria, os atos falhos e os sonhos passaram a ser vistos como formações de compromisso entre o desejo inconsciente e a censura do ego.

No transcorrer deste processo temos também a descoberta da transferência e da contratransferência, fenômenos naturais e essenciais ao tratamento psicanalítico. À medida que os pacientes falavam livremente, começavam a projetar sobre o analista sentimentos, desejos e conflitos oriundos de relações passadas (especialmente com figuras parentais). Freud inicialmente viu a transferência como resistência (um obstáculo à análise), mas logo compreendeu que era o motor da cura: revivendo esses afetos no presente com o analista, o paciente podia elaborá-los conscientemente pela primeira vez. Em “Estudos sobre a histeria”, 1895, e especialmente no “O caso Dora - Fragmentos de uma análise de histeria”, 1905, Freud descreve a transferência como “um novo sintoma” criado na relação analítica, mas também como oportunidade de reviver e resolver conflitos antigos. A contratransferência (os sentimentos inconscientes do analista em resposta ao paciente) foi reconhecida mais tarde, e Freud alertou para que o analista a analisasse em si mesmo (autoanálise ou supervisão), para não interferir no processo. Aqui cabe um aparte pensando nos desenvolvimentos subsequentes da Psicanálise enquanto técnica clínica, a relação terapêutica normal e esperada é a transferência por parte do paciente e a contratransferência por parte do analista, mas nada realmente impede e pode, sim, ocorrer o inverso, ou seja, a transferência por parte do analista e a contratransferência por parte do paciente. Esta última questão irá gerar, futuramente, a necessidade de não somente estudos, mas também treinamento e análise dos futuros analistas.

Mas não para por aí, pois, logo na sequência, em 1914, temos uma publicação apresentando e desenvolvendo o conceito de “narcisismo”, naturalmente desenvolvido a partir dos conceitos anteriores em análise, como o de inconsciente. Em “Sobre o narcisismo: uma introdução”, Freud introduz a ideia de que a libido não é apenas objetal (dirigida a outros), mas pode ser investida no próprio ego (narcisismo primário, no bebê; e no adulto narcisismo secundário, regressivo). Isso reformula a teoria da libido: o ego não é apenas mediador entre id e realidade, mas pode ser objeto de investimento pulsional. O narcisismo explica fenômenos como megalomania, hipocondria, psicose e o ideal do ego (precursor do superego). Ele surge como resposta clínica à observação de que muitos pacientes transferiam afetos narcísicos para o analista, e como resposta teórica à necessidade de explicar o ego antes da segunda tópica. Também é uma resposta as dissidências de Adler (1911) e Jung (1913), já que ambos questionavam justamente a constante presença da sexualidade enquanto energia presente no ego e em todos os processos vinculados a psique do indivíduo.

Em um primeiro momento das elaborações de Freud, que vem a marcar o começo da Psicanálise, temos dois princípios em oposição: o princípio do prazer e o princípio da realidade. Pelo princípio do prazer temos uma motivação incessante e constante pelo prazer, mas em confronto com a vida social que cerca este indivíduo, surge outro princípio vital, que é o princípio da realidade, que por vezes retarda a obtenção do prazer para evitar um desprazer maior. Não é porque desejamos algo que o podemos tomar para si, há de se obedecer às regras, leis e convenções sociais. Mais tarde o confronto entre estes dois princípios dará lugar ao confronto entre o princípio do prazer e as pulsões de morte (thanatos), que direcionam o indivíduo para a autodestruição, mas Freud nunca abandonará em sua teoria a concepção de um “princípio de realidade”.

Esse período pré-1900 e início do século XX representa o nascimento da Psicanálise como método e teoria: da catarse hipnótica à associação livre, da transferência como resistência à transferência como cura, e do narcisismo como expansão da libido para incluir o ego. Tudo isso emerge da prática médica de Freud, que observava o inconsciente não como abstração filosófica, mas como força dinâmica revelada na clínica, uma força que, quando acessada pela fala livre, permite ao sujeito confrontar e transformar seus conflitos mais profundos.

Freud gostava bastante dos gregos, de suas obras, teatro e mitologia, daí por vezes suas escolhas para nomear descobertas teóricas na Psicanálise, como, por exemplo, o “narcisismo”. Penso ser importante contextualizar, já que isto estava presente na mente de Freud quando este falava e teorizava sobre o narcisismo.

O mito de Narciso possui duas versões na história, duas variações clássicas e ambas corretas. O termo “narcisismo”, cunhado por Freud em 1914 no ensaio “Sobre o narcisismo: uma introdução”, toma emprestado diretamente do mito grego de Narciso, cuja narrativa mais conhecida vem das “Metamorfoses”, de Ovídio (cerca de 8 d.C.), mas que possui raízes helenísticas e variações orais mais antigas (século VIII–IV a.C.). O mito reflete temas eternos de hybris (arrogância humana), eros (desejo impossível) e punição divina, e serve como alegoria perfeita para o investimento libidinal no próprio ego.

Na versão mais difundida (Ovídio, “Metamorfoses”, livro III), Narciso, belo jovem filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope, rejeita cruelmente todos os pretendentes, incluindo a ninfa Eco. Eco, amaldiçoada por Hera a repetir apenas as últimas palavras alheias, persegue Narciso apaixonadamente pelas florestas da Beócia, mas é rejeitada com frieza. Desesperada, definha até restar apenas sua voz, o eco que ainda hoje ressoa nas montanhas. Como retribuição pela hybris de Narciso, a deusa Nêmesis faz com que ele se apaixone por sua própria imagem refletida em uma fonte cristalina. Incapaz de tocar ou possuir o “outro” que é ele mesmo, Narciso consome-se de desejo até morrer, transformando-se na flor narciso, de cabeça pendente, símbolo de vaidade e beleza efêmera.

Em uma variação menos comum, presente em fragmentos helenísticos e tradições orais, os papéis se invertem: Narciso é atingido por uma seta de Eros (ou Afrodite) e passa a perseguir intensamente uma ninfa (geralmente Eco ou outra ninfa do bosque). A ninfa, aterrorizada, foge e implora ajuda aos deuses (ou a Ártemis, protetora da castidade). Em resposta, ela é transformada em uma planta ou arbusto que se esconde no solo, escapando assim do desejo obsessivo de Narciso. Como punição pela perseguição cruel e pela hybris erótica, Nêmesis, ou Afrodite, condena Narciso a se apaixonar por seu próprio reflexo na água, novamente um amor impossível que o leva à morte e à metamorfose na flor narciso.

Em ambas as versões, o desfecho é idêntico: Narciso morre consumido por um desejo narcísico, incapaz de sair de si mesmo. Essa dualidade mitológica (perseguidor ou perseguido) ilustra a ambivalência do desejo: seja rejeitando o outro ou perseguindo-o, o excesso de hybris leva à autodestruição. Freud, ao introduzir o narcisismo como investimento libidinal no ego (primário no bebê, secundário em regressões ou psicoses), encontrou nesse mito uma metáfora precisa para o ego que se torna objeto de seu próprio amor, isolando-se do mundo externo e pagando o preço da ilusão. Essa narrativa mitológica, com suas variações, nos proporciona ampliar a compreensão do narcisismo freudiano como fenômeno ao mesmo tempo universal e patogênico, ecoando a tensão entre desejo e realidade que permeia toda a Psicanálise.

 

5- Primeira tópica do aparelho psíquico (inconsciente, pré-consciente, consciente) 1900 até 1923

 

A primeira tópica do aparelho psíquico foi desenvolvida e adotada na clínica por Freud entre 1900 e 1923, quando tivemos o acréscimo a segunda tópica. Detalhe que a partir de 1923 com a segunda tópica, não temos um abandono ou substituição da primeira, mas sim um convívio entre ambas, predominando as explicações decorrentes da segunda tópica.

Aqui temos o primeiro modelo sistemático do aparelho psíquico apresentado por Freud. Esse framework, também chamado de "topografia do psiquismo" ou "teoria dos sistemas", divide a mente em três instâncias interconectadas: inconsciente, pré-consciente e consciente. Ele surge como uma evolução natural das descobertas iniciais sobre histeria, sonhos e atos falhos, permitindo explicar não só as neuroses, mas o funcionamento geral da psique humana como um campo de forças dinâmicas, conflituosas e energéticas.

Freud introduz essa tópica de forma mais elaborada em "A interpretação de sonhos", 1900, onde a descreve como uma "geografia" do mental, com barreiras e fluxos de energia psíquica. Até 1923, quando a segunda tópica (id, ego, superego) a complementa e reformula, essa estrutura serve como base para a metapsicologia freudiana, enfatizando o inconsciente como o verdadeiro protagonista do comportamento, das patologias e da criatividade.

O consciente (Cs., ou Bewusstsein em alemão) é a instância mais superficial e acessível do aparelho psíquico, correspondendo ao que o sujeito percebe e pensa no momento presente. Freud o compara a uma "sala de recepção" ou ao "sistema percepção-consciência" (Pcpt.-Cs.), onde estímulos externos e internos são registrados e processados de forma lógica e adaptada à realidade. Aqui reina o processo secundário: pensamento racional, linguagem organizada, consideração do tempo, da negação e das contradições. O consciente não é um depósito fixo, mas um estado transitório, o que é consciente agora pode não ser daqui a pouco. Em obras como "A psicopatologia da vida cotidiana", 1901, Freud mostra que mesmo o consciente é permeado por infiltrações inconscientes, como lapsos verbais ou esquecimentos, revelando que ele é apenas a ponta visível de um iceberg psíquico. Clinicamente, o consciente é o ponto de partida da análise: o paciente relata sintomas ou sonhos conscientemente, mas a cura exige ir além dele.

Logo abaixo, o pré-consciente (Pcs., ou Vorbewusstes) atua como uma zona intermediária, um "guarda-roupa" de memórias, conhecimentos e representações que não estão ativas no momento, mas podem ser acessadas com esforço mínimo, como lembrar um nome esquecido ou uma fórmula matemática. Esse sistema é regido por regras semelhantes ao consciente (processo secundário), mas serve como barreira protetora contra o inconsciente. Freud enfatiza que o pré-consciente contém conteúdos latentes, prontos para se tornarem conscientes, como vocabulário ou habilidades aprendidas. Em "Os chistes e sua relação com o inconsciente", 1905, ele ilustra como o pré-consciente media o humor: permite a liberação controlada de energia psíquica, transformando desejos reprimidos em prazer aceitável. O pré-consciente é crucial para a adaptação social e intelectual, mas também para a resistência: muitos pacientes "sabem" inconscientemente algo, mas o mantêm pré-consciente para evitar confronto.

O coração da primeira tópica é o inconsciente (Ucs., ou Unbewusstes), o sistema mais profundo e dinâmico, que Freud descreve como um "caldeirão fervente" de desejos, traumas e representações reprimidas. Regido pelo processo primário, caracterizado por condensação (fusão de ideias - metáfora), deslocamento (transferência de afetos - metonímia), ausência de lógica temporal ou negação, e busca imediata de prazer, o inconsciente é inacessível diretamente, mas se manifesta indiretamente através de sonhos, sintomas neuróticos, parapraxias e chistes.

Freud distingue dois tipos de inconsciente: o descritivo (tudo o que não é consciente) e o dinâmico (o recalcado ativamente, que exerce pressão constante para retornar). O recalque (Verdrängung) é o mecanismo chave aqui: representações intoleráveis (geralmente sexuais ou agressivas) são empurradas para o inconsciente pela censura (uma "guarda de fronteira" entre pré-consciente e inconsciente), mas elas não desaparecem, transformam-se em sintomas ou formações de compromisso. Em "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", 1905, Freud liga o inconsciente à libido infantil, mostrando que desejos edípicos reprimidos formam o núcleo das neuroses.

Em Freud, não existe diferença conceitual substancial entre "repressão" e "recalque", ambos traduzem o mesmo termo alemão Verdrängung (o mecanismo central de defesa do psiquismo). A aparente distinção surge quase exclusivamente da variabilidade nas traduções para o português, e não de uma oposição teórica no pensamento freudiano. Em alemão: Verdrängung, literalmente "empurrar para o lado", "desalojar" ou "afastar" algo incômodo, com conotação de sufocamento ou incômodo que leva o sujeito a "empurrar" para fora da consciência. Em inglês (Standard Edition, Strachey): repression (escolha que influenciou as primeiras traduções brasileiras via inglês). Em português: Recalque (preferido nas traduções mais recentes e diretas do alemão). Repressão (usado em traduções antigas, ou em contextos mais gerais). Às vezes recalcamento (variação menos comum, mas presente em alguns textos para enfatizar o aspecto de "construção" ou "fundação" do inconsciente). Freud usa Verdrängung de forma consistente ao longo de sua obra (especialmente nos textos metapsicológicos de 1915, como "O Recalque" / "Die Verdrängung" e "O Inconsciente"). Ele não faz distinção terminológica entre dois processos diferentes, o que varia é o tradutor, não Freud. Como os termos são sinônimos para o mesmo conceito, conteúdo reprimido e conteúdo recalcado significam exatamente a mesma coisa.

Essa tópica surge no contexto histórico da virada do século: Freud, influenciado por Charcot e Breuer, mas superando-os, usa a interpretação dos sonhos como "via régia" ao inconsciente, argumentando que o conteúdo latente (inconsciente) se disfarça no manifesto (pré-consciente/consciente) para burlar a censura. Até 1923, ela é aplicada em textos como "Além do princípio do prazer", 1920, onde Freud introduz a pulsão de morte, mas ainda dentro da topografia inicial. Clinicamente, a primeira tópica orienta a análise: o objetivo é tornar consciente o inconsciente, através da associação livre e da elaboração de resistências, liberando energia pulsional presa e aliviando sintomas.

No entanto, Freud reconhece limitações: a tópica é mais descritiva que estrutural, não explica bem o ego como instância ativa nem a angústia como sinal de perigo (o que leva à segunda tópica). Ainda assim, ela permanece fundamental, pois revela o psiquismo como campo de conflito, onde o inconsciente não é mero caos, mas uma fonte criativa e patogênica que molda a personalidade. Essa visão revolucionou a psicologia, filosofia e cultura, mostrando que o sujeito não é senhor em sua própria casa, o inconsciente governa, e a consciência é apenas um visitante temporário.

 

6- Segunda tópica do aparelho psíquico (id, ego, superego) 1923 em diante

 

O humano é um ser em conflito constante e isto se apresenta mesmo na formação de sua estrutura psíquica. Inicialmente somos todos “id”, ou seja, um polo pulsional desejante e cujo conteúdo se manifesta independente de convenções sociais sobre o que seja certo, errado ou socialmente permitido ou proibido, o que causa desgaste e conflitos internos ao indivíduo. A partir do id, se desenvolve o ego em contato com o mundo circundante. Enquanto o id é formado por pulsões/impulsos (Trieb), o ego mostra-se como resultante do contato destas pulsões com o mundo que rodeia o sujeito. Mediando ambos e a partir da introjeção do pai, que socialmente é o introdutor da lei, surge o superego. O superego é o “não devo”, “não posso”, “não quero”, barrando e adaptando o conteúdo proveniente do id em relação ao social. O sujeito é soma do ego, id e superego, sendo errado associar o “eu” ao “ego”, já que o “eu” da pessoa é mais amplo que o “ego”, somente uma de três hipotéticas instâncias psíquicas que compõem o sujeito.

A adoção da segunda tópica, formada por id, ego e superego (Ich, Es e Überich), não significou o abandono da primeira tópica, formada por inconsciente, pré-consciente e consciente, convivendo as duas nos escritos posteriores de Freud. A segunda tópica freudiana, introduzida principalmente em “O ego e o id”, 1923, e desenvolvida em obras subsequentes como “O problema econômico do masoquismo”, 1924, “Inibições, sintomas e angústia”, 1926, e as “Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise”, 1933, representa uma reformulação estrutural mais profunda do aparelho psíquico. Diferentemente da primeira tópica (inconsciente, pré-consciente e consciente), que era essencialmente topográfica e funcional, a segunda é estrutural: divide a mente em três instâncias ou “províncias” (id, ego e superego) que interagem dinamicamente como agências psíquicas com funções específicas, origens distintas e conflitos constantes. Essa mudança surge de necessidades clínicas e teóricas: Freud percebeu que a primeira tópica não explicava bem a resistência do ego, a angústia como sinal de perigo, nem a origem do sentimento moral e da culpa. Como médico pragmático, ele não abandonou o inconsciente dinâmico, mas o reorganizou em termos de forças ativas, herdadas biologicamente e moldadas pela experiência.

O id (das Es, em alemão; “o isso”, em português) é a instância mais primitiva e central do psiquismo. Freud o descreve como o “caldeirão de excitações”, o grande reservatório de pulsões onde se misturam as pulsões de vida (Eros, ligadas à sexualidade, conservação e união) e as pulsões de morte (Thanatos, ligadas à destruição, agressão e retorno ao inorgânico). Freud descreve o id como o "polo pulsional" do psiquismo (em "O ego e o id", ele o chama de "grande reservatório de libido", onde pulsões de vida/sexual [Eros] e de morte/destrutivas [Thanatos] se misturam caoticamente). O id é anterior à linguagem, à lógica e à realidade: rege-se exclusivamente pelo processo primário (condensação, deslocamento, ausência de lógica temporal, negação e contradição), busca satisfação imediata e absoluta (princípio do prazer absoluto), sem consideração pelo mundo externo. Sempre inconsciente em sua essência, "o id é o psíquico propriamente dito, desconhecido e inconsciente" (Freud, 1923).

O id em si é sempre inconsciente; seus conteúdos propriamente ditos (representações pulsionais puras) não acessam a consciência. No entanto, derivados do id (impulsos, desejos, afetos) podem migrar para o ego, tornando-se pré-conscientes ou conscientes, seja em sonhos, sintomas neuróticos, fantasias ou escolhas de vida. É exatamente essa passagem que gera neuroses quando o ego falha em mediar ou recalcar adequadamente esses conteúdos pulsionais. Cabe diferenciar o id propriamente dito (o polo pulsional, sempre inconsciente) dos conteúdos oriundos do id, que podem migrar para o pré-consciente e o consciente. Freud é explícito nisso: o id não é um "depósito selado", mas uma fonte dinâmica que "envia" representações pulsionais ao ego para processamento. Em "Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise", 1933, ele afirma que "partes do id podem se tornar pré-conscientes ou conscientes através do ego", especialmente via sonhos, sintomas ou associações livres, onde o conteúdo pulsional é "domesticado" pela linguagem e pela realidade. Por exemplo, um desejo sexual do id pode se manifestar como uma fantasia consciente ou uma neurose obsessiva (onde o ego luta para contê-lo), influenciando escolhas de vida, como parcerias amorosas regidas pelo complexo de Édipo ou repetições compulsivas ligadas à pulsão de morte. Como médico, Freud via isso clinicamente: neuroses surgem quando o ego falha em mediar esses conteúdos id-ílicos, levando a sintomas somáticos ou comportamentais (ex.: histeria de conversão, onde uma pulsão sexual recalcada se converte em paralisia). Isso não contradiz a inconsciência essencial do id; apenas mostra que seus derivados (representantes pulsionais) podem ser acessados e trabalhados na análise.

Como médico, Freud o concebe como uma herança biológica filogenética, ligada ao soma (corpo), impulsionando o organismo para a satisfação imediata sem mediação cultural ou racional. Podemos fazer uma analogia com a energia elétrica, imaginando o id como uma tomada na parede na qual podemos ligar diversos aparelhos elétricos. O id fornece a "corrente" pulsional bruta, sem forma ou direção, e a libido é o "combustível" (energia psíquica investida em objetos ou representações), mas o id em si não é consciente nem linguístico; é instintual, caótico e impessoal, como uma força natural.

Outra coisa importante a destacar é que a formação de Freud foi feita em Medicina e não em Filosofia. Filósofos geralmente são muito meticulosos e específicos com relação aos termos que usam, seus conceitos, significados, área de atuação e princípios lógicos, o que não é o caso aqui. Provavelmente um filósofo definiria o id somente como sendo um polo energético pulsional e que como tal jamais sairia do inconsciente, justamente por ser anterior a linguagem. Mas este não é o caso para Freud, que nos fala de conteúdos do id ocupando lugar no pré-consciente e no consciente. A preocupação de Freud aqui é eminentemente clínica, descritiva, pragmática, e não filosófica ou lógica. Como Freud era médico e não filósofo, o id não deve ser entendido como um abismo ontológico ou linguístico irrepresentável (como em algumas leituras francesas, especialmente lacanianas, onde o “ça” é o Real traumático fora da simbolização). Pelo contrário, é uma força biológica dinâmica, uma herança filogenética ligada ao soma (corpo), semelhante a uma “tomada de energia” bruta abastecida pela libido, uma energia pulsional quantitativa que impulsiona o organismo para a descarga.

Penso que uma leitura de Lacan e outros franceses pode ter interpretado mais filosoficamente alguns conceitos de Freud, em particular penso na segunda tópica. O problema ocorrer se entendo o "id" como polo pulsional anterior a linguagem, pois então este será sempre inconsciente e nada mais. Um filósofo poderia entender assim, mas Freud era médico. Nos textos de Freud temos conteúdo do "id" chegando ao pré-consciente e ao sistema consciente. Então, posso afirmar que o id enquanto polo pulsional, atua a semelhança da energia elétrica que abastece uma tomada na qual será ligado algum aparelho elétrico, só que neste caso, a tomada se encontra no grande reservatório das pulsões sexuais (libido) e destrutivas, da qual temos o id enquanto um polo pulsional sexual (prazer, sem linguagem, inconsciente). Mas, enquanto conteúdos oriundos do id, estes podem se tornar pré-conscientes e mesmo conscientes. Sendo inclusive motivo de neuroses e escolhas de vida da pessoa. Na metáfora por nós aqui utilizada, a energia elétrica provinda da tomada (Eros, Thanatos) permite fazer funcionar diversos e distintos aparelhos (sonhos, psicopatologia da vida cotidiana, chistes, escolha do parceiro afetivo-sexual, escolha da profissão e dos hobbies, desenvolvimento de neuroses e sintomas específicos, etc.), se bem que não veja a energia da tomada diretamente, vejo claramente todos os aparelhos que dela dependem para funcionar.

O id é o "motor biológico" inconsciente, fornecedor de energia pulsional via libido, mas seus conteúdos não ficam isolados, eles vazam, se transformam e impactam o consciente, gerando tanto sofrimento neurótico quanto criatividade vital. Temos leituras filosóficas como a de Lacan, que enfatizam o id como abismo linguístico irrepresentável, mas Freud, pragmático, o trata como uma força tratável na clínica.

O ego (das Ich, “o eu”) é a instância mediadora, nascida a partir do id, mas modificada pelo contato com a realidade externa. Freud o compara a um “cavaleiro sobre seu cavalo” (o id): fraco em energia própria, mas capaz de dirigir as forças pulsionais para fins adaptativos. O ego é regido pelo princípio da realidade: adia a satisfação, testa a realidade, considera consequências, usa linguagem e pensamento lógico (processo secundário). Ele surge do sistema percepção-consciência da primeira tópica e incorpora partes do pré-consciente. O ego é parcialmente consciente (o que vulgarmente chamamos de “eu”), mas também contém defesas inconscientes (recalque, negação, projeção etc.). Sua função principal é negociar entre as demandas do id (prazer imediato), as exigências externas (realidade) e as imposições morais do superego. Quando o ego é fraco ou sobrecarregado, surgem sintomas neuróticos; quando forte, permite sublimação e criatividade, onde encontramos a saída saudável deste dilema.

O superego (das Über-Ich, “o supra-eu”) é a terceira instância, formada pela internalização das figuras parentais e das normas culturais durante a resolução do complexo de Édipo (por volta dos 5-6 anos). Freud o descreve como o herdeiro do complexo de Édipo: o ego introjeta as proibições e ideais parentais, criando uma instância crítica interna que impõe moralidade, culpa e ideal de ego. O superego é em grande parte inconsciente e pode ser severo (gerando masoquismo moral, depressão melancólica) ou idealizado (narcisismo secundário). Ele representa a cultura dentro do indivíduo, mas também pode ser patogênico quando excessivamente punitivo. Freud nota que o superego herda traços agressivos do id, o que explica fenômenos como o sentimento de culpa irracional ou o masoquismo.

A interação entre as três instâncias é conflituosa: o id pressiona por descarga imediata, o ego media e adapta, o superego pune ou exalta. A angústia, revisada em 1926, deixa de ser apenas resultado de libido reprimida (primeira teoria) e passa a ser um sinal de perigo emitido pelo ego quando percebe ameaça do id, do superego ou da realidade externa. Essa segunda tópica permite uma compreensão mais integrada da personalidade: neuroses como conflitos entre ego, id e superego; melancolia como identificação com objeto perdido no superego; psicose como colapso do ego frente ao id.

Em síntese, a segunda tópica marca a maturidade da teoria freudiana: do médico que observava sintomas para o pensador que descreve a estrutura interna do sujeito como campo de forças biológicas, relacionais e culturais. Ela não é uma ruptura com a primeira tópica (o inconsciente dinâmico permanece), mas uma complementação estrutural que explica melhor a resistência, a culpa e a angústia. Embora leituras posteriores (como as lacanianas) tendam a filosofar o id como abismo linguístico, Freud mantém uma visão pragmática e clínica: o id é uma força pulsional biológica, seus conteúdos vazam e influenciam a vida consciente, e a análise visa fortalecer o ego para que ele possa mediar melhor esse conflito eterno.

“Wo Es war, soll Ich werden” (“Onde id era, ego deve advir”).

 

7- A interpretação de sonhos e sobre os sonhos

 

Nos sonhos e no trabalho terapêutico de os interpretar em busca de seu significado oculto, vinculado ao inconsciente na primeira tópica e a relação entre id, ego e superego na segunda tópica, temos dez pontos (de “a” à “j”) que se fazem presentes e cabe aqui explicar.

a- Associação livre (método de interpretar e decifrar sonhos)

A associação livre é o método psicanalítico por excelência. Por meio deste método se pode buscar a interpretação dos sonhos do paciente. Consiste em deixar o paciente narrar o seu sonho e depois divagar sobre os conteúdos do mesmo, falando aberta e livremente tudo que lhe vier à mente.

b- Conteúdo manifesto e latente

Quando o paciente narra o sonho para o terapeuta, esta narrativa é o conteúdo manifesto, que esconde o conteúdo latente. Semelhante a narrar um filme que vimos no cinema, no qual os personagens ali presentes escondem as verdadeiras histórias, dramas, dores e prazeres dos atores que os representam.

c- Elaboração onírica ou trabalho do sonho

É por meio da elaboração onírica ou trabalho do sonho que conteúdos provindos do inconsciente são mascarados e emaranhados a ponto de não serem facilmente inteligíveis para a pessoa que teve o sonho. Alguns temas podem ficar sobrepostos e vários temas vinculados aos desejos inconscientes podem estar presentes em uma única representação onírica.

d- Realização de um desejo

Segundo Freud, todo sonho é a realização de um desejo tido no inconsciente ou mesmo no sistema consciente-pré-consciente. Alguns desejos são óbvios, quando mais próximos do consciente, outros, provindos do inconsciente profundo, necessitam de um processo de análise e interpretação para serem devidamente compreendidos.

e- Guardião do sono

O sonho nos ajuda a dormir, permitindo incorporar sensações externas desagradáveis (calor, frio, picada de mosquito, sons, etc.) ao sonho e deste modo manter o sujeito dormindo.

f- Censura

Nem tudo que há nos sonhos deve chegar a consciência, pois, há interditos de toda espécie e certos conteúdos, mesmo se desejos, seriam por demais desagradáveis se deixassem de ser ocultos, daí a necessidade de uma censura, que, em alguns casos, pode inclusive levar o sujeito a acordar repentinamente se um conteúdo indesejado está prestes a se manifestar.

g- Condensação (metáfora)

Vários temas podem ser condensados em uma única representação, a semelhança da metáfora. Deste modo, uma mesma imagem pode ser interpretada corretamente como sendo várias coisas distintas.

h- Deslocamento (metonímia)

O processo de deslocamento faz com que a energia seja desviada de um ponto para outro e nos lembra nitidamente a metonímia. Posso me referir a parte para fazer alusão ao todo.

i- Procura do prazer ocasionada pela libido

A libido é o grande reservatório das pulsões sexuais, energia que comanda a nossa vida. Por meio desta energia buscamos constantemente o prazer na realização de desejos provindos do id em nossos sonhos. Claro que esta busca de prazer, associada ao princípio do prazer, esbarra por vezes no princípio de realidade, tendo de ser suspensa ou re-direcionada para outro móvel, evitando assim um desprazer maior.

j- Compulsão à repetição – Pulsões de morte

A partir do ano de 1920 Freud introduz a ideia de pulsões de morte ou auto-destrutivas, associadas a compulsão à repetição. Freud teoriza que já que toda a matéria orgânica foi originada da matéria inorgânica, haveria uma tendência inconsciente de retorno da matéria orgânica a matéria inorgânica original. O que explicaria comportamentos auto-destrutivos, como, por exemplo, o suicídio, ou mesmo, sonhos nos quais não se consegue por meio da análise descobrir qualquer significado associado ao prazer, as pulsões sexuais e de vida (Eros).

Os livros “A interpretação de sonhos” e “Sobre os sonhos” são duas obras complementares que representam o coração da descoberta freudiana do inconsciente e o marco inaugural da psicanálise como ciência autônoma. Elas surgem no contexto de uma virada decisiva na vida e na produção intelectual de Freud, entre o final do século XIX e o início do XX, quando ele abandona definitivamente a hipnose e a catarse em favor da associação livre, e coloca os sonhos como a “via régia” para o acesso ao inconsciente.

A obra “A Interpretação de Sonhos” (Die Traumdeutung, 1900) foi publicada em novembro de 1899, mas datada de 1900 pela editora, a fim de marcar o novo século. “A Interpretação de Sonhos” é considerada por Freud sua obra mais importante e original. O livro nasce de um período de intensa autoanálise desencadeada pela morte do pai, Jacob Freud, em 1896, e pela ruptura com Josef Breuer. Freud mergulhou em seus próprios sonhos, analisando-os sistematicamente, e percebeu que eles revelavam desejos inconscientes disfarçados. O contexto era de isolamento profissional: suas ideias sobre sexualidade infantil e histeria eram rejeitadas pela comunidade médica vienense, e ele se sentia sozinho em sua exploração do inconsciente. O livro reflete essa solidão criativa. Freud o escreveu em grande parte durante noites de insônia, fumando charutos, e o dedicou à memória do pai.

O conteúdo central pode ser resumido em três teses revolucionárias: 1- O sonho é a realização disfarçada de um desejo inconsciente. Freud inverte a visão comum de que os sonhos são aleatórios ou proféticos: para ele, todo sonho é uma tentativa de satisfação alucinatória de um desejo reprimido, especialmente sexual ou agressivo, que não pode ser realizado na vigília. 2- Distinção entre conteúdo manifesto e conteúdo latente. Conteúdo manifesto: o que o sonhador lembra ao acordar. A narrativa aparente, muitas vezes absurda ou fragmentada. Conteúdo latente: os pensamentos inconscientes verdadeiros, ocultos pela censura. A transformação do latente em manifesto ocorre pelo “trabalho do sonho” (Traumarbeit). 3- Mecanismo do trabalho do sonho. Freud descreve quatro processos principais: A- Condensação: fusão de várias ideias em uma única imagem. B- Deslocamento: transferência de afeto de uma representação importante para outra menos ameaçadora. C- Simbolização: uso de símbolos (muitos sexuais) para representar desejos proibidos. D- Elaboração secundária: organização racional do sonho para torná-lo coerente ao acordar.

O livro inclui centenas de sonhos (do próprio Freud e de seus pacientes), analisados em detalhes, e culmina na famosa frase: “A interpretação dos sonhos é a via régia para o conhecimento do inconsciente”. Clinicamente, Freud mostra que interpretar sonhos permite acessar desejos recalcados, conflitos edípicos e traumas, aliviando neuroses. A recepção inicial foi fria: vendeu apenas 351 cópias nos primeiros seis anos. No entanto, com o tempo, tornou-se um clássico, influenciando psicologia, literatura, arte e cinema.

O livro “Sobre os sonhos” (Über Träume, 1901) foi publicado em 1901 como um texto mais curto e acessível (cerca de 80 páginas). “Sobre os sonhos” é uma síntese didática das ideias de “A Interpretação de Sonhos”. Freud o escreveu para um público leigo, como parte da coleção “Grenzfragen des Nerven- und Seelenlebens” (Questões limítrofes da vida nervosa e anímica). O contexto era o desejo de popularizar suas descobertas após o fracasso comercial do livro maior. Ele queria demonstrar que a teoria dos sonhos não era especulativa, mas baseada em observação clínica e autoanálise. O editor de “A interpretação de sonhos” não gostou da iniciativa, já que este “resumo” da obra maior poderia impactar negativamente nas vendas da primeira obra.

O conteúdo de “Sobre os sonhos” é mais direto e pedagógico. Resume a tese central: o sonho como realização de desejo disfarçada. Explica os mecanismos de condensação, deslocamento, simbolização e censura de forma simplificada, com exemplos cotidianos. Enfatiza o papel do “guardião do sono” que distorce o desejo para permitir o sono (a censura) e incorpora elementos internos e externos ao indivíduo na elaboração do sonho. Aborda a realização de desejos infantis e a ligação com a sexualidade reprimida. Inclui breves menções à compulsão à repetição e à pulsão de morte (embora esses conceitos sejam desenvolvidos mais tarde, em 1920, Freud já os antecipa em reflexões sobre sonhos traumáticos).

O livro “Sobre os sonhos” funciona como uma “introdução amigável” ao universo freudiano: mais leve que o livro de 1900, mas fiel às ideias centrais. É uma ponte perfeita para leitores iniciantes, e Freud o usa para reforçar que os sonhos não são aleatórios, mas revelam o inconsciente de forma estruturada.

Ambas obras surgem no momento em que Freud consolida a psicanálise como método: após o abandono da hipnose (por volta de 1896-1899) e a adoção da associação livre. Elas marcam o abandono definitivo da neurologia especulativa (como no “Projeto”, de 1895) em favor de uma psicologia do inconsciente dinâmico. Juntas, estabelecem os pilares da teoria freudiana: a- O inconsciente é ativo e intencional. b- O desejo (especialmente sexual) é o motor do psiquismo. c- A censura e o disfarce protegem o sono e a consciência. d- A análise pode tornar consciente o inconsciente. Essas obras não são apenas teóricas: elas mudaram a forma como o Ocidente entende a mente, influenciando desde a literatura modernista (no estilo de Joyce e Kafka) até a terapia contemporânea. Para Freud, os sonhos eram a prova irrefutável de que o sujeito não é senhor em sua própria casa, pois, o inconsciente governa, e a interpretação revela suas leis ocultas.

 

8- Parapraxias, atos falhos – A psicopatologia da vida cotidiana (1901)

 

Freud entende que os esquecimentos corriqueiros, quando não lembramos um nome bem conhecido, ou um lugar que visitamos, ou algo que deveríamos fazer agora, etc. são manifestações de nosso inconsciente. Mas isto não ocorre somente com lapsos de linguagem e sim com diversos outros atos falhos ou mesmo comportamentos tidos inicialmente como inocentes. Freud narra um encontro entre ele e um casal em um restaurante, sem ser notado ao chegar no restaurante, notou que o casal já ocupava a mesa e que o homem havia colocado seu sobretudo na cadeira em que Freud deveria sentar. Freud entendeu que por seu lugar estar ocupado, sua presença naquele momento não era bem vinda e este se retirou do estabelecimento sem se encontrar com o casal.

Nada acontece por acaso no tocante ao nosso comportamento. Tudo o que fazemos é rigidamente determinado por mecanismos inconscientes que atuam em nosso psiquismo, desde a escolha da profissão, do par amoroso-sexual, dos amigos e inimigos, das escolhas mais importantes e também das mais corriqueiras em nossa vida o inconsciente está atuando sempre. Quando intencionamos fazer algo conscientemente e fazemos algo outro “sem o querer”, em verdade, isto que fizemos foi determinado por mecanismos inconscientes, pelas pulsões provindas do id e pela atuação dos mecanismos de defesa que nos impedem de ter acesso a conteúdo que seriam inaceitáveis em nossa vida consciente.

O livro “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” (Zur Psychopathologie des Alltagslebens), publicado em 1901 (com edições ampliadas nos anos seguintes), é uma das obras mais acessíveis e populares de Sigmund Freud. Ela surge logo após “A Interpretação de Sonhos”, 1900, e representa uma aplicação brilhante da teoria do inconsciente à vida normal, cotidiana, mostrando que o inconsciente não se manifesta apenas em neuroses graves ou sonhos, mas em falhas aparentemente triviais do dia a dia. Freud cunha o termo parapraxias (ou “atos falhos”; Fehlleistungen em alemão) para descrever esses lapsos que, longe de serem erros aleatórios, revelam desejos, conflitos ou intenções inconscientes. O livro foi escrito em um momento de consolidação teórica: Freud já havia abandonado a hipnose, a catarse com indução hipnótica e a técnica de pressão sobre a testa, adotando como método a associação livre e começava a ver o inconsciente como uma força ativa em todos os indivíduos, não só nos neuróticos.

Freud escreveu “A psicopatologia da vida cotidiana” em um período de relativa estabilidade pessoal, após o sucesso inicial de suas ideias entre um pequeno círculo de discípulos (como Wilhelm Fliess e os primeiros membros da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras). O livro nasceu de observações acumuladas em sua prática clínica com seus pacientes neuróticos e em sua própria vida, já que Freud era um observador incansável de seus lapsos, esquecimentos, erros, enfim, atos falhos em geral. Ele o publicou em uma coleção popular, visando demonstrar que a Psicanálise não era uma teoria esotérica reservada a doentes mentais, mas uma chave para entender o funcionamento mental de qualquer pessoa. A obra, ao contrário do que ocorrera com “A interpretação de sonhos”, vendeu bem e contribuiu muito para a difusão inicial da Psicanálise, pois seus exemplos eram divertidos, relacionáveis e baseados em situações comuns que as pessoas viviam corriqueiramente.

As parapraxias, ou atos falhos, são entendidas por Freud como sendo janelas para o inconsciente, que nos permitem vislumbrar o conteúdo escondido de nós mesmos, mas que se faz constantemente presente em nossas vidas diárias. Freud argumenta que os atos falhos não são meros acidentes, mas “formações de compromisso” entre um impulso inconsciente e a intenção consciente. Quando o desejo reprimido é forte o suficiente para romper a censura, ele se expressa em um lapso que parece inocente, mas carrega um significado oculto.

Os principais tipos de parapraxias analisados no livro incluem os esquecimentos comuns, os lapsos verbais, os erros de leitura e escrita, gestos ou comportamentos, perdas ou extravios.

Esquecimentos (Vergessen): Freud mostra que esquecemos nomes, compromissos ou objetos exatamente quando há uma associação desagradável ou conflituosa. Exemplo clássico: o esquecimento do nome de um pintor (Signorelli) durante uma conversa sobre a morte e a sexualidade. O nome reprimido era ligado a “Herr” (senhor) e “Tod” (morte), revelando angústia diante da finitude e da castração.

Lapsos verbais (Versprechen): Palavras trocadas, frases ditas de modo errado ou trocadilhos involuntários. Freud coleta centenas de exemplos, como alguém que diz “Eu o odeio” em vez de “Eu o amo”, revelando hostilidade inconsciente. Outro clássico: “Eu não consigo pensar em nada” (em vez de “Eu consigo pensar em tudo”), mostrando resistência à associação livre.

Erros de leitura e escrita (Lesen und Schreiben Fehlleistungen): Ler errado uma palavra (ex.: “preço” em vez de “prazo”) ou escrever algo que trai um desejo (ex.: assinar com o nome de uma ex-namorada).

Ações sintomáticas (symptomatische Handlungen): Gestos ou comportamentos automáticos que traem intenções ocultas, como jogar fora um objeto importante ou tocar repetidamente um anel de casamento durante uma conversa sobre fidelidade.

Perdas e extravios (Verlieren und Verlegen): Perder chaves, óculos ou presentes justamente quando há conflito emocional associado ao objeto.

Freud explica esses fenômenos pelo mesmo mecanismo dos sonhos: o inconsciente aproveita um momento de enfraquecimento da atenção consciente para “escapar” e realizar um desejo disfarçado. O ato falho é, assim, uma realização parcial de desejo, o sujeito diz ou faz algo que queria, mas que a censura impede na forma direta.

Esta obra e conceito é de suma importância clínica e teórica dentro do arcabouço da Psicanálise, pois, revela a atuação constante do inconsciente em nossa vida diária. A obra “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” é revolucionária porque democratiza o inconsciente: ele não é exclusividade de doentes mentais, mas opera em todos nós, na vida cotidiana. Isso reforça a tese central da Psicanálise que afirma que o sujeito não é senhor em sua própria casa, e mostra que o normal e o patológico estão em continuidade. Clinicamente, os atos falhos servem como material inicial para a análise: o paciente ri de um lapso, mas ao associar livremente, revela desejos recalcados, conflitos edípicos ou agressividade reprimida.

O livro também antecipa temas posteriores: a libido como energia que investe objetos e representações (perda de um objeto pode simbolizar perda afetiva), e o papel do prazer na liberação de tensões psíquicas. Ele prepara o terreno para obras como “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, 1905, onde Freud explora o prazer no ato falho como liberação controlada. Veremos mais a frente como os chistes (brincadeiras, ditos humorísticos ou mesmo algo cômico como uma piada) expressam, também, conteúdo reprimido presente em nosso inconsciente e fruto de desejos por vezes inconfessáveis até mesmo para a própria pessoa que os possui.

Em resumo, “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” é uma obra leve, divertida e profunda: prova que o inconsciente está sempre presente, infiltrando-se nas pequenas falhas do dia a dia. Para Freud, esses “erros” são revelações preciosas, testemunhos de que, mesmo na rotina mais banal, o desejo inconsciente busca expressão, e a Psicanálise pode decifrá-lo. É um texto que continua atual, pois todos nós cometemos atos falhos, e neles podemos ver, com um sorriso crítico, o inconsciente em ação. Em verdade, podemos mesmo dizer tratar-se de uma prova cabal da validade dos construtos teóricos psicanalíticos no tocante ao inconsciente, desejo, censura, e outros mais.

 

9- Os chistes – piadas, brincadeiras – e o inconsciente (1905)

 

Pense naqueles momentos em que diante de uma dada situação somos levados a rir, sim, o humor é algo importante e nos faz sentir bem, mas há algo mais profundo nisto e Freud buscou entender e explicar tudo isto. Piadas, brincadeiras, ditos bem humorados, enfim, tudo que pode levar a uma situação cômica que nos faz rir e sentirmo-nos bem tem a ver com uma descarga de energia em nosso aparelho psíquico, onde momentaneamente conteúdos reprimidos vestem roupas e disfarces que os permitem de modo encoberto virem a luz da consciência. Como é comum ser dito, “por trás de cada brincadeira há um fundo de verdade”, e Freud nos explica o quanto esta afirmação é de fato verdadeira.

O livro “Os chistes e sua relação com o inconsciente” (Der Witz und seine Beziehung zum Unbewussten), publicado em 1905, é uma das obras mais originais e divertidas de Sigmund Freud. Ela surge no auge de sua produtividade teórica, logo após “A interpretação de sonhos”, 1900, e “A psicopatologia da vida cotidiana”, 1901, e antes de “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, 1905. Nesse período, Freud já consolidava a ideia de que o inconsciente se manifesta em diversas formações da vida psíquica cotidiana, e o chiste (a piada, a brincadeira, o trocadilho, o gracejo) se revelou para ele um campo privilegiado de estudo. O livro não é apenas uma análise do humor; é uma extensão da teoria do inconsciente para o prazer estético e social, mostrando como o riso libera energia psíquica reprimida.

Freud escreveu “Os chistes” em um momento de relativa confiança intelectual. Ele já contava com um pequeno círculo de discípulos, como Otto Rank (1884-1939) e Wilhelm Stekel (1868-1940), e começava a perceber que suas ideias encontravam eco além da medicina vienense. O livro nasceu de observações pessoais e coletivas: Freud era conhecido por seu senso de humor mordaz, colecionava anedotas e trocadilhos, e analisava piadas contadas por pacientes ou amigos. Ele percebeu paralelos estruturais entre o chiste, o sonho e o ato falho: todos envolvem o inconsciente “escorregando” para a consciência de forma prazerosa, burlando a censura. O texto foi escrito em paralelo a obra “Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade”, e Freud o considerava uma “obra paralela” que aplicava a mesma economia psíquica (economia de energia) a um fenômeno aparentemente inofensivo.

O conteúdo principal desta obra se encontra justamente no chiste como liberação de prazer provindo de material inconsciente vinculado a desejos reprimidos. Freud divide o chiste em três categorias principais, cada uma revelando um mecanismo diferente de acesso ao inconsciente: o inocente, o tendencioso e o espirituoso.

 1- Chiste inocente (ou de brincadeira): São piadas puramente verbais ou lúdicas, sem conteúdo sexual ou hostil. Elas produzem prazer pela técnica (jogo de palavras, absurdo, condensação). Freud explica que o prazer vem da “economia psíquica”: o pré-consciente gasta menos energia ao condensar ideias complexas em uma forma simples e surpreendente. O riso surge da liberação súbita dessa energia poupada.

2- Chiste tendencioso: Aqui o chiste tem propósito, que é atacar, seduzir ou criticar. Freud identifica três tipos principais: hostil, cínico e obsceno. a- Hostil (agressivo): piadas que ridicularizam alguém ou um grupo (ex.: judeus, autoridades). O riso libera hostilidade reprimida. b- Cínico (contra normas morais): ataca instituições como casamento, religião ou moral sexual. c- Obsceno (sexual): libera desejo sexual reprimido através de insinuações ou trocadilhos eróticos.

3- Chiste de espírito (Witz proper): O mais sofisticado, combina técnica verbal com tendência. Freud enfatiza que o prazer do chiste obsceno ou hostil vem da “liberação de inibição”: a censura (a partir da segunda tópica teremos aqui o superego) é momentaneamente ludibriada pela técnica engenhosa, permitindo que o desejo reprimido se expresse de forma aceitável. O ouvinte ri porque “entende” o sentido oculto sem se sentir culpado, deste modo camuflado o chiste realiza o desejo de uma forma indireta, mas eficaz.

Existem mecanismos que são comuns tanto aos sonhos, como a psicopatologia da vida cotidiana e também com relação aos chistes e seu mecanismo de expressão e Freud estabelece alguns paralelos bem claros neste tocante. Aqui podemos falar na condensação (metáfora), no deslocamento (metonímia), no trabalho realizado (pelos sonhos, e na fabricação dos chistes), na liberação de energia libidinal, etc. Vejamos alguns destes paralelos comuns para ficar mais claro e compreensível esta nossa exposição.

Condensação e deslocamento: o chiste condensa múltiplos sentidos em uma palavra ou frase curta (trocadilho), desloca o afeto de um tema perigoso para outro neutro.

Trabalho do chiste (Witzarbeit): semelhante ao trabalho do sonho, distorce o conteúdo latente para burlar a censura.

Liberação de energia: no sonho, a energia é liberada no sono; no chiste, no riso. Ambos evitam desprazer e produzem prazer ao poupar gasto de energia psíquica.

Freud por fim conclui que o chiste é uma “formação de compromisso” semelhante ao sintoma neurótico ou ao sonho: permite ao inconsciente se expressar sem violar as normas sociais e os limites autoimpostos pela sua psique (mais tarde teremos aqui o superego). O riso é a recompensa pela descarga de tensão psíquica.

Temos de falar também sobre a grande importância clínica e cultural dos chistes. Clinicamente, Freud usa o chiste para ilustrar como o inconsciente opera em situações sociais leves: uma piada “inocente” pode revelar hostilidade latente, desejo sexual ou conflito edípico. Ele observa que pacientes frequentemente contam piadas que, analisadas, levam a material reprimido. Culturalmente, o livro antecipa teorias modernas do humor (Henri Bergson, 1859-1941; Mikhail Bakhtin, 1895-1975) e mostra que o riso é uma válvula de escape para o reprimido. Freud também reflete sobre o humor judaico, ele próprio judeu, colecionava anedotas antissemitas que viravam contra si mesmas, revelando autocrítica e defesa.

Esta obra, “Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente”, é um livro genial que demonstra que: o inconsciente não deve ser entendido apenas como um lugar sombrio ou patológico; o inconsciente também brinca, ri e se diverte. Freud prova que o prazer do humor vem da mesma fonte que o prazer do sonho ou do ato falho, que é a liberação de energia sexual reprimida. Freud nos deixa claro nesta obra que, mesmo nas piadas mais leves, o desejo inconsciente busca expressão e que a sexualidade se faz presente sempre. É um texto que convida o leitor a rir de si mesmo e, ao rir, a se conhecer melhor e reconhecer o quanto somos de fato dominados por forças das quais em nada temos consciência, vinculadas a esferas mais profundas de nossa psique e associadas a pulsões sexuais reprimidas.

 

10- Sexualidade e romance familiar - Teoria da libido – sexualidade

Teoria da sexualidade infantil e o complexo de Édipo: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905).

 

Todas as pessoas desde o nascimento passam por cinco fases sexuais: oral, anal, fálica, latência e genital.

A fase oral se apresenta no primeiro ano de vida e nela todo o prazer é proveniente da boca. É pela boca que a criança tem contato com o mundo externo e é pela boca que a criança se alimenta ao sugar o leite materno.

Por volta dos dois, três anos temos a fase anal, na qual a criança passa por um processo de aprendizagem visando controlar os músculos dos esfíncteres. Este controle pode ser ampliado para o controle dos adultos que cercam a criança com suas preocupações, gerando prazer na criança.

Em sequência temos a fase fálica que ocorre por volta dos três aos cinco anos de idade. Nesta fase a criança masculina descobre seu pênis e temos o começo da masturbação infantil. A fase fálica somente surge nos escritos de Freud a partir do ano de 1923 (na verdade, o conceito já aparece em textos de 1913-1915, como “Totem e Tabu”, “Sobre o narcisismo”, mas ganha destaque maior em 1923 com a segunda tópica e uma formulação mais clara e explícita).

Com receio da castração, tem início o período de latência, que vai dos seis anos de idade até a puberdade, na qual as manifestações sexuais tendem a sumir.

Na adolescência temos o início da fase genital, começo da vida sexual adulta.

 

** Fases e idade aproximada

1- Fase oral – Primeiro ano de vida

2- Fase anal – 2 / 3 anos de idade

3- Fase fálica (surge no ano de 1923) – 3 / 5 anos de idade

4- Fase de latência – 6 anos de idade até a puberdade

5- Fase genital – Tem início na puberdade, marcando o começo da adolescência e prosseguindo no transcorrer da vida adulta do sujeito.

 

Precisamos ficar atentos que as fases sexuais ocorrem na infância (zero a cinco anos de idade), passando pela latência até a fase genital que é o começo da vida adulta do indivíduo. No entanto, se ocorrer algum comprometimento em alguma destas fases o sujeito poderá desenvolver uma personalidade doentia ou com fortes traços marcantes e característicos em sua origem da fase sexual na qual ocorreu o comprometimento. Esta estrutura de personalidade com traços fortes em uma dada direção ou mesmo uma estrutura doentia será chamada de caráter. Deste modo, se ocorrer um comprometimento na fase oral, teremos um adulto com um caráter oral, se ocorrer na fase anal, teremos um adulto com caráter anal.

A elaboração do complexo de Édipo é bem interessante e fundamental à Psicanálise. O termo “complexo” provém de Jung e não de Freud. Jung utilizou o termo “complexo de Édipo” para os meninos e “complexo de Electra” para as meninas. No entanto, Freud não gostava deste termo, pois, na sua visão, tendia a igualar os processos ocorridos em ambos os sexos e Freud os entendia como muito distintos. Freud dava preferência somente ao termo “Édipo”, para retratar o processo ocorrido nos meninos durante seus primeiros seis anos de vida. O menino inicialmente se sente atraído pela mãe, por quem nutre seus desejos oriundos do id e o pai é visto como um rival em relação aos amores da mãe. Isto perpassa as fases do desenvolvimento psicossexual intituladas: oral, anal e fálica. Ao chegar a fase fálica, o menino manipula seus genitais em busca de prazer e é repreendido pelos adultos, podendo receber o aviso / ameaça, de que se continuar a tocar em seu pênis este será cortado (castração) o que não será levado a sério pelo menino até este se confrontar com uma menina e constatar que esta fora castrada, já que não possui o pênis. Com o terror da castração, temos o final da fase fálica e o início da latência. Ora, é neste processo de desejar a mãe e querer o afastamento do pai, visto como seu rival, que encontramos o Édipo, numa referência a peça de Sófocles, “Édipo rei”. Já que nesta peça de teatro grego, um drama, o personagem principal, Édipo, sem o saber de início, mata o pai e casa com a mãe. Homens adultos podem levar para suas vidas este processo mal resolvido, estando suas escolhas e problemas emocionais vinculados aos seis primeiros anos de sua vida e ao desenvolvimento e resolução do Édipo.

 Os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie), publicados em 1905, constituem uma das obras mais revolucionárias e controversas de Sigmund Freud. Eles surgem no mesmo ano de “Os chistes e sua relação com o inconsciente” e marcam o ápice da fase inicial da Psicanálise, quando Freud já havia estabelecido o inconsciente como dinâmico, mas ainda precisava explicar o motor principal do psiquismo: a sexualidade. O livro é uma tentativa sistemática de reformular a teoria da libido, deslocando a sexualidade do lugar periférico (ou patológico) que ocupava na medicina da época para o centro da vida psíquica humana, desde a mais tenra infância.

Freud escreveu o livro “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” em um período de intensa produtividade teórica, mas também de isolamento e resistência externa. Suas ideias sobre histeria e sonhos já eram mal vistas pela comunidade médica vienense, e a ênfase na sexualidade infantil gerou escândalo imediato. O contexto era o de uma sociedade vitoriana tardia, onde a infância era vista como assexuada e inocente, e a sexualidade adulta como reprodutiva e moralmente regulada. Freud, influenciado por suas análises clínicas de pacientes histéricos e pela autoanálise, percebeu que muitos sintomas neuróticos remontavam a desejos e traumas sexuais da infância. O livro foi ampliado em edições posteriores (até 1924), com Freud adicionando notas e revisões que refletem a evolução de sua teoria.

A estrutura e conteúdo do livro “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” nos apresenta três segmentos altamente polêmicos para a época. O livro, dividido em três partes principais, cada uma revolucionária por si só, a saber: as perversões sexuais; a sexualidade infantil; as transformações da puberdade.

1- As perversões sexuais é o primeiro item analisado nesta obra. Nesta parte Freud começa desnaturalizando a noção de “perversão” como doença ou anomalia. Ele mostra que comportamentos considerados “anormais” (homossexualidade, fetichismo, sadismo, masoquismo, voyeurismo, exibicionismo) são expressões de pulsões parciais que existem em todos os indivíduos. A sexualidade adulta “normal” (genital e heterossexual) é apenas uma organização tardia dessas pulsões. Isso derruba a dicotomia normal/patológico: a perversão é uma fixação em uma fase ou pulsão infantil, não uma aberração inata.

2- A sexualidade infantil vem em sequência, esta é a parte mais explosiva. Freud afirma que a sexualidade não começa na puberdade, mas na infância, e que a criança é “polimorficamente perversa”: experimenta prazer em zonas erógenas diversas (oral, anal, fálica), sem objeto fixo. Ele descreve as fases do desenvolvimento libidinal:

Fase oral (prazer na sucção e alimentação).

Fase anal (prazer na retenção/expulsão das fezes).

Fase fálica (descoberta do pênis/clitóris e masturbação infantil, medo levando ao complexo de castração e final desta fase).

Fase de latência (repressão parcial da sexualidade).

Fase genital (puberdade, organização adulta, manifestação do caráter oral ou anal se houver algum comprometimento nestas fases).

A libido (energia sexual) é móvel e investe nessas zonas sucessivamente; fixações ou regressões levam a neuroses.

Ora, estas fases levam até a fase genital com as transformações da puberdade e início da adolescência. Na puberdade, a libido deveria teoricamente se reorganizar em direção ao objeto heterossexual e genital, mas carrega as marcas das fases anteriores. Freud introduz aqui o conceito de que a sexualidade adulta é o resultado de uma história conflituosa, marcada por recalques e sublimações. Comportamentos homossexuais ou qualquer perversão sexual são oriundos do modo como o sujeito vivenciou seus primeiros cinco anos de vida e o desenvolvimento das fases oral, anal e fálica. É neste momento em que o sujeito vivencia também o que Freud chamava de Édipo e romance familiar.

O complexo de Édipo e o romance familiar estão, segundo o pensamento de Freud, presentes não somente em nossa civilização ocidental, mas são universais e se fazem presentes em qualquer comunidade humana e em qualquer tempo histórico.

Embora o complexo de Édipo seja mencionado explicitamente apenas em edições posteriores (especialmente a partir de 1910), sua semente está já presente no livro “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, especialmente na fase fálica e no complexo de castração. Freud descreve o menino que deseja a mãe, vê o pai como rival e teme a castração; a menina passa por um caminho mais complexo (inveja do pênis, virada para o pai). O Édipo é o ponto de inflexão: a criança abandona o desejo incestuoso, internaliza a proibição parental e forma o superego. O “romance familiar” (Familienroman), mencionado em textos contemporâneos (1909), complementa isso: a criança fantasia origens nobres ou substitui os pais reais por figuras idealizadas para lidar com a decepção edípica.

A teoria da libido surge a partir deste contexto e deste emaranhado de pulsões, repressão e censura, dentre outros elementos que atuam na psique individual e na sociedade humana. A libido é a energia psíquica derivada da pulsão sexual (Trieb, não Instinkt. Freud distingue pulsão dinâmica de instinto biológico fixo). Ela é quantitativa, móvel, investe em objetos (libido objetal) ou no ego (narcisismo, desenvolvido em 1914). A sexualidade não é apenas reprodutiva; é o motor do prazer, do desejo e do conflito psíquico. Neuroses surgem quando a libido é fixada ou reprimida em fases infantis.

Tudo isto discutido aqui é muito importante tanto para o sujeito em sua individualidade quanto também para a cultura e o desenvolvimento social, no entanto, continua ainda hoje sujeito a controvérsias e polêmicas diversas e por vezes ásperas. A obra “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” chocou o mundo e a ideia de sexualidade infantil foi vista como escandalosa, imoral e perigosa. Freud perdeu pacientes e colegas, mas ganhou adeptos radicais. A obra é um marco na teoria psicanalítica enquanto teoria dos desejos humanos, mesmo que ocultos ou negados pela consciência e a sociedade, mostrando que a infância é totalmente sexualizada e muito conflituosa, e que a maturidade é um compromisso por vezes bem precário. Esta obra influenciou a psicologia do desenvolvimento, a pedagogia, a literatura e a crítica cultural.

Em síntese, a obra “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” transforma a sexualidade de instinto biológico em pulsão (Trieb) psíquica central, revela a infância como palco de desejos intensos e introduz o Édipo como estrutura fundante da personalidade. Freud, médico pragmático, baseia tudo em observação clínica: a sexualidade não é opcional nem tardia; ela é o que nos constitui, nos dá prazer e nos faz sofrer e, quando analisada, pode nos libertar apontando o caminho para rumos antes não imaginados ou aceitos consciente e socialmente.

A história de Édipo, que Freud utilizou para ilustrar o conflito central da sexualidade infantil, deriva da trilogia trágica do dramaturgo grego Sófocles (c. 496–406 a.C.), escrita durante o século V a.C., no auge da Grécia Clássica, na Era de Péricles, em Atenas. Essas peças eram apresentadas nos concursos teatrais do Festival de Dionísio (Dionísias Urbanas), um evento anual religioso e cívico em honra ao deus Dionísio, onde autores competiam com trilogias trágicas seguidas de uma sátira. Os espetáculos ocorriam em teatros a céu aberto, como o de Dionísio em Atenas, com atores exclusivamente masculinos usando máscaras para representar múltiplos papéis (incluindo femininos), acompanhados por um coro que comentava a ação e um flautista para a música. A primeira peça da trilogia, Édipo Rei (escrita por volta de 429 a.C., durante a Guerra do Peloponeso e uma peste em Atenas, que ecoa no enredo), inicia o ciclo; seguida por Édipo em Colono (401 a.C.) e Antígona (c. 441 a.C., cronologicamente a terceira e última peça de uma sequência de três tratando de Édipo, ciclo tebano, embora tenha sido a primeira a ser escrita, cronologicamente é a última na trama).

Na narrativa de Édipo Rei, o rei Laio de Tebas recebe uma profecia do oráculo de Delfos de que seu filho o mataria (parricídio) e desposaria a mãe. Para evitar o destino, Laio e sua esposa Jocasta mandam abandonar o bebê recém-nascido com os pés perfurados e amarrados (para que morresse exposto), mas o servo encarregado tem pena e entrega a criança a um pastor, que a leva para Corinto, onde é adotada pelo rei Pólibo e sua esposa Mérope, que o criam como filho. O nome "Édipo" deriva do grego oidéō (inchar) e poús (pé), referindo-se aos pés inchados pela amarração. Quando adulto, Édipo consulta o oráculo de Delfos e ouve a mesma profecia: “matará o pai e casará com a mãe”. Horrorizado, ele foge de Corinto (pensando que Pólibo e Mérope são seus pais biológicos verdadeiros, e não somente adotivos) para evitar o destino. No caminho, em uma encruzilhada, encontra Laio (sem saber que é seu pai biológico), discute com ele por causa de uma carruagem. Laio é arrogante, e na briga Édipo o mata em uma luta com espadas, deixando o corpo na estrada. Chegando a Tebas (sua cidade natal, mas desconhecida para ele), Édipo se voluntaria para enfrentar a Esfinge, uma criatura monstruosa que atormentava os andarilhos próximos a cidade. A Esfinge sempre apresentava um enigma e ameaçava comer a pessoa se esta errasse a resposta.

Édipo encontra a esfinge nas imediações da cidade e esta o desafia com um enigma: "O que anda com quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?". Ele responde corretamente "o homem" (criança engatinhando, adulto em duas pernas, idoso com bengala – Aqui, “homem” no sentido de “humano”, incluindo homens e mulheres), fazendo a Esfinge se suicidar. Como recompensa, os tebanos o coroam rei e o casam com a rainha viúva Jocasta (sua mãe biológica). Anos depois, uma peste assola Tebas, e Édipo consulta o oráculo de Delfos, descobrindo que a calamidade é punição pelo assassinato impune de Laio e pelo incesto. Édipo se propõe a matar o responsável, mas eis que descobre investigando que é ele a a pessoa que procura. Quem diz diretamente a Édipo que ele é o criminoso responsável pelas desgraças é o profeta cego Tirésias, pressionado pelo próprio rei Édipo. Deste modo fica ciente da verdade: é o assassino do pai e marido da mãe. Horrorizado, Jocasta se suicida, e Édipo fura os próprios olhos com os broches dela, exilando-se como punição. As peças subsequentes exploram seu exílio (Édipo em Colono) e o destino de seus filhos (Antígona).

Freud preferia referir-se simplesmente ao “Édipo” para evitar o termo “complexo”, introduzido por Jung, mas a tradição psicanalítica consagrou “complexo de Édipo” para descrever o conflito universal da infância: o desejo pela mãe, a rivalidade com o pai, o medo da castração, a cegueira (furar os olhos) para não ver a verdade e a resolução pela identificação com o pai nos meninos, formando a base da personalidade e das neuroses adultas. Esse mito, com sua inevitabilidade trágica, ilustra para Freud como a sexualidade infantil molda o destino humano, mesmo quando se tenta fugir ou atuar para evitar. Um detalhe não explorado por Freud é que o filicídio antecede o parricídio, podendo, inclusive, dar margem a elaboração de uma crítica a sua concepção teórica.

 

11- Homossexualidade no contexto psicanalítico

 

A homossexualidade masculina e feminina foi alvo das especulações de Freud, bem como, de outros psicanalistas no transcorrer da história da Psicanálise. Freud entendia que aqui era importante destacar a sexualidade infantil dos primeiros cinco anos completos de vida da pessoa, com suas respectivas fases sexuais e o desfecho do complexo de Édipo. Ora, se tudo corre bem, o menino após passar pelas fases oral, anal e fálica, diante da masturbação infantil e do medo da castração, irá se identificar com o genitor do mesmo sexo e se afastar da mãe, sendo este um desfecho exitoso do Édipo, no entanto, se as coisas não correrem como deveriam, então este menino continuará se identificando com a mãe e não com o pai, sendo esta uma das causas do homossexualismo masculino. Temos também de pensar no narcisismo, pois, quando o adulto escolhe alguém do mesmo sexo para se relacionar, é como se este estivesse diante de um espelho escolhendo a si-mesmo e mostrando seu autoerotismo. Também temos na primeira infância a presença de uma mãe forte e dominadora, vista pela criança como “castradora” e de um pai percebido como “fraco ou homossexual”, levando ao desenvolvimento da homossexualidade na vida adulta.

A homossexualidade, no pensamento de Sigmund Freud, não é tratada como uma patologia inata ou uma aberração moral, mas como uma variação do desenvolvimento libidinal que surge de conflitos e fixações durante a sexualidade infantil. Freud discute o tema em vários textos, especialmente em "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", 1905, "Sobre o narcisismo: uma introdução", 1914, "O pequeno Hans", 1909, "O homem dos lobos", 1918, e "Uma criança é espancada", 1919, sempre ancorando sua análise na teoria da libido e no complexo de Édipo. Ele via a sexualidade humana como constitucionalmente bissexual (todo indivíduo tem tendências homossexuais latentes), mas enfatizava que a manifestação adulta da homossexualidade depende de experiências infantis, recalques e identificações. Freud diferenciava a homossexualidade masculina da feminina, considerando-as assimétricas devido ao papel central do complexo de castração na fase fálica. Seu enfoque era médico e clínico, baseado em casos observados, não filosófico ou normativo, embora suas visões reflitam o contexto vitoriano e tenham sido criticadas por heteronormatividade em contextos ideológicos contemporâneos que exploram o politicamente correto, ele defendia que a homossexualidade não é curável nem necessariamente patológica, mas pode gerar sofrimento se conflituosa.

Vamos primeiramente para a diferença entre homossexualidade masculina e feminina no pensamento desenvolvido por Freud dentro do contexto da teoria psicanalítica. Freud postulava uma assimetria de gênero na sexualidade devido à anatomia e ao complexo de castração. Afinal, meninos possuem pênis e meninas, não. Para o menino, a homossexualidade surge frequentemente como regressão ou fixação na identificação materna: durante a fase fálica (3-5 anos), ele teme a castração pelo pai (como punição pelo desejo edípico pela mãe), levando-o a renunciar à mãe e identificar-se com o pai para resolver o Édipo. Se isso falha, o menino pode manter a identificação com a mãe, buscando objetos homossexuais como substitutos narcísicos ou para evitar a castração. Pode ocorrer de o menino ver o pai como sendo fraco, ausente ou mesmo percebido como homossexual, como também pode ocorrer de simultaneamente este menino ver a mãe como sendo forte, dominante e "castradora" (fálica, dominante).

Na homossexualidade feminina, Freud via uma trajetória mais complexa: a menina, ao descobrir a "ausência" do pênis (resultando na inveja do pênis), muda seu objeto, saindo do amor materno para o pai, desejando um filho como substituto do pênis. Se essa virada falha (por rejeição à castração ou fixação na mãe), ela pode buscar objetos femininos, regredindo ao narcisismo primário ou à posição masculina (identificação com o pai). Freud considerava a homossexualidade feminina menos "rígida" que a masculina, mas mais ligada a inveja do pênis e ao protesto contra a feminilidade.

Freud descrevia o desenvolvimento libidinal em fases sexuais, onde a homossexualidade pode se fixar: oral (prazer na boca, incorporação do objeto), anal (retenção/expulsão, sadismo) e fálica (foco no falo, masturbação como autoerotismo). A masturbação infantil é universal e pré-genital, servindo como protótipo de prazer autoerótico que pode levar à homossexualidade narcísica adulta. Neste caso o sujeito busca no parceiro do mesmo sexo um reflexo de si mesmo, como um "espelho" do ego idealizado. O medo da castração é fundamental nisto tudo. No menino, o medo da castração impulsiona a resolução edípica pela identificação com o pai (heterossexualidade); se evitado por regressão, leva à homossexualidade passiva (identificação materna). Na menina, a "castração" já "ocorrida" (inveja do pênis) pode fixá-la na mãe, promovendo homossexualidade ativa (posição fálica).

Freud também ligava a homossexualidade ao narcisismo. No narcisismo primário (infantil, autoerótico), a libido investe no ego; no secundário (regressivo), o sujeito busca objetos semelhantes a si mesmo. Assim, a escolha homossexual é narcísica, o parceiro é um "espelho" do eu idealizado, repetindo o autoerotismo infantil. Em casos como o de Leonardo da Vinci (1910), Freud analisava a homossexualidade como sublimação narcísica de desejos maternos não resolvidos.

Freud enfatizava dinâmicas familiares, como uma mãe percebida como forte, fálica e castradora (dominante, absorvente) pode inibir a identificação paterna no menino, levando-o a manter o laço materno e buscar homens como substitutos. Um pai percebido como sendo fraco, ausente ou homossexual reforça isso, já que o menino não vê no pai um rival forte para temer a castração, falhando na resolução edípica. Na menina, uma mãe castradora pode intensificar a inveja do pênis, levando à rejeição da feminilidade e à escolha homossexual.

Freud via a homossexualidade como constitucionalmente bissexual, não curável, mas potencialmente conflituosa se fixada em fases pré-genitais. No contexto freudiano, a homossexualidade ilustra como o Édipo molda a orientação, mas não a determina rigidamente, é uma variação libidinal. Freud rejeitava a ideia de degeneração moral no tocante a homossexualidade masculina e feminina, mas ainda a via como desvio do desenvolvimento genital “normal”, ou seja, segundo Freud, a homossexualidade não deve ser entendida pela Psicanálise como um crime ou mesmo um pecado. Crimes são da alçada da lei e pecados, da religião. Aqui estamos na clínica médica, campo bem distinto do ocupado pela lei ou pecado. Mas a homossexualidade é entendida por Freud como sendo uma fixação/regressão libidinal.

 

12- Além do princípio do prazer (1920)

 

Em “Além do princípio do prazer”, 1920, Freud acrescenta a sua teoria um outro princípio. Até este momento a teoria psicanalítica era basicamente regida por dois grandes princípios: Princípio do Prazer e Princípio da Realidade. Pelo princípio do prazer o sujeito busca sempre o prazer em tudo que faz e almeja. Sua energia é proveniente da libido, de cunho eminentemente sexual, mas de um sexual que nos lembra em língua portuguesa e aqui no Brasil a palavra “tesão”, com todo seu sentido e significado implícito e explícito. Não se trata do prazer sexual genital e sim de algo muito mais amplo que envolve todas as esferas do Ser, e neste sentido, “tesão” é a palavra certa para descrever esta situação ampliada e sedutora. Ora, nem tudo podemos ter, mas tudo podemos desejar. Se buscarmos ter para nós certas coisas, seremos contemplados com enorme desprazer oriundo de interditos sociais e punições, o que afeta o prazer que gostaríamos de ter naquilo. Visando evitar um desprazer maior do que o prazer ambicionado, temos algumas interdições provenientes do princípio da realidade, que por vezes nos leva a adiar uma satisfação ou mesmo negá-la, evitando com isto um desprazer maior. Em 1920 Freud acrescenta a estes dois grandes princípios uma força auto-destrutiva. Se contrapondo a Eros, passamos a ter Thanatos, o princípio de morte e auto-destruição. A busca da matéria orgânica para retornar a matéria inorgânica original. E Freud tenta embasar esta formulação teórica na biologia e nas descobertas científicas de seu tempo, propondo uma áurea de cientificidade ao conceito e saindo de uma esfera puramente filosófica, abstrata ou metafísica.

O livro “Além do princípio do prazer” (Jenseits des Lustprinzips), publicado em 1920, é uma das obras mais profundas e perturbadoras da fase tardia de Freud. Ela surge em um contexto histórico marcado pelo trauma da Grande Guerra (como era então chamada o que que hoje em dia chamamos de Primeira Guerra Mundial - 1914-1918), cujas consequências psíquicas (neuroses traumáticas, sonhos repetitivos de soldados com ferimentos, compulsão à repetição em civis e soldados) desafiavam a teoria freudiana dominante até então, pautada na busca do prazer e realização de desejos a partir de uma libido formada por energia sexual, em contraparte a um princípio da realidade que busca regular as ações do sujeito em virtude da obtenção de um prazer maior resultante da soma de todas as variáveis biológicas e sociais. Até 1920, Freud sustentava que o psiquismo era regido pelo princípio do prazer (Lustprinzip): busca de satisfação imediata e redução de tensão. No entanto, fenômenos observados na clínica (sonhos traumáticos que reviviam o horror em vez de realizarem desejo) e na vida cotidiana (repetições compulsivas de experiências dolorosas) não se encaixavam nessa elaboração teórica. O livro representa, portanto, uma revisão radical: Freud introduz a pulsão de morte (Todestrieb, ou Thanatos) como contraponto à pulsão de vida (Lebenstrieb, ou Eros), propondo um dualismo pulsional que explica o conflito fundamental do psiquismo.

Freud escreveu “Além do Princípio do Prazer” entre 1919 e 1920, em um momento de luto pessoal e coletivo. Ele perdera a filha Sophie em 1920 (gripe espanhola), vira filhos no front da guerra e acompanhara pacientes com neuroses de guerra. A guerra expôs o que Freud chamou de “compulsão à repetição” (Wiederholungszwang): soldados reviviam em sonhos o trauma da explosão ou da trincheira, não como realização de desejo, mas como insistência em reviver a dor. Crianças em jogos repetitivos (ex.: o jogo do “fort-da” do neto de Freud, que jogava um carretel para longe e o puxava de volta, dizendo “fort”/“da” — “fora”/“aqui”) também mostravam repetição de experiências desagradáveis. Esses casos forçaram Freud a questionar se o princípio do prazer era absoluto ou se havia algo “além” dele, uma força que buscava retornar ao estado inorgânico original de toda matéria orgânica.

Freud começa revisitando o princípio do prazer: o psiquismo tende a reduzir excitação ao mínimo (princípio de constância ou inércia, ecoando a obra “O projeto”, de 1895). No entanto, a compulsão à repetição parece ir contra isso, ela repete experiências dolorosas sem buscar prazer.

Freud distingue dois tipos de repetição: 1- Repetição prazerosa (reforço de experiências satisfatórias); 2- Repetição traumática (revivência compulsiva de dor, sem ganho aparente). Para explicar isso, ele propõe a existência de duas pulsões fundamentais: 1- Pulsões de vida (Eros): conservadoras e unificadoras, ligadas à sexualidade, à reprodução, à ligação de células e organismos. Elas buscam manter a vida, unir e aumentar a excitação de forma prazerosa. 2- Pulsões de morte (Thanatos): regressivas e destrutivas, tendem a retornar o organismo ao estado inorgânico anterior ao nascimento, ou seja, silêncio, imobilidade, ausência de tensão. Elas operam silenciosamente, mas se manifestam em agressividade, autodestruição e repetição compulsiva.

Freud não vê as duas pulsões como opostas absolutas, mas misturadas: Eros une e conserva, Thanatos desune e destrói, mas frequentemente se fundem, como exemplo podemos pensar o sadismo, que pode se igualar a agressividade erótica. A compulsão à repetição é a manifestação mais clara da pulsão de morte: o psiquismo repete o trauma para tentar dominá-lo retroativamente (tentativa de ligação), mas também para buscar a descarga final e a volta ao inorgânico de onde toda vida orgânica proveio.

Muito interessante também é o exemplo do jogo do fort-da narrado por Freud e também dos sonhos traumáticos tidos por seus pacientes. Freud ilustra a compulsão à repetição com o jogo do neto de 18 meses: o menino jogava um carretel para longe (“fort!”) e o puxava de volta (“da!”), repetindo a angústia da separação da mãe. O jogo transforma a passividade (o abandono pela mãe) em atividade (controle da repetição). Nos sonhos traumáticos dos soldados, Freud vê a mesma dinâmica: o sonho repete o trauma não por desejo, mas por insistência da pulsão de morte em reviver o momento de ruptura.

O livro “Além do Princípio do Prazer” marca uma virada na teoria freudiana: do monismo do prazer para o dualismo pulsional. Ele explica fenômenos antes obscuros (masoquismo moral, agressividade, repetições compulsivas em neuroses) e pavimenta o caminho para a segunda tópica (id como reservatório de ambas as pulsões). Clinicamente, mostra que a análise deve lidar não só com desejos recalcados (Eros), mas com forças regressivas (Thanatos) que resistem à cura.

Em resumo, a obra revela o lado sombrio do psiquismo: além do prazer presente nas pulsões sexuais provindas da libido, há uma pulsão de morte que busca o silêncio absoluto. Freud, médico pragmático, baseia tudo em observação clínica e cotidiana, mas admite o caráter especulativo da pulsão de morte, uma força biológica que explica por que o ser humano repete o sofrimento. É um texto que mudou a compreensão do conflito humano, mostrando que a vida é uma luta constante entre união e destruição, prazer e repetição dolorosa. E, deste modo, aos poucos a Psicanálise criada por Freud vai se afastando de sua origem e prática na clínica médica, para se apresentar cada vez mais como uma antropologia filosófica que permite uma crítica cultural exercida sobre a nossa sociedade.

 

13- Totem e tabu (1913)

 

O livro “Totem e tabu: Algumas concordâncias entre a vida psíquica dos selvagens e dos neuróticos” (Totem und Tabu – Einige Übereinstimmungen zwischen dem Seelenleben der Wilden und der Neurotiker), publicado em 1913 (com partes publicadas previamente em 1912-1913 na revista Imago), é uma das obras mais ousadas e especulativas de Freud. Ela representa sua primeira grande aplicação da Psicanálise fora do âmbito clínico individual, estendendo-a à antropologia, à etnologia e à origem da cultura humana. O livro surge no contexto de um Freud já consolidado como teórico do inconsciente e da sexualidade, mas ainda buscando possíveis fundamentos universais para suas descobertas: se o complexo de Édipo e o recalque são estruturais na psique ocidental, seriam também universais? Para responder, Freud mergulha em relatos etnográficos da época (James Frazer, 1854-1941; William Robertson Smith, 1846-1894; Wilhelm Wundt, 1832-1920, e outros) sobre sociedades “primitivas” (termo usado então para povos indígenas, aborígenes australianos, povos da Polinésia, etc.), comparando-os com sintomas obsessivos e fobias de pacientes neuróticos.

A estrutura e conteúdo principal desta obra se apresenta em um livro dividido em quatro ensaios: 1- o horror ao incesto, 2- o tabu e a ambivalência emocional, 3- animismo, magia e onipotência das ideias, 4- o retorno do totemismo.

1- O horror ao incesto: Freud observa que em muitas sociedades ditas “primitivas” existe o tabu do incesto, muito mais rígido que nas sociedades modernas. Ele compara isso ao tabu neurótico do paciente obsessivo que evita contato com certos objetos ou pessoas por medo de contaminação ou punição. Para Freud, o tabu do incesto é a primeira proibição cultural, que funda a sociedade ao impedir o desejo direto pela mãe e pela irmã.

2- O tabu e a ambivalência emocional: Aqui Freud introduz o conceito de ambivalência, no qual o mesmo objeto ou pessoa pode ser simultaneamente amado e odiado. Nos “selvagens”, o rei ou o chefe é sagrado (tabu), mas também perigoso (pode ser morto ritualmente). Isso ecoa a ambivalência do neurótico obsessivo, que ama e odeia ao mesmo tempo, gerando rituais compulsivos para neutralizar a sua agressividade.

3- Animismo, magia e onipotência das ideias: Freud analisa o animismo (crença de que tudo tem alma) e a magia (simpatética e contagiosa) como projeções da onipotência das ideias: o primitivo acredita que o pensamento pode influenciar a realidade diretamente (ex.: vodu). Ele compara isso ao neurótico que acredita que seus pensamentos ruins podem causar mal (onipotência mágica do pensamento). Para Freud, isso é resíduo da fase narcísica infantil, onde o ego se sente todo-poderoso.

4- O retorno do totemismo: O ensaio mais famoso e especulativo deste livro, no qual Freud reconstrói uma “horda primitiva” original (inspirada em Charles Darwin, 1809-1882, e James Jasper Atkinson, 1846-1899), onde um pai tirânico monopolizava as mulheres e era assassinado pelos filhos. Após o parricídio coletivo, os filhos, tomados por culpa (ambivalência), criam o totem (animal sagrado que representa o pai morto), proíbem o incesto (exogamia) e instituem o totemismo como religião primitiva. O totem é comido ritualmente (totem-refeição) para incorporar o pai morto e expiar o crime. Freud vê nisso a origem do complexo de Édipo em escala coletiva: o assassinato do pai primordial é o trauma fundador da cultura, repetido simbolicamente em rituais e neuroses.

Dentre as principais ideias presentes neste livro, levando-se em conta a sua importância, podemos falar em: 1- Paralelo entre “selvagens / primitivos” e neuróticos: Freud equipara o pensamento “primitivo” ao psiquismo infantil e neurótico: ambos operam com onipotência das ideias, ambivalência, projeção e mecanismos mágicos. 2- Origem da cultura e da moral: A proibição do incesto e do parricídio funda a sociedade. A culpa pelo assassinato do pai gera o totemismo, a religião e a moralidade. A cultura nasce da repressão das pulsões. 3- Complexo de Édipo como sendo algo universal: O mito de Édipo não é apenas individual; é o resíduo filogenético do trauma primordial da humanidade. Isso reforça a universalidade do Édipo.

Trata-se de uma obra altamente especulativa na qual Freud baseia-se basicamente em fontes etnográficas da época obtidas por consulta livresca efetuada por Freud. Hoje em dia tais fontes são sujeitas a diversas críticas, podendo ser consideradas etnocêntricas e mesmo imprecisas. Antropólogos como Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e Bronisław Malinowski (1884-1942) criticaram a falta de rigor empírico e o evolucionismo unilinear (indo do primitivo em direção ao civilizado). Em particular a crítica feita por Bronislaw Malinoviski é bem interessante e baseada em trabalho de campo, contestando a universalidade do Édipo. A “horda primitiva” nunca foi realmente comprovada, não passando de uma especulação teórica, e é criticada hoje em dia como sendo somente um mito freudiano, não realmente um fato histórico documentado. Ainda assim, a obra influenciou profundamente a antropologia psicanalítica, a teoria da cultura (ex.: Herbert Marcuse, 1898-1979; Theodor W. Adorno, 1903-1969) e estudos sobre religião e totemismo, sendo importante até os presentes dias e havendo, inclusive, a possibilidade de uma releitura crítica de nossa sociedade e cultura por meio de uma visão psicanalítica a partir desta e outras obras de Freud que seguem por este caminho.

O livro “Totem e tabu” é a primeira tentativa ambiciosa de Freud de explicar a origem da cultura humana a partir da Psicanálise. Freud busca demonstrar que a moral, a religião e a sociedade não são inatas, mas nascem do conflito pulsional e da culpa coletiva. Apesar das críticas, a obra permanece um clássico da aplicação da Psicanálise às ciências humanas e sociais, revelando a ambivalência fundamental do ser humano: amar e odiar o mesmo objeto, desejar e proibir o mesmo ato, enfim, construir a cultura sobre o crime primordial.

Em síntese, Totem e tabu é uma obra visionária e polêmica que estende o Édipo individual ao destino da humanidade, afirmando que toda cultura é uma resposta ao trauma do parricídio e do incesto, e que o neurótico contemporâneo repete, em escala menor e individual, o drama coletivo e histórico dos nossos ancestrais.

 

14- O futuro de uma ilusão

 

O livro “O futuro de uma ilusão”, 1927, é explicitamente uma crítica à religião, que Freud apresenta como uma ilusão coletiva nascida de desejos profundos de proteção, sentido e consolo diante da impotência humana perante a natureza, a morte e o sofrimento.

Freud divide o livro em duas partes principais. Na primeira, ele analisa as origens psicológicas da religião: ela nasce do desamparo infantil do humano perante as forças da natureza e da sociedade, que evocam o medo primordial da morte e da solidão. Para lidar com isso, o ser humano cria um deus protetor, um pai onipotente e benevolente que oferece proteção, justiça e sentido à vida. Na segunda parte, Freud examina o valor cultural da religião: ela funciona como um mecanismo de controle das pulsões (especialmente agressivas e sexuais), impõe proibições morais e promete recompensas no além para compensar as renúncias impostas pela civilização. Ele reconhece que a religião tem sido historicamente eficaz para unir as massas e conter a barbárie, mas argumenta que, em uma era científica, ela se torna obsoleta e prejudicial ao bloquear o pensamento racional e a maturidade coletiva.

Freud descreve a religião como uma espécie de neurose obsessiva universal da humanidade: uma construção psíquica que substitui o pai real por um deus exaltado, oferece recompensas futuras (vida eterna) e regula as pulsões sexuais e destrutivas através da culpa e do medo. Freud defende que a maturidade cultural deveria substituir essa ilusão por uma visão científica e racional da realidade, embora reconheça que a religião tem uma função adaptativa temporária ao manter a ordem social e conter pulsões destrutivas.

No entanto, podemos nos ousar a questionar até que ponto o próprio livro contém uma autocrítica implícita da Psicanálise enquanto método médico de cura das neuroses e outras patologias psíquicas. E, mais radicalmente, até que ponto a Psicanálise também pode ser vista como uma ilusão.

Freud define ilusão como uma crença motivada por desejo, não necessariamente falsa, mas que não resiste ao teste da realidade. Ele afirma que a religião é ilusão porque satisfaz necessidades infantis de segurança e onipotência. Ora, a Psicanálise também oferece uma narrativa que satisfaz desejos profundos: o desejo de compreensão total do próprio sofrimento, de encontrar um sentido oculto na vida, de ser “salvo” do conflito interno por meio da revelação do inconsciente. O paciente que entra em análise busca uma espécie de redenção: descobrir a verdade sobre si mesmo, resolver o conflito neurótico, alcançar maior liberdade psíquica, promessas que, em muitos casos, funcionam mais como consolo e esperança do que como cura definitiva. Freud mesmo admite, em textos tardios como “Análise terminável e interminável”, 1937, que a análise frequentemente não chega a um fim completo, que há resistências biológicas insuperáveis e que o ego nunca domina totalmente o id. Isso abre espaço para a ideia de que a Psicanálise, como a religião, oferece uma ilusão funcional: a ilusão de que o sofrimento pode ser compreendido e superado por meio de um ritual (a sessão analítica), de uma relação transferencial (o analista como figura paterna ou materna) e de uma narrativa explicativa (a interpretação).

Além disso, a estrutura do argumento de Freud contra a religião pode ser voltada contra ele próprio. Ele critica a religião por ser baseada em autoridade (escrituras, tradição), por apelar à fé em vez da razão e por prometer recompensas impossíveis de verificar. Mas a Psicanálise também depende de autoridade (a palavra do analista), de uma relação de confiança transferencial que pode ser vista como fé, e de resultados que nem sempre são verificáveis empiricamente (a “cura” é subjetiva, lenta e incompleta). Quando Freud diz que a religião é uma neurose coletiva, não está ele próprio propondo uma “neurose terapêutica” individual, um processo longo, custoso e nem sempre resolutivo, como alternativa?

Críticos como as feitas por Oskar Pfister (1873-1956; pastor protestante e amigo de Freud) já apontaram isso em 1928, em “A ilusão de um futuro”, argumentando que Freud aplicava à religião critérios que também poderiam atingir a Psicanálise. Leituras contemporâneas (como as feitas por Kate Schechter, em “Illusions of a Future”, 2014) vão mais longe: sugerem que Freud, ao prever o declínio da religião, talvez estivesse, de forma implícita, antecipando também o declínio da própria Psicanálise como instituição cultural dominante no século XX.

Portanto, sim, “O futuro de uma ilusão” pode ser lido não só como crítica à religião, mas como uma autocrítica velada da própria Psicanálise. Freud não o diz explicitamente, claro, ele se posiciona como o defensor da razão contra a ilusão (um perfeito Iluminista, pensando no Movimento predominante no século XVIII), mas a lógica interna do livro permite essa inversão. Se a religião é uma ilusão que consola o ser humano diante do desamparo, a Psicanálise também pode ser vista como uma ilusão moderna que consola o indivíduo diante do conflito pulsional e da finitude. Ambas prometem sentido, redenção e superação do sofrimento; ambas dependem de uma narrativa que organiza o caos; e ambas, em última análise, enfrentam a mesma questão: será que o desejo humano de significado pode ser plenamente satisfeito pela razão ou pela análise, ou isso também é ilusão?

Esta possibilidade interpretativa do texto nos revela uma ambivalência profunda no próprio Freud: o homem que desmascara ilusões talvez tenha criado, sem querer, uma nova forma de ilusão terapêutica contemporânea.

 

15- O mal estar na civilização

 

O livro “O mal-estar na civilização” (Das Unbehagen in der Kultur), publicado em 1930 (escrito no final de 1929), é uma das obras mais pessimistas e filosóficas de Freud. Ela surge no contexto histórico sombrio do entre-guerras: a Europa ainda se recuperava da Primeira Guerra Mundial, na época conhecida como “A Grande Guerra”, o comunismo, fascismo e nazismo ganhavam força em toda a Europa, e Freud, já com 73 anos, enfrentava seu próprio câncer de mandíbula, a morte da filha Sophie e o exílio iminente. O livro reflete um Freud maduro e desencantado, que olha para a civilização não mais como progresso inevitável, mas como um compromisso precário entre pulsões humanas e exigências sociais. É uma continuação natural de “Além do Princípio do Prazer”, 1920, e de “O futuro de uma ilusão”, 1927, mas com foco mais amplo: a tensão inevitável entre por um lado felicidade individual e por outro a ordem coletiva.

Freud começa respondendo a uma carta de Romain Rolland (1866-1944), que o questionava sobre o “sentimento oceânico” (uma sensação de unidade com o universo, ligada ao misticismo). Freud usa isso como ponto de partida para analisar por que a civilização gera infelicidade. O livro não é dividido em capítulos formais, mas segue uma progressão lógica: da busca pela felicidade à repressão pulsional, do papel da culpa e, finalmente, da agressividade como ameaça permanente à cultura e a civilização.

A busca pela felicidade possui as suas limitações e estas não são poucas. Freud afirma que o humano busca prazer (redução de tensão) e evita dor. No entanto, a civilização impõe três fontes de sofrimento: 1- A natureza (desastres, doenças); 2- O corpo (envelhecimento, doença); 3- As relações com outros humanos (conflitos sociais daí resultantes). A civilização tenta minimizar esses sofrimentos, mas ao custo de sacrificar a liberdade pulsional e restringir o prazer.

A repressão das pulsões tem um preço pago na nossa cultura e no desenvolvimento social de nossa civilização. A civilização exige sublimação e repressão das pulsões sexuais e agressivas para permitir a vida em comum. Freud introduz o conceito de “mal-estar” (Unbehagen): a cultura proporciona segurança, ordem e conquistas (ciência, arte, tecnologia), mas cobra um preço alto, a renúncia ao prazer direto. Quanto mais avançada a civilização, maior a repressão das pulsões, gerando insatisfação crônica por todos na sociedade.

A agressividade e a pulsão de morte também estão presentes e desempenham o seu papel. Um dos pontos mais sombrios: Freud argumenta que a agressividade é uma pulsão primária (Thanatos), tão forte quanto Eros. A civilização tenta contê-la através da culpa (superego) e da projeção (inimigo externo). No entanto, a agressividade não desaparece jamais, ela se volta para dentro (culpa, masoquismo) ou explode em guerras e violência coletiva. A Grande Guerra (Primeira Guerra Mundial) foi o exemplo mais expressivo e atual para a época de Freud desta verdadeira falha civilizacional.

O superego, internalização das proibições parentais e culturais, torna-se cada vez mais severo. A culpa surge não só de atos reais, mas de desejos reprimidos. Freud nota que, paradoxalmente, quanto mais o humano se torna “bom” (civilizado), mais culpa sente, já que o superego pune até os pensamentos mais íntimos e secretos. Isso cria um ciclo vicioso no qual a civilização aumenta a culpa, que por sua vez aumenta a insatisfação.

Freud termina o texto desta obra com pessimismo cauteloso, entendendo que a civilização é um experimento muito frágil. As pulsões destrutivas podem superar as construtivas, levando ao colapso, como frequentemente vemos ocorrer nas guerras. Freud prevê que o avanço técnico pode aumentar o poder destrutivo do humano, e que a repressão excessiva pode gerar explosões coletivas. Ainda assim, há um fio de esperança na razão e na ciência, mais uma vez, um Freud que se mostra vinculado aos valores Iluministas (século XVIII).

O livro “O Mal-estar na civilização” é uma das obras mais influentes de Freud fora da clínica e chega mesmo a antecipar a crítica cultural da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer, Marcuse), a teoria da sociedade repressiva e debates contemporâneos sobre violência, culpa coletiva e crise ambiental. Freud mostra que a felicidade não é compatível com a civilização plena e que o preço da ordem social é o sofrimento psíquico. O livro também revela um Freud tardio, mais maduro, menos otimista que quando jovem, mais consciente das forças destrutivas inerentes ao ser humano.

Em síntese, O mal-estar na civilização é o diagnóstico freudiano da condição humana moderna: a civilização nos protege, mas nos reprime; nos une, mas nos divide internamente; nos dá progresso, mas nos cobra infelicidade. É um texto que não oferece soluções fáceis, mas alerta para o conflito permanente entre desejo e cultura, Eros e Thanatos, um conflito que, segundo Freud, nunca será resolvido, apenas administrado.

 

16. Mecanismos de defesa

(repressão, negação, projeção, sublimação, etc.)

 

Os mecanismos de defesa são processos psíquicos em grande parte inconscientes que o ego utiliza para proteger-se da ansiedade e angústia, do conflito interno e de ameaças externas ou internas. Embora o conceito tenha sido aprofundado e sistematizado por Anna Freud (filha de Sigmund Freud) em seu livro “O ego e os mecanismos de defesa”, 1936, a ideia central nasce diretamente do pensamento freudiano, especialmente na segunda tópica (1923 em diante), onde o ego é descrito como uma instância mediadora entre o id, o superego e a realidade. Freud já os descrevia desde os primórdios da Psicanálise, mas os tratava como operações específicas do recalque (Verdrängung). Com o tempo, ele e seus seguidores reconheceram uma variedade maior de mecanismos, todos funcionando para reduzir a tensão psíquica quando o ego se sente ameaçado por desejos pulsionais inaceitáveis, culpas superegóicas ou perigos da realidade.

Freud enfatizava que os mecanismos de defesa são, em sua maioria, inconscientes (o ego não sabe que os está usando) e automáticos. Eles não são patológicos por si só, e todos os indivíduos os utilizam, mas tornam-se problemáticos quando excessivos, rígidos ou desadaptativos, levando a sintomas neuróticos, inibições ou distorções da personalidade.

Anna Freud sistematizou a lista em 10 mecanismos principais, mas Freud nunca fez uma taxonomia rígida. Freud os via como operações dinâmicas do ego, variáveis conforme a fase do desenvolvimento e o tipo de ameaça. O estudo dos mecanismos de defesa permanece central na Psicanálise contemporânea, influenciando a psicoterapia dinâmica, a psicologia do ego e até abordagens cognitivas.

Os principais mecanismos de defesa destacados por Freud e outros psicanalistas que a ele se seguiram, são: o recalque (repressão); a negação; a projeção; a sublimação; a regressão; a racionalização; reação por formação (adotar o comportamento oposto ao conteúdo reprimido); deslocamento, introjeção; identificação.

Recalque ou repressão (Verdrängung): Mecanismo fundamental e mais importante na teoria freudiana. Consiste no afastamento inconsciente de representações (ideias, desejos, afetos) intoleráveis para o consciente. O recalcado não desaparece, continua ativo e busca retornar (retorno do recalcado), manifestando-se em sintomas, sonhos, atos falhos ou chistes. Freud distingue o recalque primário (originário, que funda o inconsciente) do secundário (manutenção do afastamento). É o protótipo fundamental de todos os mecanismos de defesa.

Negação (Verleugnung): Recusa inconsciente de aceitar uma realidade dolorosa ou ameaçadora. Diferente da recusa consciente, a negação psíquica permite que o sujeito “saiba” algo, mas não o aceite emocionalmente (ex.: “Meu pai morreu, mas ainda falo com ele como se estivesse vivo”). Freud usa o termo especialmente em casos de fetichismo e psicose.

Projeção: Atribuição inconsciente de desejos, sentimentos ou impulsos próprios (geralmente inaceitáveis) a outra pessoa ou ao mundo externo. O que é odiado ou desejado em si mesmo é visto no outro. Exemplo clássico: o paranoico projeta sua própria agressividade no outro (“ele quer me matar”), aliviando a culpa interna. Freud liga a projeção à formação de delírios e à homossexualidade reprimida (projeção do desejo homossexual como perseguição).

Sublimação: Um dos poucos mecanismos considerados maduros e adaptativos. Consiste na transformação de uma pulsão socialmente inaceitável (sexual ou agressiva) em atividade cultural ou socialmente valorizada (arte, ciência, esporte, caridade). Freud vê a sublimação como o caminho mais saudável para a descarga pulsional, aqui o desejo não é recalcado nem satisfeito diretamente, mas desviado para fins criativos. É o mecanismo que explica a genialidade (ex.: Leonardo da Vinci sublimando desejos homossexuais em arte, segundo análise feita por Freud).

Regressão: Retorno a estágios anteriores do desenvolvimento libidinal sob estresse (ex.: adulto que volta a comportamentos infantis durante crises).

Racionalização: Justificação lógica posterior para ações motivadas por impulsos inconscientes.

Reação em formação: Adoção do comportamento oposto ao impulso reprimido (ex.: excesso de gentileza para ocultar hostilidade).

Deslocamento: Transferência de afeto de um objeto para outro menos perigoso (comum em fobias e obsessões).

Introjeção: Incorporação de objetos ou figuras externas no ego ou superego (base da formação do superego e da melancolia).

Identificação: Processo de tornar-se semelhante a outra pessoa (fundamental na resolução do Édipo e na formação da personalidade).

Os mecanismos de defesa são o arsenal do ego para manter o equilíbrio psíquico. Em análise, o terapeuta identifica quais defesas o paciente mais utiliza, pois elas revelam o tipo de conflito subjacente (ex.: negação em psicose, projeção em paranoia, sublimação em personalidades criativas). Freud alertava que defesas excessivas ou primitivas (como projeção maciça) podem levar a patologias graves, enquanto defesas maduras (sublimação, humor) promovem adaptação e criatividade.

Em síntese, os mecanismos de defesa mostram o ego como um mediador astuto, mas vulnerável: ele protege o sujeito do conflito pulsional, mas ao custo de distorções da realidade. Freud, médico pragmático, os descreve não como falhas morais, mas como estratégias necessárias, e por vezes custosas, para viver em um mundo onde desejo e realidade nunca se harmonizam perfeitamente e costumam se apresentar em ostensiva oposição e combate.

 

17- Teoria das neuroses e angústia (histeria, obsessão, fobia + revisão de 1926)

 

A teoria das neuroses e da angústia é um dos pilares centrais da obra freudiana, evoluindo ao longo de décadas e culminando na revisão radical de 1926 em “Inibições, sintomas e angústia” (Hemmung, Symptom und Angst). Freud dedicou grande parte de sua carreira a compreender por que o psiquismo gera sofrimento neurótico e como a angústia (Angst) funciona como sinal de alerta ou consequência do conflito interno. A teoria passa por duas fases principais: a primeira (1894-1925), centrada na neurose atual e na angústia como libido reprimida; a segunda (1926 em diante), que reformula a angústia como sinal de perigo emitido pelo ego.

Inicialmente e fugindo um pouco da tese aqui centrada na Psicanálise de Freud, penso que é importante explicar e distinguir do que estamos de fato falando aqui, para melhor entendimento por parte do leitor. Há três conceitos essenciais, semelhantes, mas distintos, aqui, que precisamos analisar, mesmo que de modo simplificado, já que o texto não trata disto propriamente dito. Me refiro aos conceitos de: medo, ansiedade e angústia. A princípio podem parecer a mesma coisa. Três palavras diferentes para nomear a mesma situação, no caso, meros sinônimos. Mas não é isto. O medo se dá quando diante de um objeto ou situação de real potencial destrutivo para a pessoa, como, por exemplo, estar diante de um animal selvagem ou ser abordado por um bandido armado e transtornado. A ansiedade se dá de modo semelhante, mas sem a presença do estímulo externo com real potencial agressor. Se uma pessoa ao voltar do trabalho a noite é assaltada por um ladrão armado ao passar por uma esquina em uma rua deserta pelo horário em que lá se encontra, ela será inundada pelo medo diante do agressor e da situação perigosa real ali presente. Se em outro dia, também retornando tarde do trabalho a mesma pessoa precisa passar pela mesma esquina e rua deserta, mesmo sem ser abordada por um eventual agressor, sentirá ansiedade motivada pela situação, mas sem a presença do estímulo externo motivador. Já a angústia, sentimento muito próximo ao medo e a ansiedade, não faz uso de estímulos externos e sim internos. Temos aqui o humano diante de sua finitude existencial, diante da consciência de que um dia irá morrer, pois é um ser mortal, diante das exigências que sua fé cristã possa fazer perante um Deus todo poderoso, diante de exigências internas de um ideal do ego que não conseguem facilmente se concretizar.

Primeira teoria da angústia (até 1925): Inicialmente, Freud via a angústia como resultado direto da repressão da libido. Em textos como “Sobre a justificação de destacar da neurastenia uma síndrome específica denominada ‘neurose de angústia’”, 1895, e nos “Estudos sobre a histeria”, 1895, ele distinguia a neurose atual ou de angústia, da neurose psiconeurótica ligada a conflitos específicos.

Neurose atual (ou neurose de angústia): angústia flutuante, sem objeto, causada por libido não descarregada sexualmente (ex.: coito interrompido, abstinência prolongada). A energia sexual não sublimada nem realizada transforma-se em angústia somática. Neurose psiconeurótica (histeria, neurose obsessiva, fobia): angústia ligada a conflitos psíquicos específicos, onde a libido reprimida se converte em sintomas simbólicos.

As principais neuroses identificadas eram: histeria de conversão, neurose obsessiva, fobia. Histeria de conversão: conflito sexual reprimido convertido em sintomas corporais (paralisias, anestesias, dores sem base orgânica). A angústia é descarregada no corpo. Neurose obsessiva: conflitos entre desejo e proibição geram pensamentos intrusivos, rituais compulsivos e dúvida patológica. A angústia surge da ambivalência (amor/ódio simultâneo). Fobia: angústia deslocada para um objeto ou situação externa (ex.: medo de animais, espaços abertos). O objeto fóbico simboliza o desejo reprimido ou a ameaça de castração. Nessa fase, Freud considerava a angústia como produto tóxico da libido não utilizada: quanto mais libido reprimida, mais angústia.

Com a revisão de 1926, passamos a ter a segunda teoria da angústia. Em “Inibições, sintomas e angústia”, Freud abandona a ideia de que a angústia é apenas consequência da repressão e a redefine como sinal de perigo emitido pelo ego. A angústia passa a ser protetora, não patológica em si. Ele identifica três tipos principais de angústia: 1- realista, 2- neurótica e 3- moral.

Angústia real (realistische Angst): reação normal a perigo externo (ex.: medo de um animal selvagem).

Angústia neurótica (neurotische Angst): medo de que as pulsões do id escapem do controle do ego (ex.: medo de perder o controle e agir impulsivamente).

Angústia moral (moralische Angst): angústia diante do superego (culpa, sentimento de indignidade).

A angústia surge quando o ego percebe uma ameaça de: 1- Sobrecarga pulsional (id), 2- Punição do superego (culpa), 3- Perigo externo real.

A repressão / recalque não causa angústia; é a angústia que motiva a repressão / recalque. O ego usa defesas (recalque, negação, projeção etc.) para evitar o desprazer da angústia. Quando as defesas falham, surge o sintoma neurótico.

Sigamos pela relação com as neuroses específicas, no caso, neurose histerica, neurose obsessiva e fobia.

Neurose Histerica: defesa contra angústia de castração ou desejo edípico por conversão somática (o corpo “fala” o conflito).

Neurose obsessiva: defesa contra angústia moral e agressividade (rituais neutralizam a culpa e o ódio).

Fobia: defesa por deslocamento (a angústia é projetada em um objeto externo evitável).

A revisão de 1926 marca a maturidade da segunda tópica. O ego não é apenas vítima da repressão, mas agente ativo que sinaliza perigo e mobiliza defesas. Isso muda a técnica analítica: o analista deve ajudar o ego a tolerar angústia em vez de evitá-la, fortalecendo sua capacidade de enfrentar o id e o superego. O livro também explica por que algumas análises são longas ou intermináveis, apresentando como causa resistências biológicas e pulsão de morte, já que dificultam a resolução completa dos problemas apresentados pelo paciente.

Em síntese, a teoria das neuroses e da angústia mostra o psiquismo como um sistema em constante alerta: a angústia é o sinal de que o equilíbrio entre desejo, moral e realidade está ameaçado. Freud, médico pragmático até o fim, vê na angústia não uma doença, mas um mecanismo adaptativo que, quando mal gerido, gera sofrimento neurótico. A revisão de 1926 consolida a visão de que a cura não elimina a angústia, mas ensina o ego a suportá-la e a enfrentá-la com maior autonomia.

 

18- Palavras finais a título de conclusão

 

Afinal, a Psicanálise é uma ciência? No sentido mais restrito do termo, a resposta seria negativa, já que não é possível testar suas hipóteses visando refutá-las. Se o faço, minha própria tentativa de refutação da teoria será abarcada pela teoria psicanalítica e dentro dela explicada como uma demonstração de que seus conceitos são válidos. Algo semelhante ocorre com o comunismo, como apresentado nas obras de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), onde qualquer tentativa de refutação de seus postulados fundamentais será analisada dentro da teoria como mais uma comprovação da mesma e minha tentativa de refutação será vinculada a questões já explicadas na teoria, questões estas que motivariam minha tentativa de refutação de seus postulados, sejam estes os presentes nas obras de Marx e Engels, comunismo, ou os presentes nas obras de Freud, Psicanálise. No entanto, se a Psicanálise não se encaixa no papel almejado por uma ciência, como o propõe, por exemplo, Karl Popper (1902-1994), nem por isto a mesma deixa de ser importante e válida. A Psicanálise influenciou e ainda influencia toda a cultura posterior a mesma, estando presente em todos os campos do saber que possamos aqui elencar, dentre os quais a arte, a filosofia, a linguagem, as ciências, a política, etc. Mas, se a Psicanálise é assim tão importante e significativa mesmo não sendo uma ciência em sentido restrito do termo, o que ela de fato é? Entendo que a Psicanálise não é uma ciência, da mesma forma que a arte ou a filosofia também não são ciência e em nada perdem de relevo ou importância cultural em seus distintos campos. A classificação mais adequada para a Psicanálise seria de uma “antropologia filosófica”, um estudo profundo e detalhado do homem (humano) por meio da filosofia. Assim definindo, as coisas ficam mais claras e em nada perdem de seu valor intrínseco e, sem a necessidade de experimentos que venham a comprovar ou refutar hipóteses, podemos tranquilamente falar em “princípio do prazer”, “princípio da realidade”, pulsões de morte ou auto-destrutivas (thanatos), um polo pulsional (id) de prazer (libido) e morte, de romance familiar, de Édipo, de narcisismo, de inconsciente, etc.

A Psicanálise surge não como uma nova ciência visando estudar um determinado ramo do saber, mas sim como uma especialidade médica visando o tratamento e cura de comportamentos entendidos como decorrentes de uma doença, as neuroses. Teve um êxito razoável junto as neuroses histéricas, menor junto as neuroses obsessivas e questionável junto as demais anormalidades psíquicas, como o caso das psicoses e psicopatias. O tratamento psicanalítico de diversos transtornos mentais foi um marco em sua época e o continua sendo hoje, mas cabe lembrar “O futuro de uma ilusão”, 1927, e “Análise terminável e interminável”, 1937. Será que somente a “religião” é uma ilusão, ou será que a própria Psicanálise com sua audaciosa proposta de cura das neuroses é, ela mesma, uma ilusão? A Psicanálise que começou falando em um tempo relativamente curto de tratamento e cura, teve este tempo cada vez mais ampliado diante de seus pacientes até o ponto de nos caber perguntar se de fato uma análise poderá terminar ou será realmente uma empreitada interminável? Diante do confessionário religioso, outrora ocupado por pessoas vinculadas a uma religião cristã e que tinham o poder de perdoar os pecados, agora temos um outro altar, no qual o paciente deitado em um divã relata seus pecados, mas sem a recompensa esperada de um perdão diante de “deus”, o representante do “pai” primordial. Ao que se propôs a Psicanálise enquanto método de tratamento quando de seu surgimento, hoje em dia temos outras abordagens teóricas, que desde a Psicoterapia Individual, de Alfred Adler, se preocupam muito menos com as origens e muito mais com a solução de comportamentos que gerem problemas na vida social das pessoas (TRE – Terapia Racional Emotiva; TC – Terapia Cognitiva; TC – Terapia Comportamental; TCC – Terapia Comportamental Cognitiva; IE – Inteligência Emocional; PNL – Programação Neurolínguística, etc.). A solução de um problema comportamental não se encontra mais na Psicanálise e sim em outras abordagens, no entanto, temos nela um forte método de autoconhecimento interior, de auto-descoberta e entendimento das razões ocultas para nossas escolhas e comportamentos, mesmo que isto não signifique a mudança dos mesmos.

Freud, em sua obra “Uma dificuldade no caminho da Psicanálise”, 1917, e ecoando ideias semelhantes em “O mal-estar na civilização”, 1930, descreve três grandes "feridas narcísicas" infligidas à humanidade por descobertas científicas que abalaram o ego coletivo. Essas ilusões quebradas representam, para ele, golpes sucessivos no narcisismo humano, que tende a colocar este mesmo humano no centro do universo como ser privilegiado e racional. A primeira ferida vem de Nicolau Copérnico (1473-1543), cuja teoria heliocêntrica, exposta em “De Revolutionibus Orbium Coelestium”, 1543, derrubou a ilusão geocêntrica: a Terra não é o centro do cosmos, mas um planeta periférico orbitando o Sol, deslocando o ser humano de sua posição cosmológica privilegiada. Essa descoberta, consolidada por Galileu Galilei (1564-1642) no século XVII, feriu o orgulho religioso e antropocêntrico da humanidade, que via o universo criado para si. A segunda ferida é atribuída a Charles Darwin (1809-1882), com sua teoria da evolução das espécies em “A Origem das Espécies”, 1859, que quebrou a ilusão de que o humano é uma criação divina especial, separada dos demais animais. Darwin mostrou que os seres humanos evoluíram de ancestrais comuns com outros primatas, através de seleção natural, reduzindo o homem a uma espécie animal entre outras, sujeita às leis biológicas e sem um "destino divino" único. Finalmente, Freud se autodenomina responsável pela terceira ferida: a descoberta do inconsciente, que abala a ilusão de que o humano é mestre de sua própria mente e ações. Em obras como “A interpretação de sonhos”, 1900, e “O ego e o id”, 1923, ele demonstra que o consciente é apenas a superfície, enquanto o inconsciente (regido por desejos pulsionais, recalques e conflitos edípicos) governa grande parte do comportamento, tornando o ego "não senhor em sua própria casa". Para Freud, essas feridas representam o progresso científico: cada uma destrói uma ilusão narcísica, mas permite uma visão mais realista e madura da humanidade, embora gere resistência e sofrimento. Essa tríade reflete o pessimismo freudiano tardio, onde o avanço cultural é sempre pago com o preço da desilusão.

Assim, mais do que uma ciência no sentido estrito, a Psicanálise permanece como uma das mais profundas tentativas já elaboradas de compreensão do humano em sua complexidade pulsional, simbólica e cultural.

 

19- Algumas das principais obras de Sigmund Freud

 

a- Nível iniciante

1- Über Träume. Título traduzido: Sobre os sonhos. Data da primeira publicação: 1901.

Texto acessível que sintetiza as ideias centrais sobre o funcionamento dos sonhos, apresentando-os como realização disfarçada de desejos inconscientes, com exemplos simples do cotidiano e uma introdução aos mecanismos de distorção onírica. É um resumo de sua obra maior, “A interpretação de sonhos”, 1900.

2- Bruchstück einer Hysterie-Analyse. Título traduzido: O caso Dora: Análise de fragmentos de uma histeria. Data da primeira publicação: 1905 (1901).

Relato clínico de uma jovem paciente com sintomas histéricos, onde Freud explora os conflitos sexuais inconscientes, a transferência e os sonhos como vias de acesso ao reprimido, ilustrando os primeiros passos da técnica psicanalítica.

3- Analyse der Phobie eines fünfjährigen Knaben. Título traduzido: O pequeno Hans: Análise da fobia de um menino de cinco anos. Data da primeira publicação: 1909.

Estudo de caso infantil baseado em relatos do pai, que demonstra como medos fóbicos surgem de complexos sexuais infantis, especialmente o complexo de castração, marcando uma das primeiras aplicações da Psicanálise à infância.

4- Über Psychoanalyse: Fünf Vorlesungen. Título traduzido: Cinco lições de Psicanálise. Data da primeira publicação: 1910 (palestras proferidas em 1909).

Série de conferências introdutórias proferidas na Clark University (EUA), oferecendo uma visão panorâmica acessível da Psicanálise: origens com Breuer e histeria, abandono da hipnose, interpretação dos sonhos, sexualidade infantil, neuroses e transferência. Escrito de forma narrativa e didática, serve como excelente síntese inicial para quem entra no universo freudiano.

5- Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse. Título traduzido: Conferências introdutórias sobre a Psicanálise. Data da primeira publicação: 1915-1917.

Série de palestras didáticas que expõem os fundamentos da Psicanálise, cobrindo atos falhos, sonhos, repressão e neuroses, destinadas a um público amplo sem conhecimento prévio.

6- Neue Folge der Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse. Título traduzido: Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise. Data da primeira publicação: 1933 (1932).

Continuação das conferências anteriores, com temas mais avançados como a angústia, o feminino, a pulsão de morte e visões gerais sobre a visão de mundo psicanalítica.

7- Abriss der Psychoanalyse. Título traduzido: Esboço de Psicanálise. Data da primeira publicação: 1940 (1938 - publicado postumamente)

Síntese concisa e inacabada dos princípios fundamentais da Psicanálise, abordando o aparelho psíquico, as pulsões, o desenvolvimento e a técnica terapêutica, como um testamento teórico.

 

b- Nível intermediário

8- Die Traumdeutung. Título traduzido: A interpretação de sonhos. Data da primeira publicação: 1900 (1899).

Obra fundacional que estabelece os sonhos como a “via régia” ao inconsciente, detalhando o conteúdo manifesto e latente, o trabalho do sonho e a realização de desejos reprimidos.

9- Zur Psychopathologie des Alltagslebens. Título traduzido: A psicopatologia da vida cotidiana. Data da primeira publicação: 1901 (com edições ampliadas até 1904).

Análise de atos falhos, lapsos verbais, esquecimentos e erros cotidianos como expressões de conflitos inconscientes, mostrando que o inconsciente se manifesta na vida normal.

10- Der Witz und seine Beziehung zum Unbewussten. Título traduzido: Os chistes e sua relação com o inconsciente. Data da primeira publicação: 1905

Exploração do humor como mecanismo de liberação de energia psíquica reprimida, comparando técnicas do chiste com o trabalho do sonho e revelando processos inconscientes no prazer cômico.

 

c- Nível avançado

11- Entwurf einer Psychologie. Título traduzido: O projeto para uma psicologia científica. Data da primeira publicação: 1895 (publicado postumamente em 1950).

Tentativa inicial de fundamentar a psicologia em bases neurológicas, descrevendo o funcionamento mental como descarga de energia, precursor das ideias de pulsão e repressão.

12- Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Título traduzido: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Data da primeira publicação: 1905.

Revolucionária exposição da sexualidade infantil, perversões e fases do desenvolvimento libidinal, argumentando que a sexualidade é central na formação da personalidade e das neuroses.

13- Totem und Tabu. Título traduzido: Totem e tabu. Data da primeira publicação: 1912/1913.

Aplicação da Psicanálise à antropologia, propondo origens inconscientes do tabu do incesto e do totemismo a partir de um parricídio primitivo na horda original.

14- Zur Einführung des Narzißmus. Título traduzido: Sobre o narcisismo: Uma introdução. Data da primeira publicação: 1914.

Texto metapsicológico fundamental que introduz o narcisismo como complemento libidinal do egoísmo primitivo, distinguindo narcisismo primário (infantil, autoerótico) e secundário (regressivo). Reformula a teoria da libido ao diferenciar libido do ego e libido objetal, explora relações com o ideal do ego, psicoses e autoestima, marcando uma transição crucial para a segunda tópica.

15- Das Unheimliche. Título traduzido: O inquietante. Data da primeira publicação: 1919.

Investigação estética e psíquica do sentimento de estranhamento, ligado ao retorno do reprimido, ao duplo e ao familiar que se torna assustador.

16- Jenseits des Lustprinzips. Título traduzido: Além do princípio do prazer. Data da primeira publicação: 1920.

Introdução da pulsão de morte como contraponto ao princípio do prazer, com conceitos como compulsão à repetição e dualismo pulsional.

17- Massenpsychologie und Ich-Analyse. Título traduzido: Psicologia das massas e análise do ego, ou, Psicologia de grupo. Data da primeira publicação: 1921.

Análise dos fenômenos coletivos pela identificação e libido, explicando líderes, igrejas e exércitos como regressões a estruturas primitivas do ego.

18- Das Ich und das Es. Título traduzido: O ego e o id. Data da primeira publicação: 1923.

Reformulação da tópica psíquica em id, ego e superego, descrevendo conflitos internos e o papel mediador do ego frente às pulsões e à realidade.

19- Hemmung, Symptom und Angst. Título traduzido: Inibições, sintomas e angústia. Data da primeira publicação: 1926.

Revisão da teoria da angústia como sinal de perigo, diferenciando inibições, sintomas e mecanismos de defesa na segunda teoria das neuroses.

20- Die Zukunft einer Illusion. Título traduzido: O futuro de uma ilusão. Data da primeira publicação: 1927.

Crítica psicanalítica à religião como ilusão consoladora frente ao desamparo humano, prevendo seu declínio com o avanço da ciência.

21- Das Unbehagen in der Kultur. Título traduzido: O mal-estar na civilização. Data da primeira publicação: 1930 (1929).

Reflexão sobre o conflito inevitável entre pulsões individuais e exigências culturais, com o preço da repressão sendo o sofrimento civilizacional.

22- Die endliche und die unendliche Analyse. Título traduzido: Análise terminável e interminável. Data da primeira publicação: 1937.

Discussão sobre os limites da cura psicanalítica, fatores como resistência biológica e o “rocha viva” (biologischer Fels) da castração ("rocha viva da castração" ou "rochedo da castração" - em inglês, "bedrock of castration", ponto de resistência fundamental e inalterável na análise: para o homem, o medo da castração e rejeição da feminilidade como passividade; para a mulher, a inveja do pênis e aceitação da falta).

23- Konstruktionen in der Analyse. Título traduzido: Construções em análise. Data da primeira publicação: 1937.

Exploração da técnica de reconstruir fragmentos esquecidos da história do paciente, comparando-a à arqueologia e discutindo sua validação indireta.

24- Der Mann Moses und die monotheistische Religion. Título traduzido: Moisés e o monoteísmo. Data da primeira publicação: 1939 (redigido entre 1934-1938).

Hipótese especulativa sobre Moisés como egípcio e o monoteísmo como trauma coletivo, com retorno do reprimido na história judaica.

 

Silvério da Costa Oliveira.

 


 

Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.

Site: www.doutorsilverio.com

(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua autoria)

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