Por: Silvério da Costa Oliveira.
Edmund Husserl
1- Vida
Edmund Gustav Albrecht Husserl (1859-1938) nasceu em Prossnitz, Moravia, no então Império Austríaco, e hoje Prostejov, na República Tcheca, em 8 de abril de 1859 e faleceu em 27 de abril de 1938, em Freiburg im Breisgau, na Alemanha.
O filósofo Husserl teve uma formação inicial profundamente matemática e lógica, desenvolvendo sua filosofia a partir deste ponto. Husserl é considerado o fundador da Fenomenologia. Proveniente de uma família judaica, foi batizado na Igreja protestante luterana no ano de 1886. Seus pais estavam envolvidos no comércio têxtil e sua família era de classe média, valorizando a educação formal. Durante sua infância e adolescência a e educação religiosa esteve presente, mas ao final de seus estudos básicos já demonstrava interesse e aptidão para as ciências e o raciocínio lógico-matemático. No ano de 1887, casou-se com Malvine Steinschneider (1861-1950), filha de um professor do ensino secundário de Prossnitz, de origem judia e convertida ao protestantismo, com quem teve três filhos: Elisabeth, Gerhart e Wolfgang. Essa união proporcionou estabilidade pessoal, permitindo que Husserl se dedicasse à academia, enquanto Malvine gerenciava o lar e, mais tarde, preservaria parte de seu legado intelectual.
Husserl sofre influência em seus estudos da abordagem em matemática de Karl Weierstrass (1815-1897) e Leo Königsberger (1837-1921) e em filosofia, das ideias de Franz Brentano (1838-1917) e Carl Stumpf (1848-1936). Os estudos em matemática começaram na Universidade de Leipzig, 1876, onde estudou matemática, física e astronomia por dois anos, e depois em Berlim, 1878, onde aprofunda seus estudos em análise matemática e teoria dos números, refinando sua habilidade em lidar com conceitos abstratos. A partir de 1881 começa a estudar em Viena e obtém seu doutorado em 1883 com a tese Beiträge zur Variationsrechnung ("Contribuições ao cálculo das variações").
A virada decisiva para a filosofia ocorreu entre 1884 e 1886, quando Husserl frequentou as palestras de Franz Brentano em Viena, um filósofo que enfatizava a intencionalidade da consciência e a distinção funcional entre atos mentais e objetos. Brentano, com sua abordagem descritiva da psicologia, inspirou Husserl a abandonar uma carreira puramente matemática e explorar as fundações lógicas do conhecimento.
Em 1884, passa a dedicar-se mais intensamente à filosofia, frequentando as aulas de Brentano e Stumpf. Em 1886, indicado por Brentano e sob tutoria de Carl Stumpf se prepara para a habilitação na Universidade de Halle. Ali Husserl desenvolve e escreve Über den Begriff der Zahl ("Sobre o Conceito do Número", 1887) que lhe fornecerá a base para a elaboração de sua importante obra Philosophie der Arithmetik ("Filosofia da Aritmética", 1891). Em 1887 atuou como Privatdozent na Universidade de Halle-Wittenberg. Posteriormente, em 1901 foi professor na Universidade de Göttingen e em 1916 na Universidade de Friburgo, na qual ficou até 1928, quando se aposentou. Após sua aposentadoria dedicou-se a palestras que se tornaram célebres (Paris, 1929 – Praga, 1935). A partir de 1933 sofreu a perda de seus privilégios acadêmicos em virtude da ascensão do nazismo na Alemanha. Morre em Friburgo no ano de 1938.
Os anos finais de Husserl foram assombrados pelo contexto político da Alemanha nazista. Em 1933, devido às leis antissemitas do regime, apesar de sua conversão e do serviço militar de seu filho durante a Primeira Guerra Mundial (Husserl perdeu um filho, Wolfgang, em 1916, durante o conflito), Husserl foi proibido de usar a biblioteca universitária e de participar de eventos acadêmicos oficiais por sua origem judia. Aposentado compulsoriamente, ele continuou a trabalhar em particular, produzindo obras como "Lógica Formal e Transcendental",1929, "Meditações Cartesianas", 1931, e "A Crise das Ciências Europeias", 1936, na qual diagnosticava a perda de sentido na racionalidade ocidental. Sua saúde declinou, e em 27 de abril de 1938, aos 79 anos, Husserl faleceu em Freiburg de pleurisia, deixando um vasto arquivo de manuscritos inéditos. Sua esposa Malvine e assistentes como Ludwig Landgrebe preservaram parte desse material, mas muitos foram ameaçados pela Gestapo; felizmente, o franciscano Herman Leo Van Breda os transportou para Louvain, na Bélgica, fundando o Arquivo Husserl, que garantiu a perpetuação de seu legado.
Influências como as de Gottlob Frege, cuja obra o alertou para os perigos do psicologismo, e de Wilhelm Dilthey, com sua ênfase na historicidade, enriqueceram seu pensamento, embora Husserl mantivesse uma postura crítica em relação ao historicismo e ao relativismo. Sua pesquisa e análises desenvolvidas no correr de sua obra filosófica foram críticas ao Positivismo e ao Nominalismo e se colocaram em um diálogo crítico com as ideias e a obra de Kant.
A vida de Husserl reflete uma jornada de busca incansável pela clareza e rigor no pensamento, influenciando gerações de filósofos na tradição continental. Seu compromisso com a fenomenologia como ciência rigorosa das essências transcendentes não apenas exerceu forte influência na filosofia que a ele se seguiu, mas também ecoou em campos como a psicologia, a sociologia e a hermenêutica, apesar dos desafios pessoais e históricos que enfrentou. Sua vida, marcada pela transição de matemático a filósofo, exemplifica a tensão existente entre o idealismo lógico e as contingências presentes na existência humana. Husserl marca o desenvolvimento do pensamento humano, e proporciona um impacto duradouro que continua a ser explorado na filosofia mesmo nos dias atuais.
2- Ideias
O pensamento de Edmund Husserl representa uma das contribuições mais fundamentais para a filosofia do século XX, marcando a transição de uma abordagem lógico-matemática para uma fenomenologia transcendental que busca as estruturas essenciais da consciência e do mundo vivido.
A filosofia de Husserl evolui para o que este chama de um “idealismo fenomenológico transcendental”. Não há um pensamento único em uma evolução unidirecional e sim o que temos é um pensador que pode ser chamado de “inquieto”, que ao buscar criar sua filosofia evolui ao ponto de podermos falar em “primeiro”, “segundo”, etc. Husserl. Husserl começa seus estudos imerso na matemática, segue caminho progressivamente para a lógica, dali para o estudo do significado intencional, passa a análise dos fatos da consciência, segue para a concepção de uma consciência imanente na qual se encerra todo o mundo da objetividade, continua sua evolução filosófica admitindo a realidade de um mundo espiritual. Mas durante todo este trajeto se manteve presente em sua análise das estruturas lógicas enquanto fios condutores da estruturação das essências objetivas. De fato, não temos aqui um pensador sistemático ou um sistema filosófico único e sim questionamentos filosóficos e suas respostas, por vezes partindo de distintas posições.
Em suas obras iniciais, como a "Filosofia da Aritmética" (1891), ele explorava as origens psicológicas dos conceitos numéricos, propondo que números não são meras abstrações mentais, mas resultam de atos coletivos de contagem intuitiva. No entanto, essa fase inicial ainda carregava traços de psicologismo, uma doutrina que reduz as leis lógicas a processos psicológicos empíricos, o que Husserl viria a rejeitar veementemente, reconhecendo que tal redução compromete a universalidade e a objetividade do conhecimento. A virada veio com as "Investigações Lógicas" (1900-1901), onde Husserl estabelece a lógica como uma ciência ideal, independente da psicologia. Aqui, ele distingue entre o conteúdo psicológico de um ato mental e o significado ideal que transcende o indivíduo, introduzindo o conceito de intencionalidade como a característica essencial da consciência: todo ato consciente é dirigido a um objeto, seja ele real ou ideal.
Percebemos em suas discussões e elaborações de seus problemas filosóficos a presença de uma leitura atenta da obra dos idealistas alemães, como, por exemplo, Hegel, do idealismo transcendental de Kant, da escola filosófica do Racionalismo inaugurada por Descartes, na qual se faz presente também a discussão sobre Monadologia em Leibniz, bem como, temos presente a Escola Empirista com Locke, Berkeley e Hume, dando rumos a elaboração dos questionamentos presentes no pensamento filosófico desenvolvido por Husserl.
Husserl apresenta uma crítica ao psicologismo, que tenta derivar a lógica do pensamento. Propõe Husserl uma clara delimitação da esfera da lógica. Segundo Husserl, as leis psicológicas são empíricas, vagas, limitadas à verossimilhança e a comprovação por meio de fatos, já as leis lógicas são diferentes. Estas são precisas, exatas, certas, normativas, ideais.
Husserl nos apresenta como método da fenomenologia buscar a essência do objeto, seu “eidos”, captando-o diretamente. A redução eidética permite abstrair das particularidades empíricas para captar as essências universais (eidos), através da variação imaginativa: ao imaginar variações de um objeto, identificamos o invariante que define sua essência. Já a redução transcendental aprofunda isso, reduzindo o ego empírico ao ego transcendental, um polo puro de consciência que constitui não apenas objetos, mas também o tempo, o espaço e a intersubjetividade. Husserl enfatiza que o mundo não é dado independentemente da consciência, mas é fenomenologicamente constituído, invertendo o realismo ingênuo sem cair no idealismo subjetivo presente na filosofia desenvolvida por Berkeley. Husserl busca por conexões essenciais, é puramente descritivo, buscando descrever a essência da coisa. Seu método não se propõe a explicar mediante leis ou a deduzir a partir de princípios. Cabe distinguir entre o ver em geral do ver meramente sensível e experimental, distinção esta que, por não ser feita pelos Positivistas, gera erro. Husserl não adota a dúvida cartesiana como método, embora se inspire nela para fundamentar a “epoché”. Para a fenomenologia de Husserl não cabe o método da dúvida cartesiana, mas na busca do “eidos” cabe adotar uma atitude de ausência de juízo, “epoché”, objetivando livrar-se de preconceitos filosóficos, científicos ou mesmo opinativos. A “epoché” consiste em colocar entre parênteses o mundo natural e suas crenças cotidianas, não para negá-lo, mas para examiná-lo em sua constituição pela consciência. Essa suspensão revela a consciência como transcendental, pura e intencional, capaz de constituir o sentido do mundo. Para a fenomenologia de Husserl, todas as demais fontes de informação devem ser colocadas entre parênteses, focando somente na essência.
Propõe Husserl uma teoria da redução e da intencionalidade, esta última herdada de seu mestre, Brentano. Por meio desta redução se tem acesso a consciência, ou dito de outra forma, a vivências que se destacam por serem vivências de um dado objeto, “vivências intencionais ” (intentionale Erlebnisse). Estamos diante de consciências de alguma coisa (amor, apreciação, etc.) em uma relação intencional com esta mesma coisa. Ao aplicar a redução fenomenológica a estas vivências intencionais obtemos a consciência enquanto puro centro de referência e intencionalidade. Deste modo, o objeto intencional é dado a consciência e passa a não ter outra existência que a dada intencionalmente a este mesmo objeto por este sujeito em particular. A Fenomenologia torna-se uma ciência da essência das vivências puras, pois, depois da redução ocorrida, a existência passa unicamente a ser vinculada à intencionalidade do sujeito.
Para Husserl nossa compreensão do mundo circundante só é possível a partir do modo como este mundo se manifesta para nós enquanto consciência. Não é possível falar de um mundo em si mesmo, sem a passagem por nossa consciência, do mesmo modo, não é possível falar de uma consciência em si mesma. Cabe à consciência a responsabilidade por dar sentido a todas as coisas. Quando falamos em “fenômeno” na filosofia de Husserl, falamos em como uma dada coisa qualquer aparece ou manifesta-se para um determinado sujeito, ou seja, falamos da aparência das coisas e não das coisas em si mesmas. Deste modo, todo conhecimento na medida em que se inicia nos fenômenos relacionados as coisas, deve ser entendido como conhecimento fenomenológico. Deste modo, Husserl destaca o protagonismo do sujeito diante do objeto. É a consciência intencional que atribui sentido ao objeto e consciência é sempre consciência de algo, não possuindo por si só uma existência independente do objeto que percebe. Os fenômenos são, em verdade, a manifestação da consciência. Sujeito conhecedor e objeto conhecido se fundem, formando algo único. Para ser mais preciso, sujeito e objeto mantêm distinção, mas encontram-se em correlação intencional estruturante. Lembremos aqui que o termo “fenômeno” na filosofia significa tudo que aparece, tudo que é observável, tudo que possui uma aparição. Sua origem provém do grego “phainomenon”, aquilo que aparece.
Importantíssima a distinção feita por Husserl entre “noesis” e “noema”. A primeira, noesis, faz referência ao pensamento pensado e intencional, já que nossa consciência é intencional. Noesis é o ato intencional (apreender, julgar, recordar...). O segundo, noema, faz referência ao conteúdo deste pensamento presente em nossa consciência.
Nas obras posteriores, como "Lógica Formal e Transcendental" (1929) e "Meditações Cartesianas" (1931), Husserl aprofunda a dimensão transcendental, integrando-a à lógica e à epistemologia. Ele distingue a lógica formal (puramente analítica) da transcendental (fundada na subjetividade constituinte), argumentando que toda verdade lógica pressupõe uma evidência subjetiva, mas universalizável pela intersubjetividade. A noção de monadologia fenomenológica surge aqui: cada ego transcendental é uma mônada, mas conectada a outras através da empatia e da comunidade, formando uma harmonia pré-estabelecida de perspectivas. Husserl critica o solipsismo aparente de sua fenomenologia, afirmando que o outro é constituído na consciência própria como alter ego. Essa intersubjetividade garante a objetividade do mundo compartilhado, estendendo a fenomenologia a campos como a ética e a ontologia regional (estudo de essências em domínios específicos, como a matemática ou a arte).
Também muito importante é o conceito de Lebenswelt (traduzido como mundo da vida, mundo vivido ou mundo vital) é uma das contribuições mais originais e influentes da fase tardia do pensamento de Edmund Husserl, desenvolvida especialmente em sua obra A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental (1936). Ele surge como resposta a uma crise profunda que Husserl diagnostica na racionalidade ocidental moderna: as ciências, com seu enfoque objetivista e matematizante, perderam o contato com o solo originário de onde emergem todos os sentidos e significados, levando a uma perda de relevância para as questões humanas essenciais.
Em termos simples, o Lebenswelt refere-se ao mundo pré-científico, cotidiano e intuitivo que experimentamos de forma imediata e compartilhada antes de qualquer reflexão teórica ou abstração científica. É o horizonte de vivências concretas onde vivemos, atuamos e nos relacionamos intersubjetivamente: o mundo das percepções sensíveis, das práticas cotidianas, das tradições culturais, das evidências intuitivas e dos valores vividos. Não se trata de um mundo "subjetivo" no sentido psicológico individual, nem de um mundo "objetivo" no sentido das ciências exatas, mas de um domínio primordial, sempre já dado, que serve de fundamento para toda construção teórica posterior.
Husserl descreve o Lebenswelt como o "reino das evidências originárias": tudo o que percebemos diretamente (como o solo sob nossos pés, o céu acima, as relações com os outros, os objetos úteis no dia a dia) possui uma validade intuitiva imediata, anterior a qualquer idealização matemática ou formal. Por exemplo, na vida cotidiana, não vemos "partículas físicas" ou "equações geométricas", mas mesas, cadeiras, pessoas e paisagens que têm sentido prático e afetivo para nós. Esse mundo é intersubjetivo: compartilhado por uma comunidade de sujeitos, constituído historicamente e culturalmente, e marcado por uma relatividade relativa (não absoluta), pois varia entre culturas, mas mantém uma estrutura essencial universal acessível pela redução fenomenológica.
Em sua fase final, representada por "A Crise das Ciências Europeias" (1936), Husserl diagnostica uma crise na racionalidade ocidental, atribuída à matematização galileana que abstrai o mundo vivido (Lebenswelt) em favor de idealizações formais. O Lebenswelt, ou mundo da vida cotidiana, é o horizonte pré-científico e histórico onde se enraízam todas as ciências, mas que foi esquecido em prol de uma técnica objetivista. Husserl propõe a fenomenologia como terapia filosófica. Conceitos como a teleologia da consciência e a crise do sentido destacam sua preocupação com a humanidade: a filosofia deve restaurar o significado ético e vital da ciência, combatendo o niilismo e o relativismo. Essa obra reflete influências de Dilthey e da historicidade, mas Husserl mantém a primazia do transcendental sobre o empírico.
O legado das ideias de Husserl transcende a fenomenologia, influenciando Heidegger (com sua ontologia existencial), Sartre (no existencialismo), Merleau-Ponty (na fenomenologia do corpo) e até a psicologia gestáltica e a hermenêutica. Seus conceitos chave (intencionalidade, redução, essências e Lebenswelt) oferecem ferramentas para uma filosofia rigorosa que equilibra o subjetivo e o objetivo, convidando a uma reflexão contínua sobre como o mundo se apresenta à consciência. Apesar de críticas por suposto subjetivismo ou abstração excessiva, o pensamento husserliano permanece essencial para compreender a constituição do sentido em um mundo cada vez mais técnico e fragmentado, promovendo uma volta à experiência viva como fundamento do saber.
A seguir, apresento uma seleção das obras mais influentes de Edmund Husserl, organizadas cronologicamente pela data de primeira publicação. Escolhi aquelas que definem os pilares de sua fenomenologia transcendental, priorizando completude sem exaustão. Cada entrada inclui: (1) título original, (2) título traduzido para o português, (3) data da primeira publicação e (4) resumo original e conciso, redigido para destacar a contribuição central da obra, com rigor acadêmico e acessibilidade ao leitor interessado em filosofia. Essas obras representam o arco evolutivo do pensamento husserliano: do logicismo anti-psicologista às Investigações Lógicas, passando pela fenomenologia transcendental em Ideias, até a crítica cultural em A Crise. Elas formam o núcleo indispensável para compreender sua influência em Heidegger, Sartre e a filosofia continental.
3- Algumas das principais obras de Husserl
1- Título original: Philosophie der Arithmetik. Psychologische und logische Untersuchungen. Título traduzido: Filosofia da Aritmética: Investigações Psicológicas e Lógicas. Data da primeira publicação: 1891
Nesta obra inicial, Husserl examina as origens das representações numéricas, distinguindo entre conteúdo psicológico intuitivo e leis lógicas universais. Ele critica o psicologismo de pensadores como Mill e outros autores, propondo que a aritmética se funda em atos de coletividade abstrata, lançando as bases para sua virada ao idealismo lógico, embora ainda mantenha elementos psicologistas que Frege viria a criticar.
2- Título original: Logische Untersuchungen (2 volumes). Título traduzido: Investigações Lógicas. Data da primeira publicação: 1900–1901 (1º volume); 1901 (2º volume). A obra foi revisada em 1913.
Dividida em prólogos e seis investigações, esta é a obra fundacional da fenomenologia. Husserl refuta o psicologismo, estabelecendo a lógica como ciência ideal e a-phenomênica, e introduz conceitos como intuição categorial, significação e outros. Defende que o conhecimento se constrói por evidência intuitiva, não por associações empíricas.
3- Título original: Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Erstes Buch: Allgemeine Einführung in die reine Phänomenologie. Título traduzido: Ideias para uma Fenomenologia Pura e Filosofia Fenomenológica: Livro Primeiro – Introdução Geral à Fenomenologia Pura. Data da primeira publicação: 1913.
Aqui, Husserl radicaliza seu método com a epoché ou suspensão do juízo natural, acessando a consciência transcendental. Apresenta a redução eidética e fenomenológica, definindo a fenomenologia como ciência rigorosa das essências (Wesensschau), onde o mundo é constituído na intencionalidade pura, livre de pressupostos realistas.
4- Título original: Formale und transzendentale Logik: Versuch einer Kritik der logischen Vernunft. Título traduzido: Lógica Formal e Transcendental: Ensaio de uma Crítica da Razão Lógica. Data da primeira publicação: 1929.
Husserl aprofunda a crítica à lógica formal, distinguindo-a da transcendental ao revelar sua origem na subjetividade constituinte. Analisa evidência, verdade e apodicticidade, mostrando como a lógica pessoal (subjetiva) se universaliza na intersubjetividade, combatendo o objetivismo e o subjetivismo extremos.
5- Título original: Cartesianische Meditationen und Pariser Vorträge. Título traduzido: Meditações Cartesianas e Palestras de Paris. Data da primeira publicação: 1931 (conferências proferidas em 1929).
Inspiradas em Descartes, estas cinco meditações delineiam o método fenomenológico como via para a filosofia como ciência rigorosa. Husserl descreve a epoché, a redução transcendental e a constituição do mundo e do ego, enfatizando a intersubjetividade como base para a comunidade de mônadas e a ética universal.
6- Título original: Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie. Título traduzido: A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental. Data da primeira publicação: 1936 (publicado parcialmente; edição completa póstuma em 1954).
Obra póstuma e culminante, Husserl diagnostica a crise da racionalidade ocidental pela perda do sentido teleológico da ciência, reduzida a técnica formal. Propõe a fenomenologia como restauração da vida (Lebenswelt), unindo subjetividade histórica e transcendental para recuperar a humanidade europeia em sua vocação filosófica.
Silvério da Costa Oliveira.
Prof. Dr. Silvério da Costa Oliveira.
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